A mais bela, a mais pura e a mais duradoura glória literária de prosa da blogosfera

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quarta-feira, 31 de março de 2010

Saúde para os idiotas

Caro leitor,
Idiotas existem por todo o lado. Enganam-se as pessoas que pensam que tal é um fenómeno exclusivo em Portugal ou predominante neste pedaço do mapa-múndi. Mesmo na “Terra das Oportunidades” há oportunidades para as pessoas concretizarem os seus sonhos, mas igualmente para os idiotas viverem as suas idiotices. E sendo idiotas, escolhem igualmente um nome idiota para intitular o seu movimento – o idiótico movimento Tea Party.
Na sequência da aprovação pelo Congresso da Reforma de Saúde do Presidente Obama, diversos congressistas democratas receberam ameaças de morte. Apoiados no argumento de que os Estados Unidos caminham para um estado comunista liderados por um Presidente com tendências colectivistas, estes movimentários acham-se no direito de recorrer a todo o tipo de medidas para fazerem valer os seus pontos de vista. A América resvala para o extremismo. Não deixa de ser algo curioso que uma nação formada por imigrantes, que a partir do trabalho dessas pessoas se tornou na Nação mais poderosa do Mundo e sempre na vanguarda da abertura ao Exterior e dos seus correspondentes valores esteja agora neste limbo. Talvez sejam as consequências duma Guerra Aberta ao Terror promovida por Bush filho e que aumentaram ódios ao mundo árabe, da mesma forma que dividiu profundamente os americanos. A apologia da violência passou a fazer parte do vocabulário comum do povo americano e esse discurso tornou-se vulgar, comum e banal. Esse mesmo ódio profundo se revela agora em relação a um Presidente que julgam não ter nascido na América, um muçulmano encapotado, um comunista travestido que foi enviado por Alá himself para destruir a América. O idiotismo atinge a cúpula da América – segundo o Expresso, a ex-governadora do Alasca e aliada de McCain na corrida à Casa Branca, Sarah Palin “publicou na sua página do Facebook um mapa com 20 miras de espingarda, indicando os locais onde quer derrotar os democratas em Novembro”. As mensagens subliminares são perigosas e o clima de extremismo que se vive neste momento aconselha a prudência e não ao incitamento à violência.
Não deixa de ser algo curioso que algo que é generalizadamente aceite na Europa, provoque tamanha divisão na América. Embora o conceito do intervencionismo estatal seja altamente alarmante para os Americanos, não deixa de ser curioso que após uma época em que o Estado foi chamado a ocupar um papel central na Economia e que salvou o sector financeiro da bancarrota, uma Reforma que promove uma igualdade entre os cidadãos no que toca a cuidados de saúde cause tamanha apreensão. Isto apesar da ideologia reinante nos EUA apelar a um Estado muito menos Social do que aquilo que impera na Europa. Os Americanos são um povo activo, laborioso e audaz. A intervenção do Estado é vista como algo anormal. Mas a presença do Estado em alguns sectores deve ser vista como indispensável E a saúde é uma das áreas em que os privados não podem ser chamados a actuar da mesma forma que o sector público – veja-se, por exemplo, que os EUA têm uma esperança média de vida de 77,7 anos; Portugal tem uma esperança média de vida de 78 anos, não obstante as diferenças de avanços científicos entre os dois países. E o Sistema de Saúde promovido por Obama irá permitir que 32 milhões de pessoas, até agora excluídas e que não possuíam seguro, possam usufruir de cuidados médicos. Quem faz uso de argumentos de excessivo intervencionismo do Estado na vida dos cidadãos não deve estar bem ciente do papel do Estado. Para que serve o Estado senão para ajudar aquelas pessoas que não têm os meios necessários para assegurar os seus tratamentos de saúde? Ou deve ele estar refém dos argumentos que sustentam um excessivo intervencionismo e assistir, impávido e sereno, à morte daqueles que não têm seguro de saúde porque não dispõem de condições financeiras ou porque as seguradoras se recusam a segurar aquela pessoa?
A verdade é que Obama consegue uma vitória retumbante. Consegue algo que vários outros antecessores tentaram mas não conseguiram. O mesmo é afirmado por Thomas L. Friedman no New York Times: “President Obama’s winning passage of national health care is both exhilarating and sobering. Covering so many uninsured Americans is a historic achievement”. Os Republicanos apenas fazem uso de uma retórica inflamada, vazia de conteúdos e de argumentos. Como disse Obama, “os EUA são uma nação que faz o que é difícil, o que é necessário, o que está certo”.

terça-feira, 30 de março de 2010

Um PEC de nervos




Já passava da meia-noite de sexta-feira quando se soube que o Dr. Passos Coelho tinha ganho as directas para o PSD. Porém, tão cedo como esta segunda-feira, o Dr. Carlos passa ao ataque, decerto intimidado com esta nova direcção, sentindo os "maus ventos" a chegar e temendo pela calma bucólica do seu belo governo socialista.
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De facto o nosso caro doutor entende que uma oposição responsável deve deixar sempre passar um PEC proposto pelo Governo de forma a não criar ondas à tranquilíssima governação rosa. Quer-se portanto uma Oposição quieta e calada, mesmo que aquele governo recuse alterar uma vírgula ao texto que apresenta.
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Situação prática – o Governo apresenta a proposta com pompa e circunstância; a Oposição pergunta – vamos negociar? O Governo, do alto dos seus ministérios diz – Calai-vos e votai! Nós não negociámos convosco que ministérios não possuís… E a Oposição, como besta selvagem assustada, mete o rabinho entre as pernas e lá vota como lhes mandaram aqueles senhores…
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Se a acusação que o Dr. Carlos faz a Pedro Passos Coelho (que ao inviabilizar o PEC colocaria os seus interesses pessoais à frente do dos portugueses), ela também colhe quanto ao Sr. Eng. Técnico José Sócrates – pois ao recusar a negociação inviabilizaria qualquer acordo acerca do PEC. Preferia nenhum PEC a um negociado… Não se percebe grande diferença. Mais acresce que se Portugal vive uma situação difícil, mais culpas terá o Primeiro-Ministro – que já lá está no seu segundo mandato, já foi ministro e deputado – que o recém-eleito PPC, que nem deputado é. A lógica reside pois nesta equação: votem lá, não façam ondas. Se não votarem a culpa da crise é vossa. Se votarem a culpa também passa a ser vossa porque também votaram!
Também não se percebe porque só incomode ao Dr. Carlos a posição do PSD… O PCP disse mal e votou contra, o BE disse mal e votou contra, o CDS disse mal e votou contra. Mas só o PSD merece atenção… Será isto nervosismo?
Mas para o leitor formar posição esclarecida transcrevemos aqui as declarações de PPC acerca do PEC:
"Eu não ajudarei a viabilizar propostas de aumentos de impostos e portanto não me sinto vinculado a qualquer deliberação.” e “é possível reduzir o défice para três por cento sem recorrer ao aumento dos impostos e da carga fiscal”
Será que é por querer reduzir a despesa do Estado sem recorrer ao aumento de impostos (que hipocritamente dizem que não ocorrerá) que PPC vai lançar o caos em Portugal? Seria isto que nos levaria ao Juízo Final em plena Semana Santa? Cremos que não.
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Ora o que se retira das últimas declarações do Dr. Passos Coelho é que vai forçar o Governo a negociar… Isso é mau? Isso é irresponsável? Isso é censurável? Pois claro que não. Por gentileza, veja o leitor esta notícia. Daqui retira-se uma promessa aos militantes e aos portugueses que a nova direcção do PSD estará atenta a todas as propostas do Governo… Isto é populismo? Demagogia?
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Será que queremos a estabilidade assim a todo o custo, tornando-nos uns yes mens de um Governo descredibilizado, de um PM com uma honestidade que o comum dos portugueses questiona abertamente, rodeado de boys que só embaraços causam? Será que por tanto querer paz já nos contentamos com a paz do cemitério? Valerá a pena vergarmo-nos às prepotências do poder responsável pela crise interna para satisfazer as agências de rating? Ou valerá mais a nossa coerência e honestidade intelectual?

No entanto, e por absurdo, se considerarmos que o Governo está isento de culpa, e que esta pertence a quem está contra, destes quem terá mais culpa? Quem gostava de votar contra (como o Pedro Passos Coelho) ou quem votou mesmo contra (como o BE, o PCP ou o CDS) e que críticas neste blog não se conheceram?

Ora e para que não se diga que apenas andamos a reboque das declarações do Dr. Carlos, aqui deixamos um comunicado da Carbonara – Movimento para as Massas, certos que o leitor gostará de ver...



Esperando não levar uma falta disciplinar, com isto nos despedimos do leitor; até quinta-feira!

segunda-feira, 29 de março de 2010

Maus ventos se aproximam

A vitória de Passos Coelho nas eleições do PSD tem, desde já, uma consequência directa: os próximos tempos de governabilidade não se avizinham fáceis. É bom que não se esqueça da grave crise que o País atravessa que não se compadece com atitudes irresponsáveis da Oposição, nem com queixinhas pueris por parte do Governo. Ao Governo compete governar responsavelmente e à Oposição compete opor-se responsavelmente. Tudo isto no superior interesse do País. E isto não deve ser nunca esquecido – num grau mais elevado do que os interesses partidários, está o interesse do País. José Sócrates responde, como Primeiro-Ministro, perante os portugueses. Pedro Passos Coelho, como líder recém-eleito do PSD responde perante os militantes do PSD, mas este como partido vocacionado para o poder, responde também, em última instância, perante os portugueses. Passos Coelho esteve, por isso, mal, na última semana de campanha ao afirmar, em conjunto com Paulo Rangel, que votaria contra o Programa de Estabilidade e Crescimento. Apenas Aguiar Branco mostrou posição contrária – em função do lugar de líder parlamentar que desempenha e que obriga a posições de maior sensatez e renunciar a qualquer tentação populista. Passos Coelho, por seu lado, apelou à demagogia. A sua posição agrada aos militantes do PSD ansiosos por chegar ao poder, independentemente do custo dessa Tomada de Bastilha. Ao afirmar o seu voto contra o PEC, Passos Coelho colocou os interesses do seu partido à frente dos interesses do País. Na verdade, o CDS ao definir previamente a sua oposição ao PEC não deixava outra opção ao PSD senão de viabilizar a resolução de apoio ao Programa. Os políticos não podem esquecer o contexto em que o País se encontra – na véspera, a Fitch havia reduzido o rating da República. Era imperioso que a Oposição manifestasse o apoio ao programa do Governo para demonstrar aos mercados que Portugal está comprometido no objectivo de redução do défice. Veja-se, desde logo, que após a votação da resolução de apoio ao PEC, a Standard and Poor’s decidiu manter o rating português. É certo que o PEC não responde, de todo, às necessidades do País. Mas a rejeição do Programa daria ao sinal aos mercados que o Governo não teria condições de governabilidade para levara a cabo a execução do PEC. Mas, neste aspecto, o Governo não esteve bem – ao apresentar o Programa à Oposição como um documento acabado e não sujeito a negociação reduz a margem de comprometimento dela com o Programa. Afinal de contas, ele é um Programa que conta apenas com o contributo do Governo e não negociado em conjunto com a Oposição. A responsabilidade da Oposição varia em sentido igual na disponibilidade do Governo para acolher as suas ideias. Manuela Ferreira Leite revelou estar à altura das responsabilidades e demonstrou que acima de tudo, mesmo das vozes contrárias da sua bancada parlamentar, está o interesse Portugal. Sai com grande dignidade da liderança do PSD. Já Passos Coelho, apenas mostrou, para já, que está disposto a satisfazer os interesses do seu partido, de alcançar rapidamente a liderança do País após 12 anos de Governação Socialista em 15 anos possíveis. Porém, Passos Coelho não se deve esquecer duma coisa – agora que é líder do PSD, os seus comentários acerca do País não são apenas para consumo interno dos militantes do seu partido e que está a ser avaliado por todos os portugueses como líder de um PSD que dispõe de ambições governativas. Estas ambições não são conciliáveis com posições demagógicas apenas com o intuito de colher o apoio do partido.
Se Passos Coelho pretende, um dia, ser Primeiro-Ministro de Portugal terá de demonstrar também na Oposição uma atitude de responsabilidade, colocando o interesse de Portugal à frente do interesse do seu partido; o interesse dos portugueses à frente dos seus interesses pessoais. Caso contrário, como poderá alegar ele ter a credibilidade necessária para efectuar as reformas de que o País necessita e que são, continuadamente, sine die, adiadas?

sábado, 27 de março de 2010

Difamação derrota Corrupção por KO

Caro leitor,
Tenho a comunicar que sou uma pessoa feliz. E sou uma pessoa feliz pois descobri a minha verdadeira vocação e uma forma enriquecedora de levar a vida. Queira o leitor saber qual é – na verdade, a partir deste momento, eu tentarei, descaradamente, subornar alguém, de preferência num negócio de valores avultados. Em seguida, serei condenado em tribunal numa multa ridícula. Posteriormente, ganharei a fama de ser corruptor. O povo, por eu ser corruptor, tratar-me-á por aquilo que eu sou – um corruptor. E aqui reside o erro desses idiotas. Ao tratarem-me por corruptor elas definem a minha vida – eu irei processá-los por difamação e ganharei como indemnização o dobro do dinheiro que paguei pela multa por tentar subornar alguém.
Quinta-feira, 25 de Março de 2010, a justiça portuguesa fez história. Ricardo Sá Fernandes foi condenado a pagar uma indemnização de 10000 euros a Domingos Névoa por danos morais causados na sua pessoa. Segundo o tribunal, Fernandes que havia chamado “corruptor e vigarista” – o atrevimento! – àquele outro, afectando, assim, “de modo intolerável, o prestígio, o bom nome, a credibilidade, a consideração social e profissional do empresário”. Recordemos, ao leitor mais distraído, que Domingos Névoa foi condenado em sentença de 1º instância não transitada em julgado por prática de corrupção activa para acto lícito, crime pelo qual lhe foi aplicada a pena de multa e a módica quantia de 5000 euros. Portanto, Ricardo Sá Fernandes por ter lesado o bom-nome (?) de Domingos Névoa foi condenado a pagar uma indemnização que duplica o valor da multa que Névoa deverá pagar por ter subornado José Sá Fernandes. Caro leitor, nós buscámos uma forma de colocar a situação de uma forma mais ridícula. No entanto, acreditámos que a situação, em si, é suficientemente ridícula e, pudicamente, iremos abster-nos de tal exercício.
Afinal de contas, para os tribunais, aqueles que, supostamente, aplicam a justiça em nome do povo, é a difamação, esse terrível crime que consiste em chamar vigarista a alguém que é condenado em 1ª instância por prática de corrupção para acto ilícito, embora ainda não transitada em julgado, por ter sido interposto recurso para a 2º instância, que dissolve a lei, a moral, a virtude, os costumes, o trabalho, a justiça e que fecunda a troça, o deboche, a desonra, o indecoroso. Já a corrupção, essa é do domínio exclusivo da justiça divina e espera-se que Domingos Névoa preste contas directamente ao Todo-Poderoso e não à justiça terrena.
A mensagem que é enviada com esta sentença é perigosa. Cada crime tem em si, subjacente, um nível de danosidade social próprio. E o sinal que o tribunal envia é que é mais gravosa a lesão do bom-nome de alguém por lhe chamar vigarista e corruptor quando um tribunal de 1ª instância condenou esse indivíduo, embora a sentença ainda não tenha transitado em julgado. Recordemos que este ano Portugal recuou três posições no índice de corrupção da Transparência Internacional, da 32ª para a 35ª posição. É da competência dos tribunais garantir penas suficientemente duras que desincentivem a prática de actos de corrupção por forma a não demonstrar vista grossa aos mesmos e demonstrar perante a sociedade que cumpre um crime não passa impune.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Sugestão de Leitura

Pois é, lá voltaram os posts sérios… mas tem que ser; o Dr. Carlos já voltou a estar atento a estas nossas barbaridades

Da última vez que fizemos um post sobre um livro, fomos acusados por alguns de propaganda monárquica, o que confessámos até certo ponto - tratou-se apenas de uma reacção a uma propaganda republicana dissimulada e enganadora destinada aos mais jovens. Pois bem, tal não vai suceder neste post por não querermos que o Opinador se torne num folhetim, nem queremos maçar o caríssimo leitor com a nossa modesta (mas claramente superior) opinião sobre a forma do Estado.

O livro de que falamos tem teor político, é certo, mas tqmbém religioso - algo bastante apropiado para a Quaresma. Religioso esse que se encontra ligado sobretudo ao Estado Novo – A obra tem por título “Cardeal Cerejeira – o Príncipe da Igreja” e é da autoria de Irene Flunser Pimentel, que foi Prémio Pessoa (julgamos que em 2007) e é doutorada em História pela Universidade Nova de Lisboa, sendo uma especialista na história do Estado-Novo, contando com outras obras já publicadas.

Neste livro retrata-se a vida de um homem que nasceu no Minho em 1888 sendo que poderia ter-se tornado um simples pároco de aldeia mas que ao invés, acabou por conduzir os destinos da igreja portuguesa durante cerca de 50 anos, marcados por silêncios cúmplices com o Regime, desde o Tarrafal, à censura, passando pelo assassinato de Humberto Delgado. Mas o seu silêncio mais significativo teve que ver com a questão colonial…

Trata-se pois de uma figura política essencial no estudo do Estado-Novo visto também ter tido uma grande proximidade de Salazar (seriam amigos de longa data), influenciando o Ditador. Chegado a bispo no mesmo ano em que António de Oliveira Salazar aceitou ser ministro das Finanças, liderou os destinos da igreja a partir de 1930, participou na eleição de três papas, tendo o seu nome sido várias vezes falado como um sério candidato ao trono pontifício.

Esta obra é inovadora pois para além de condensar as várias informações sobre este Cardeal, resultou de um trabalho de investigação junto dos Arquivos do Patriarcado o que decerto terá contribuído para um maior esclarecimento sobre o tema.

Resta dizer que custa €28, foi lançada o mês passado e é da editora Esfera dos Livros, podendo ser encontrada numa livraria perto de si.

Não tendo mais assuntos pendentes para tratar, damos a semana de trabalho n’ Opinador como encerrada, desejando a todos um bom fim-de-semana com muito juízo, já que para a semana é semana santa, período de jejum e abstinência… Nada de folestriar por aí, mesmo que umas determinadas eleições acabem por correr bem!

quinta-feira, 25 de março de 2010

Obesidade curricular

A Educação tem por fim a perfeita adaptação do Homem às realidades da vida. Ela é central para o funcionamento de uma sociedade – senão vejamos. Se a grandeza de uma sociedade depende, em último grau, da natureza dos seus cidadãos, e como a natureza dos cidadãos é, sobretudo, definida na tenra idade e no treino desenvolvido para tal, devemos concluir que o bem-estar de uma sociedade, em última instância, depende de uma correcta Educação.
Isto constitui uma verdade e uma lei em diversos países – Portugal é, contudo, uma excepção. Dentro desta excepcionalidade, há uma regra geral: é que Portugal é a excepção, mas pelas razões erradas. Noutros países, o cerne da Educação está na Matemática, nas Ciências, nas Línguas ou nas Artes. Em Portugal, o cerne da Educação está no Estudo Acompanhado, na Formação Cívica e na Área Projecto. O Estudo Acompanhado tem por objectivo a organização dos métodos de estudo e de trabalho dos alunos. Não se pretende que os alunos estudem, mas pretende demonstrar-se como os alunos devem estudar de acordo com um modelo infalível pré-definido e sem o qual não é possível estudar correctamente. Estudar tornou-se uma Arte. A Formação Cívica pretende dotar os alunos das competências necessárias para que eles se revelem cidadãos exemplares no futuro. Actualmente, os cidadãos portugueses são uns embrutecidos e uns incivilizados. E porquê? A conclusão é lógica – porque não tiveram Formação Cívica à semelhança do que agora acontece. Esperamos com grande ansiedade ver os resultados dos alunos saídos do sistema de Educação e que tiveram essa honrosa possibilidade de frequentarem aulas de Formação Cívica para que guiem os futuros deste País. É ela a chave para untar os adolescentes de civismo para que eles no futuro se tornem cidadãos respeitadores, cumpridores, educados e tolerantes. Obviamente que tal ensinamento não é, de modo algum, susceptível de ser retirado senão for dito, directamente aos alunos que eles devem ser o modelo de cidadãos que se espera deles e, portanto, é necessário uma disciplina autónoma para tal. É necessário que o professor, com o indicador em riste, com um ar sério e ameaçador diga ao aluno, até então desrespeitador dos valores da sociedade, que ele seja uma pessoa séria e dedicada à causa pública. Obviamente, tal lição será facilmente esquecida quando um outro aluno, mais rebelde e desobediente, que não escutara a lição da professora, aplicar ao aluno que a escutara, uma lição de bullying no recreio. O seu amor pelo civismo irá, então, desvanecer-se. A Área Projecto pretende auxiliar o aluno na organização de trabalhos e desenvolvimento das capacidades de autonomia. Em termos percentuais, Portugal dedica 14% do tempo de aulas a estas disciplinas. A Matemática, por exemplo, ocupa 13%. Qual então a utilidade daquelas disciplinas para a perfeita adaptação do Homem às realidades da vida? Tendo em conta as limitações de tempo existentes para a aquisição de conhecimento, não deveríamos nós estar a empregá-lo em actividades que desenvolvam o máximo de vantagens para o indivíduo? Como nota Spencer, a questão está em como fazer uso das nossa faculdades para beneficiar os outros e nós mesmos – como viver absolutamente? A preparação para uma vida completa deve ser a função da Educação. E qual é a definição de vida completa para o Ministério da Educação em Portugal? Dedicar os alunos ao Estudo Acompanhado, a Formação Cívica e à Área Projecto. Tudo o restante é dispensável e acessório.
O mesmo Spencer nota que na Educação se deve proceder do mais simples para o mais complexo. O ensino básico em Portugal é composto por 14 disciplinas – número que poderá ser elevado para 15, caso se opte pela Educação Moral e Religiosa. O espírito que, inicialmente, é dotado de um pequeno número de faculdades que vão sendo, continuadamente, aumentadas, é, neste caso, fortemente posto à prova. O currículo do ensino ao invés de se fixar num conjunto de disciplinas centrais, dispersa as suas atenções pelo essencial mas, sobretudo pelo acessório. Qual a importância de disciplinas como aquelas que referimos na vida real das pessoas? O que pretendemos dizer é que, mais tarde, no desempenho efectivo da sua função na sociedade, todas aquelas disciplinas – Estudo Acompanhado, Formação Cívica ou Área Projecto – são de tão reduzida utilidade, que todo o conhecimento que foi então adquirido será, facilmente rasurado da memória. É, neste sentido, que as Ciências, a Matemática, as Línguas e as Artes devem constituir o cerne do currículo de qualquer Educação.
Foi, assim, com alegria que recebemos a notícia de que o Ministério da Educação prepara alterações na estrutura curricular do Ensino Básico, no sentido de o reduzir e de o dedicar às disciplinas verdadeiramente importantes na formação dos nossos alunos às realidades do seu futuro. Isabel Alçada equaciona a alteração do currículo do 7º, 8º e 9º anos com o intuito de haver uma menor dispersão das atenções por áreas que não são consideradas como fundamentais.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Greve às Greves


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Ontem assistimos a uma greve que não percebemos. Com efeito, os trabalhadores da CP aborrecidos com a ausência de aumentos salariais decidiram fazer greve. Até aqui tudo bem – se não ligarmos ao facto de que vivemos num país com meio milhão de desempregados, que esta greve afecta sobretudo quem não tem nada que ver com isto e que a crise quando aperta deveria ser para todos. Mas depois pensámos: quem define os aumentos salariais dos trabalhadores da CP não é a CP… É o Estado! E aqueles senhores grevistas decidem pressionar a CP para fazer aumentos que não tem competência para fazer… Nós humildemente afirmamos que não conseguimos perceber isto.
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Também não conseguimos perceber a posição dos pilotos da TAP que num momento tão bom como o que vivemos ameaçam com greve (de uma semana!) caso não vejam satisfeita a sua exigência de aumentos de 9%. O Opinador ainda não conseguiu apurar se se trata de uma verdadeira exigência ou se é alguma experiência de humor new age. Nós que na direita somos muito sisudos e não nos sabemos rir responderíamos com duas palavras a estes senhores. Não, não seria um “desculpem lá”, mas antes “requisição civil”. Ide lá brincar para vossas casas que com empresas estratégicas não brincam.
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O direito à greve foi sem dúvida importante durante a revolução industrial pois permitia reagir de forma célere e eficaz contra situações de verdadeira injustiça e cupidez dos empresários que obrigavam crianças a trabalhar mais de dez horas por dia ou que não garantiam as condições necessárias de saúde e segurança aos seus trabalhadores, isto entre muitos outros problemas.
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No entanto, em pleno século XXI, correndo o risco de nos chamarem reaccionários a nós que segundo alguns somos pelo mal, julgamos chegada a hora de re-equacionar o direito à greve. Como tal, cremos que este direito deveria conhecer novas limitações, desde logo sendo proibido aos funcionários públicos e trabalhadores de empresas participadas pelo Estado. Também deveriam existir limitações ao tempo de greve permitido bem como – e aqui vamos, já o sabemos, muito longe – uma agência governamental que fiscalizasse o exercício deste direito, não só através de critérios de legalidade mas também de oportunidade.
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O recurso à greve, nos últimos tempos tem conhecido um incremento sendo usado como arma de pressão política ilegítima mais do que como forma de assegurar o direito ao trabalho (anda sempre tudo mais preocupado com o direito à remuneração). Não se justifica a manutenção deste status quo e uma revisão do nosso ordenamento jurídico nesta matéria seria uma boa medida, a começar, desde logo, pela Constituição. A economia nacional, o bem-estar das pessoas, o nosso tecido produtivo não podem estar dependentes de meia dúzia de sindicalistas encarnados. Isto não é democracia, mais parece é ditadura do proletariado!
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O amigo leitor antes de se enervar connosco por defendermos isto pense na quantidade de pessoas que ontem viram a sua vida desorganizada por causa da greve da CP. Quantos trabalhadores terão perdido o seu subsídio de assiduidade e quantas empresas terão tido quebras de produção por causa de uma birrice irresponsável e inconsequente?

Ж

E como o Dr. Carlos anda ocupado com outras lides temos a gerência deste espaço por nossa conta. Assim, visto estarmos sem entidade que regule as nossas baboseiras continua pois, ó leitor amigo, o fórróbódó! Desta vez, e a pedido de uma assídua leitora, contamos o mito da unha grande do dedo mínimo.

De notar que se trata de uma estória e não de História pois não temos suporte documental fidedigno que demonstre a ligação entre as duas realidades.

Tudo começou segundo parece com a aristocracia francesa nos tempos do Rei-Sol, Luís XIV. Aquela rígida e formal associação de pessoas julgando-se superior ao comum dos mortais foi desenvolvendo ao longo dos tempos uma série de rituais que nos parecem estranhos (aos olhos do século XXI) que iam desde o tocar o mínimo possível nos copos – já que os criados já lá tinham mexido – até à cerimónia de vestir o rei.
Pois bem, como naqueles tempos era de bom tom fazer pouca chinfrineira (o que até é capaz de ser agradável) surgiu o costume de deixar crescer a unha do dedo mínimo para bater às portas. Assim, em vez de um som pujante de um punho cerrado a bater em madeira sólida tínhamos o quase-silêncio de uma unha crescidita a fazer um tic-tic-tic numa qualquer porta, muito discretamente.
Tal instituição – a unha grande – foi alvo de imitação por parte das classes mais baixas (que almejam sempre alcançar aqueles que imitam) permitindo a tão nobre instituição sobreviver até aos nossos dias, nas mãos das mais variadas pessoas e com uma diversidade de usos que decerto fariam corar muitos daqueles pioneiros do tic-tic-tic.

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Amanhã voltará o Dr. Carlos e teremos de nos deixar destas coisas… Entre apoios a candidatos de direita, posts contra as greves e mitos sobre unhas teremos com certeza um raspanete. O leitor não se preocupe connosco que, caso não nos sejam revogados os privilégios de administrador, estaremos cá outra vez na sexta-feira, com um post mais sério pois já cá estará o Dr. Carlos!

terça-feira, 23 de março de 2010

Porque é preciso mudar!

Nota: este texto não foi aprovado pelo Dr. Carlos e pode causar indigestão a algumas pessoas...


O amigo leitor decerto saberá que na próxima sexta-feira o PSD vai a votos para escolher o seu próximo Presidente da Comissão Política Nacional. Quatro candidatos se perfilam para assumir o cargo: Aguiar-Branco, Castanheira Barros, Paulo Rangel e Passos Coelho.
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Chegados aos últimos dias de discussão das propostas para este tão importante partido da democracia portuguesa, julgamos ter reunido as informações necessárias para, por fim, nos decidirmos e pronunciarmos. Assim, aqui e agora, manifestamos o nosso apoio à lista do Dr. Passos Coelho que terá o melhor e mais ambicioso programa para o partido e para o país.
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Quanto às propostas para o partido elas são conhecidas dos militantes e talvez não interessem tanto à maioria dos nossos leitores. Permitimo-nos passar à frente este tópico.
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Quanto às propostas para o país, afectam-nos a todos e de uma forma directa pois esta metade d’ Opinador está convencida que se tratam das propostas do próximo primeiro-ministro de Portugal. Olhemos, en passant, para três áreas fundamentais:



  • Quanto a políticas económicas apraz-nos verificar que se pretende um emagrecimento do sector público (especialmente na sua vertente empresarial) que vem atrofiando a nossa economia nas últimas décadas. Neste sentido propõe-se um programa de privatizações e reestruturações que, se feitas com responsabilidade, reduziram a carga orçamental que estes entes representam;
    Também se pretende uma clarificação do acesso ao crédito pelo Estado que muitas vezes concorre como se privado fosse ao capital que há em mercado, encarecendo esse mesmo capital (mesma oferta maior procura);
    As parcerias público-privadas também serão reduzidas bem como se prevê um reforço das competências do Tribunal de Contas.
  • Quanto ao ensino pretende-se reforçar a vertente reguladora do Estado através da Agência de Acreditação do Ensino Superior; Juntamente com isto será necessário uma cultura de exigência desde os primeiros anos de ensino.
  • Já no que toca a políticas sociais é cada vez mais urgente a reestruturação dos apoios prestados pelo Estado – e aqui será o ponto em que o PSD necessitará de maior coragem para reformar dado que esta matéria atinge directamente o dia a dia de muitas pessoas.
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Estas serão as três áreas que mais preocupam os cidadãos no Portugal de 2010 e nas quais este PSD se apresenta como uma verdadeira alternativa de Governo, com soluções totalmente distintas, e a nosso ver, preferíveis. Mas muito ficou por dizer pois não querermos maçar o leitor... Isto foi aquilo que julgamos mais diferença poder fazer nas opiniões dos eleitores. No entanto, para quem quiser, recomenda-se esta leitura onde está tudo explicado.
Não acolhemos algumas críticas que fazem à experiência e idade do candidato - temos tido políticos com décadas de ministérios e estamos onde nos vemos... Temos aqui alguém descomprometido que pode muito bem trazer uma lufada de ar fresco à política nacional.
Neste novo PSD, conseguimos perceber claramente no que se distancia do actual PS – menos Estado, mais exigência, mais liberdade.
Claro que conforme resulta do PEC, a nossa economia continuará a rastejar durante, pelo menos, os próximos três anos. No entanto é hora de castigarmos com o voto aqueles que mais tempo contribuíram para esta situação (nos últimos 15 anos o PS esteve no Governo cerca de 12) e de não recearmos uma nova abordagem do Estado que tem dado frutos em outras partes do mundo.
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Por isso aos militantes indecisos apelo ao voto nesta lista; aos que não são militantes peço que tenham atenção a este projecto político pois as próximas eleições legislativas poderão estar mais próximas do que julgamos!
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Despeço-me com um até amanhã (esta quarta feira excepcionalmente cabe-nos a gerência d' Opinador); e com um pedido de desculpas ao Dr. Carlos que teve de passar pelo martírio de ler isto...

segunda-feira, 22 de março de 2010

Baudelaire e Byron

Byron via na mulher “o efeito mais deslumbrante da natureza”, como dizia Schopenhauer. Apreciava as suas formas, as suas sensualidades, as suas linhas e os seus ardores. Baudelaire olhava a mulher e via, simultaneamente, um ser carnal e descarnado – via a carne e as suas negras volúpias, os seus vícios de ópio, os seus néctares inebriantes e todo um interior que o arrastava para os mais negros abismos nos quais contemplava a sua alma perdida, venal e satânica. Em Baudelaire, tudo são festins de carne – as orgias. Ao sentir a pele de uma mulher, ele sente o esfriamento do túmulo e o apodrecimento da alma. Em Byron, esses festins aparecem cobertos de sedas, de veludos, de doirados, de cristais. A Baudelaire é impossível ver essas claridades – ele é o Poeta do Mal. Tudo são desvairamentos febris, loucuras incessantes, violências lascivas e corpos despedaçados. Ele era incapaz de resistir aos simples encantos de uma Medeia matizada pelos raios de Sol, que aos seus olhos, não era mais do que um corpo negro e devasso. Era essa a causa dos seus males, dos seus desvarios – o prazer pelo prazer, aquele prazer mundanal, cru, despido de encantos, a apologia do luxo fácil, do erotismo trivial. Mas todo esse prazer, toda essa apologia, todo esse erotismo que, mesmo sendo mundanal, que mesmo sendo fácil, que mesmo sendo trivial, o atingiam com a força arrebatadora dum tumulto. Byron não tem essa nervosidade, essa intensidade, essa cadência, esse relevo de verso – mas tem o cultivo do prazer requintado, refinado, apurado e delicado – a opulência luxuosa. Baudelaire era o homem do prazer puro e imediato, o homem que se encobre com as vestes de Satanás, que se olha ao espelho e que sorri por se ver assim, terrível e escarlate, segurando na pena e sobre um papel branco e imaculado derramar e proclamar as aflições e os males da carne, as febres do sangue, em ebulição. Byron era o homem das sensualidades requintadas, dos seios de âmbar das mais belas Ladys inglesas – a sua loucura era meticulosa e laboriosa. Ele é o D. Juan refinado, o cinzelador de versos tendo por alcova uma nuvem, branca, num céu azul-ferrete, nos Etéreos…Em Byron, as mulheres são de feições serenas, de traços calmos e eloquentes, um sorriso puro e casto, um passado de bondade, uma alma transparente, um coração de amores inocentes…Em Baudelaire, as mulheres são demónios, são terríveis harpas que lhe caçam o coração, que o pisam e que se mostram indiferentes, são mulheres altivas, uivando, desprezando e escarnecendo daqueles homens covardes que se deixaram seduzir pelos seus feitiços e encantos…

E, assim, temos dois homens cantando as pancadas do Coração de uma maneira absolutamente oposta.

sábado, 20 de março de 2010

Programa de Estabilidade...o crescimento fica para depois

O PEC tem um mérito indiscutível – é credível. Os mercados aceitaram bem o Plano de Estabilidade e Crescimento Português e tal já teve reflexos nos juros dos empréstimos da República Portuguesa. A credibilidade do PEC era um imperativo. Podemos questionar as escolhas efectuadas, mas a meta de redução do défice para 3% até 2013 era incontornável. Nesse sentido, o Governo apresentou um programa com metas realistas – veja-se a evolução pessimista do problema do desemprego que pouco se alterará. O objectivo principal foi, portanto, alcançado. Mas o cumprimento do objectivo não era difícil. Difícil é conciliar o cumprimento do objectivo imediato – a redução do défice – com um conjunto de objectivos mediatos – o crescimento da economia portuguesa.
E neste PEC não se vislumbra uma linha estratégica para o desenvolvimento da economia. Não se conhece uma linha estratégica do Governo para assegurar um crescimento sustentado do País. Tudo o que Governo se limita a fazer é a anunciar medidas de estabilidade e de redução – matéria de crescimento não é da sua competência. O objectivo de redução do défice é para cumprir, o objectivo de crescimento da economia fica para mais tarde por questões de incompatibilidade de agenda.
Para além da anunciada convergência da idade da reforma do sector público com o sector privado, não se nota no PEC nenhuma ideia reformista do Governo em relação ao Estado. Para o Governo, o Estado é perfeito tal como está e, portanto, não são necessárias reformas para melhorar a sua eficiência.
A redução do défice do lado da despesa vem de paliativos essencialmente temporários – o congelamento do salário do funcionário público ou a redução do investimento público. São medidas temporárias mas que não resolvem o problema de fundo de Portugal. Este ciclo, já bem conhecido dos portugueses, consiste em congelar temporariamente os gastos mais facilmente controláveis pelo Estado durante o período de crise, e retomá-los imediatamente a seguir, logo que a crise pareça afastada. E, assim, vem Portugal desde o início do milénio. Cortando, retomando, cortando e retomando – aos solavancos. Mas sem encontrar um rumo estável. A redução do défice operar-se-á, do lado da despesa do Estado, sobretudo, por estes dois caminhos. Mas uma vez alcançada a meta de 3% do défice as despesas com estas duas rubricas irão novamente aumentar e os custos do Estado irão novamente aumentar. E quando tal acontecer, lá irá o Primeiro-Ministro, em tom pesaroso, dizer aos portugueses que a culpa é de toda gente, menos dele. Como dizia Ricardo Costa, “vamos pagar mais impostos, trabalhar mais anos, ter menos serviços, privatizar o que resta e ter pensões mínimas. Tudo isto para quê? Para que daqui a quatro anos alguém nos volte a dar a mesma receita.”
O Governo volta a perder uma nova oportunidade de indicar um caminho de crescimento sustentado para a economia portuguesa. Pelo contrário, o Governo voltou a apresentar um conjunto de medidas avulsas que reduzem a despesa do Estado apenas durante certo período. Uma vez decorrido esse hiato temporal, a situação voltará a ser a mesma. As medidas de austeridade do Governo destinam-se a um período específico. Após esse período as medidas de austeridade são colocadas na gaveta e os velhos problemas estruturais de Portugal regressam.
O Governo iniciou bem a sua primeira legislatura com ímpeto reformista. Mas o seu ímpeto durou apenas dois anos. Nos outros dois anos, o Governo foi tomar banhos de sol. Neste início de legislatura, o Governo iniciou logo pelos banhos de Sol e talvez nos últimos dois anos se dedique ao ímpeto reformista.

A juntar a todos estes problemas, soma-se a hipocrisia do Governo. Após ter jurado a pés juntos não subir os impostos e ter rasgado o pacto que propôs aos portugueses quando se submeteu ao seu voto, José Sócrates ainda tem o descaramento de não admitir um aumento real da carga tributária sobre os portugueses? Haja pelo menos a coragem e a decência de admitir, com frontalidade as medidas propostas. E não falamos de simples benefícios fiscais que distorcem a justiça social do sistema fiscal, mas de benefícios que incidem sobre despesas com saúde ou educação. Não são, portanto, benefícios destinados à nobreza. Actualmente, na política tudo é permitido: mentir, trair ou enganar. Não queiram é tomar o povo português como idiota semântico.
A revista “The Economist” recomendava aos governos a concentração sobre o crescimento económico: “Um crescimento mais elevado tranquiliza os mercados, aumenta as receitas fiscais e reduz a despesa em subsídios de desemprego e outros apoios sociais. Os políticos devem portanto evitar politicas que reduzam a taxa de crescimento a longo prazo, tais como as politicas de proteccionismo ou os impostos mais elevados, e em vez disso concentrar-se em medidas que aumentem o potencial de crescimento, tais como mercados de trabalho mais flexíveis e outras reformas que promovam a produtividade”. Obviamente este cenário idílico não se verifica em Portugal onde a palavra crescimento foi riscada do Acordo Ortográfico.

As privatizações, as quais ainda não são conhecidas em pormenor, são outro erro do Governo. Com o fim de realizar dinheiro a curto prazo, irá sacrificar a venda de organizações estratégicas para a economia e que conferem lucro ao Estado em vez de considerar a venda de outras que, pelo contrário, apenas acumulam passivo. O caso da TAP é sintomático. É necessário que se repensa também a situação de outras empresas de transporte, como a CP, a Carris ou a Metro. A venda pode não ser imperativa, mas a procura dum modelo de gestão mais eficiente não pode ser negada. Ao invés, o Governo opta por vender as companhias que lhe geram lucros, sacrificando uns trocos de curto prazo, por lucros a curto, médio e longo prazo. O Governo vende as jóias da Coroa e fica com a quinquilharia.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Fino como o Alho


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Em conversa com um leitor deste blog foi-nos sugerido que de vez em quando falássemos sobre inutilidades engraçadas que são para a maioria dos mortais desconhecidas… (e aqui se revela o nosso lado snob).
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Assim e porque até gostamos da ideia que se atreveram a sugerir-nos, vimos hoje falar da história desta expressão: Fino [ou Esperto] como o Alho. Decerto o amigo leitor já a ouviu e talvez a utilize. Mas sabe a sua origem?
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Pois bem, corria o longínquo ano da Graça de 1353 quando os homens bons, mercadores e marinheiros portugueses estabeleceram com o Rei Eduardo III de Inglaterra e França um tratado válido por 50 anos que permitia comércio livre em todas as cidades e vilas bem como direitos de pesca nas costas da Inglaterra e Bretanha. Ao contrário do que sucederia mais tarde, especialmente no Tratado de Methuen (que levou o nome do representante inglês que foi mais fino que os responsáveis portugueses), aquele acordo revelar-se-ia benéfico para os interesses nacionais visto ter permitido escoar a excedentária produção nacional.
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O responsável do lado português, procurador daqueles interessados, foi um mercador portuense, ao que consta oriundo da Sé ou da Ribeira, chamado Afonso Martins Alho que se deslocou a Londres para negociar directamente com o Rei Eduardo III de Inglaterra este acordo que viria a ser assinado em Julho de 1353 no castelo de Windsor.
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Por ter conseguido tão favorável tratado, Afonso Martins Alho conseguiu cair nas boas graças dos seus conterrâneos que lhe deram fama de negociador astuto, criando aquela expressão que nós ainda hoje utilizamos.
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Da próxima vez que o amigo leitor usar tal expressão lembre-se desta história que dá um excelente desbloqueador de conversas em longas viagens de elevador. De referir também que a variante “Esperto como um alho” está errada porque Alho em Windsor só houve um, o Afonso Martins e mais nenhum.
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Com isto me despeço de vós. Até para a semana!

quinta-feira, 18 de março de 2010

O Poder Segundo o Poder

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No post de hoje vamos falar de um livro. Não penseis, ó leitor, que se trata de um bonito romance de cordel… A matéria a que costumamos andar atento é bafienta e tem camadas de pó – trata-se da História (afinal somos um Lord e não uma Lady).
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Julgamos meritória qualquer obra que pretenda incutir nos jovens o gosto pela História. Trata-se de um Saber fundamental para nos compreendermos enquanto pessoas e para compreendermos o mundo em que vivemos. O homem não é Homem se não souber de onde vem. Mas isso já todos nós sabemos e ninguém coloca em causa. Porém, colocamos em causa outras coisas, coisas essas que há em abundância neste livro (aqui mesmo em baixo).
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Apenas agora cuidamos de falar desta obra pois foi recentemente que soubemos da sua existência – como costuma encontrar poiso nas estantes da literatura juvenil e como nós já não vamos para jovens, passou-nos despercebido. No entanto, uma vez encontrado e folheado não pudemos deixar de ficar impressionados com este livro que tem a chancela da Assembleia da República - impressionados negativamente (e eis que se demonstra os perigos do Estado se imiscuir na cultura); Passamos a explicar:
O que nos apoquenta é a forma como é relatada a implantação da república. A transição do regime é contada de forma a não deixar dúvidas aos jovens leitores sobre qual deles é o melhor. Permitimo-nos transcrever uns excertos:
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Quando havia eleições, ora ganhava um, ora ganhava outro” [refere-se à alternância democrática do final do século XIX]. “Acontece que, nesta época, ainda só havia controlo dos votos em Lisboa e no Porto. No resto do país, sem vigilância os senhores mais importantes da terra podiam alterar os resultados das eleições e fazer ganhar o seu partido, obrigando os empregados a votar em quem eles queriam”. Aqui pode colocar-se já uma questão: se não havia controlo dos votos para quê a maçada de obrigar as pessoas a votar? Enfim. No período republicano a obra nada diz acerca desta matéria, inferindo-se pois que as fraudes tinham acabado, o que consistiria numa clara vantagem pela adopção deste último regime (e aqui relembramos as palavras de Vasco Pulido Valente acerca do processo eleitoral na primeira república, in A República Velha: uma fraude mais vasta e descarada do que tudo aquilo a que no passado se atrevera a monarquia);
Outra situação que nos merece reparo é este excerto: "Em Maio de 1911 realizaram-se as primeiras eleições da República. Puderam votar todos os homens com mais de 21 anos, incluindo os analfabetos, desde que fossem chefes de família." Até aqui é verdade, mas uma verdade contada até meio pode tornar-se numa mentira… Se não vejamos: O governo provisório da república decidiu que não haveria eleição nos círculos em que não se apresentassem oposições – na maior parte do país ninguém foi às urnas! Depois das eleições de 1913 os analfabetos passaram a ser excluídos do recenseamento o que eliminou mais de metade dos eleitores. De referir que essas eleições tão democráticas (as de 1911) deram a vitória ao Partido Republicano Português com uma votação de 97,9% o que faria inveja a Sadam Hussein! As autoras contam o número de deputados eleitos e da média de idades deles mas esqueceram-se de referir o resultado das eleições! Curioso!
Pedimos ao benévolo leitor um pouco mais de paciência para mais um exemplo: "Enquanto preparava eleições esse governo aprovou leis revolucionárias para a época: separação entre a igreja e o estado, o que em Portugal foi uma total novidade.Isso significava por exemplo que os registos de nascimento, casamento e morte, que anteriormente eram feitos nas igrejas, passaram a fazer-se no registo
civil
”. Mais duas imprecisões: primeiro não se procedeu à separação entre o estado e a igreja mas à subordinação da igreja ao Estado; segundo não se criou o registocivil! Ele já existia… Apenas não era obrigatório podendo a pessoa optar por onde queria inserir os seus registos.
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O dualismo bem/mal pode funcionar muito bem no cinema norte-americano main stream. Não funciona na História. Não pode haver uma obra com pretensões de isenção que procure catalogar determinadas situações como trevas e outras como a luz. Tal é erróneo e perigoso, especialmente quando se trata de público jovem.
O mais grave de tudo isto - se bem que já é muito grave querer fazer passar um folhetim por uma obra científica – é o facto de nisto haver dinheiros públicos e a chancela da Assembleia que a todos nós nos representa. Independentemente de sermos monárquicos ou republicanos, se gostarmos de História (ou da honestidade e do rigor intelectual) não podemos deixar de criticar esta obra. É um dos piores exemplos que temos visto em já muito tempo. Mal andou a Sra. Ministra e a sua Co-Autora e mal andou a Assembleia.
A quem o ler – que o leia com espírito crítico e não acredite no pretenso ar científico e isento com que se apresenta.


Uma última nota para acabarmos com este assunto – 1: afinal os presidentes de junta não são todos roncadores; 2: O Dr. Carlos confunde legitimidade de título com legitimidade de exercício; 3 – as notícias recentes podem ler-se nos jornais; falo das antigas para ninguém se esquecer delas…

quarta-feira, 17 de março de 2010

Direito de Resposta

Lord Nelson dedicou, praticamente, metade da sua coluna de opinião a responder ao nosso artigo, invocando as suas razões para contrariar a nossa opinião relativamente ao aumento salarial dos Presidentes de Junta. Tal, entendemos nós, é merecedor de que a discussão se alongue para esclarecer algumas dúvidas, aprofundar posições, rebater argumentos e solidificar as nossas orientações.

1. Em primeiro lugar, o Dr. Nelson começa por rotular a nossa caricatura dos Presidentes de Junta como “insultuosa e abusiva”. Obviamente que não julgamos que todos os Presidentes de Junta são roncadores profissionais. Mas existem também roncadores. O Dr. Nelson não pode fazer vista grossa do retrato recente do poder local. Recordámos aqui as palavras do Dr. Fernando Seara, proferidas num tempo recente, em Dezembro do ano passado: "Temos de assumir claramente: há corrupção. Há indícios de corrupção a todos os níveis dos poderes do Estado" mas "só nas autarquias é que há generalização", salientou o autarca de Sintra.
Concordámos com o Dr. Seara. A corrupção existente no Estado não se limita ao poder local. Mas isso admitimos com grande à vontade, pois até agora, nunca receámos comentar qualquer caso, independentemente da área politica de que ele proviesse. A luta contra o polvo do Estado, seja ele o poder central ou o poder local, não distingue cor politica. Excepção ou generalização, os problemas merecem ser apontados.

2. O Dr. Nelson elogia a legitimidade reforçada de que gozam os eleitos locais. Tal é um facto indesmentível. Pessoalmente, apoiámos a criação de círculos uninominais e lançamos, desde já, outra ideia que passa pela criação de primárias para a eleição dos líderes políticos, à semelhança do que acontece nos EUA. Mas o Dr. Nelson afirma também que eu ofendo os eleitores locais ao insultar os Presidentes que esses eleitores escolhem, isto é, uma vez eleitos os Presidentes gozam de uma legitimidade intocável conferida pelas eleições. Não concordámos. Vejam-se actualmente os casos de Isaltino Morais em Cascais, de Valentim Loureiro em Gondomar, ou no passado, de Fátima Felgueiras em Felgueiras? Por certo, que estes exemplos, não serão a regra, repetimos. Mas eles existem e não podem ser negados. A legitimidade que estes senhores ganharam nas eleições é uma verdadeira legitimidade? As escolhas dos eleitores são legítimas, mas não inquestionáveis. Não nos refugiemos no politicamente correcto para negá-lo.

3.. O Dr. Nelson para criticar o Governo e o seu despesismo foi buscar aos arquivos uma notícia com um ano de existência. Tal não pode constituir um bom sinal. Se no decorrer desse ano, o Dr. Nelson apenas encontra sinais de má governação em notícias com um ano de existência, o PS deve andar a governar extraordinariamente bem. Para não sermos acusados de demagogia, diremos que tal não é sempre o caso – veja-se, por exemplo, o bónus que foi atribuído pelo Estado a José Penedos. Sobre tal afirmamos que é absolutamente vergonhoso.

4. Por fim, quanto à Dra. Daniela diremos ainda que uma coisa são as verbas destinadas às remunerações dos Presidentes de Junta, outra trata-se do reforço das transferências do OE para o poder local. Não nos opomos a um reforço das transferências e, sobretudo, a uma lógica de distribuição do investimento público de forma mais equitativa pelo País que não se limita apenas a Lisboa. E se os tempos voltam a exigir uma contenção do investimento público, tal não serve de desculpa ao Governo que voltou a centralizar os investimentos na capital – a linha de TGV Lisboa – Madrid, o novo aeroporto de Lisboa ou a terceira travessia sobre o Tejo. Insistimos que existem, de facto, bons Presidentes de Junta, mas, mais uma vez, o aumento salarial não se justifica, independentemente do bom trabalho desenvolvido. Pelo menos não no contexto actual.

terça-feira, 16 de março de 2010

À Lei da Rolha

Nota prévia: Esta metade d’ Opinador discorda frontalmente do último post do Dr. Carlos do qual se pretende distanciar expressamente.
Para nós, os eleitos para as autarquias locais não são roncadores profissionais – não serão todos perfeitos mas esta generalização é insultuosa e abusiva! As autarquias locais têm um relevo fundamental na vida dos cidadãos, principalmente na infância e na velhice bem como nas situações de maior carência e na qualidade de vida. Também as autarquias locais são por definição as que estão sujeitas a uma avaliação mais rigorosa por parte do seu eleitorado dado que, especialmente naqueles meios mais pequenos que tanta aversão causam ao cosmopolita Dr. Carlos, o eleitorado conhece mesmo os eleitos.
Acusá-los de caciquismo e inércia é insultar os cidadãos que os escolhem. Não há dúvida nenhuma que um presidente de junta tem mais legitimidade democrática do que um ministro. ´
Não defendemos aumentos salariais em 2010… Mas percebemos o motivo pelo qual tanto barulho faz o PS à volta destes 5 milhões de euros – quando não se conseguir cumprir as metas orçamentais podem sempre culpar esta migalha. Mas desperdícios há por todo o lado e não são eles que justificam más criações. Este governante que falta ao respeito por 5 milhões de euros, não consta que tenha repreendido ninguém pelo flop da energia das ondas que custou 70 milhões de euros ao ministro Mário Pinho e gerou NADA! Leia mais sobre esta bonita história aqui: http://tv1.rtp.pt/noticias/index.php?t=Parque-de-ondas-da-Agucadoura-esta-parado-ha-4-meses-devido-a-problemas-tecnicos.rtp&article=208678&visual=3&layout=10&tm=6.
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Concluímos esta nota dizendo que não entendemos que um mal possa justificar outro mal. Há maus autarcas em Portugal? Sim, há! Isso justifica a conduta insultuosa do Sr. Ministro? Claro que não. O Sr. Ministro foi mal-educado, fez uma generalização abusiva e devia ter vergonha das palavras que proferiu. Mantemos a nossa posição!
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Amigo leitor, este post tem duas finalidades:
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Finalidade Primeira: serve o presente para informar que, a partir deste congresso, este vosso amigo não se encontra em condições para criticar as directrizes do PPD-PSD no período de sessenta dias anterior à realização de actos eleitorais.
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Finalidade Segunda: Divulgar o seguinte anúncio:

“Jovem militante, respeitador, procura rolha compatível com a sua língua afiada. Ofertas em resposta a este post, até 60 dias antes das próximas eleições. Assunto sério.”



Aconselhamos o amigo leitor a ver estes vídeos que aqui deixamos. Valem bem a pena... Concordamos com a mensagem na íntegra, e não teríamos dito melhor (talvez com menos folclore, mas enfim)








E assim, arrolhado, me despeço de vós, ó leitores. Até quinta, juizinho e cuidado com o que dizeis, que isto aqui não é a casa da “mãe Joana”…

segunda-feira, 15 de março de 2010

Money for the boys

No início da semana anterior, o Estado apresentado sob a forma de vaca leiteira, minguava de leite. O ordenhador nacional da vaca leiteira, Teixeira dos Santos, apresentou ao País o PEC e, pesarosamente, declarou que a teta estadual está tísica e seca e é, portanto, necessário que se alimente a vaca para que ela volte a crescer, robusta e viçosa, para que volte a dar leite. Ou seja, é necessário um aumento de impostos - não sob a forma de aumento do IRS, do IRC ou do IVA, mas com a eliminação de certos benefícios fiscais, o que equivale na prática, independentemente da semântica, a um aumento real de impostos -, de privatizações, de congelamento do salário dos funcionários públicos, entre outras medidas de contenção.
Já no final da semana, por altura da votação final global do Estado, a Oposição apurou que a maminha estadual inchara repentinamente e que era, afinal possível, ordenhar a vaquinha e dela obter umas gotinhas de leite. E para quem vão essas gotinhas de leite? Para quem vai esse precioso dinheiro extra? Para que extraordinária massa produtiva e dinâmica de proletariado vai o contributo do Estado? Para os Presidentes de Junta – para os caciques locais; para aquela massa de indivíduos composta ora pelo agricultor que abandona a sua junta de bois para se dedicar à coisa pública, ora pelo licenciado engravatado que se desloca à Junta no final do seu dia de trabalho (geralmente semanalmente), para picar o ponto sob a forma de assinatura nuns quantos papéis e nisto reside o seu dedicado esforço do seu trabalho.

O PCP que, anteriormente já havia apresentado uma proposta de cariz semelhante, propôs a inscrição no OE2010 de 5.145.000 euros para "satisfação das remunerações e dos encargos dos presidentes de junta que tenham optado pelo regime de permanência, a tempo inteiro ou meio tempo, deduzidos dos montantes relativos à compensação mensal para encargos a que os mesmos eleitos teriam direito se tivessem permanecido em regime de não permanência”. Achamos curioso que agora os Presidentes de Junta façam parte do proletariado que os comunistas tanto gostam de defender. De facto, temos alguma dificuldade em encontrar o capitalista que com a sua cartola e a sua bengala, a aplique, humilhantemente, nas costas do Presidente de Junta, explorando-o desta forma tão vil.

Contudo, mais dificuldade temos em entender como a restante Oposição se aliou a esta proposta idiota e a inscreveu, efectivamente, no Orçamento. São, aproximadamente, 5 milhões de euros. Poderiam ser uma maior ou menor quantia – é indiferente. O que importa é a mensagem que se passa através da aprovação desta medida.


A máxima escolhida por Teixeira dos Santos para comentar a aprovação da medida (“Money for the boys”) é, de facto, infeliz. Os Presidentes de Junta, não obstante os defeitos que vêm sendo apontados ao poder local, como o caciquismo, são eleitos democraticamente pelos seus eleitores – logo não são boys estrategicamente colocados pelos vastos prados do Estado. Apesar da regeneração que o poder local constitui na vida democrática pós-25 de Abril, e da sua actual crise, tal não serve de desculpa para a afirmação de Teixeira dos Santos.

Mas tal facto não retira e expurga a imbecilidade da aprovação da medida. Senão vejamos:
O Presidente que for eleito para uma freguesia com menos de 5 mil habitantes a módica quantia que poderá ganhar é de, aproximadamente, 1100 euros, caso opte por desempenhar o seu cargo em regime de permanência – não incluindo despesas de representação e outras. Esta quantia é o mínimo que um qualquer Presidente de Junta irá receber. Uma freguesia com menos de 5 mil habitantes, convenhamos, caro leitor, é uma parvalheira. E, caro leitor, é uma parvalheira porque falamos com conhecimento de causa. Não residimos numa freguesia com menos de 5 mil habitantes, mas pouco mais. Que faz o Presidente de Junta? Treina a sua assinatura, coça os joelhos, assobia para o ar, cabeceia, ronca, volta a coçar os joelhos e, por fim, volta a fazer uns rabiscos no papel. E tudo isto pela módica quantia de 1100 euros.

O PS, com a intenção de reduzir o défice público propõe a instalação de portagens nas SCUT, a contenção dos salários na função pública, uma limitação nas prestações sociais, nomeadamente a redução da duração do subsídio de desemprego, a eliminação de benefícios fiscais que irão afectar milhões de portugueses, etc. Em suma, cada português terá de pagar mais 266 euros de impostos por ano para pagar o défice. E a Oposição reúne-se para aprovar uma medida que aumenta o salário dos Presidentes de Junta? Qual é a moralidade de um Parlamento que pede ao País sacrifícios e que, simultaneamente, aprova medidas deste tipo?

Na Irlanda, o Governo reduziu o salário dos seus Ministros em 20%. E Portugal que faz? Aumenta o salário dos Presidentes de Junta. E o Pais fica indignado com a afirmação de Teixeira dos Santos e não se indigna com a larápia que lhe é feita?

A manjedoura estadual continua, pelos vistos, com alguns resquícios de feno para alimentar algumas bocas.


sábado, 13 de março de 2010

Carta a J.

A J.

Porto, Abril

Minha querida J.,

“Que anjo te fadou o coração? Que criatura dos Céus desceu sobre ti e com a melodia harmoniosa das harpas te faz tão celestialmente encantadora? Diz-me…Nada me escondas do teu ser...Quero saber tudo – do que gostas, do que pensas, do que lês, do que cismas…Quero saber todas as maravilhas que, de alguma forma, contribuíram para a composição daquilo que és. Aquilo que eu sou já sabes a que se resume – à tua servil adulação.”
“Li algures algo que dizia: “Põe em dúvida se o sol gira; se na estrela há fulgor: se será mentira a verdade; mas tem fé no meu amor”. Minha amada, porque duvidas ainda dele? Necessitas que esgote todas as palavras para dizer o quanto te amo? Não o sentes já quando a tua cabeça está sobre o meu ombro, quando a minha cabeça está sobre o teu peito, quando as minhas mãos te cingem a cintura? Para que necessitas tu das palavras? Queres ainda mais honestidade do que aquela que eu revelo nos meus actos? Não fui eu que te escolhi – eu já era teu há muito tempo…Simplesmente ainda não te havia encontrado para me lançar aos teus divinos pés, humilhado e implorando para que deixes viver debaixo da luz que de ti emana. Porque pensas tu nas outras? Vê bem, meu amor, a insignificância a que se reduz esse termo – as outras. Vê tu bem, meu Anjo, que, primeiramente, existes Tu e depois – apenas e somente depois – existem as outras…As outras que cobiçam a tua claridade doirada de estrelas – esses teus reflexos de oiro -, mas no céu negro que eu contemplo de noite tu és a única que oferece o fulgor de que necessito. São as outras que vivem na cauda desse cometa luzente e esplendoroso – que és Tu e de ti recebendo a luz. São elas que vivem, invejosas e sombrias, na penumbra dos teus passos, desejando aquele nimbo de oiro que cada pegada tua nesta Terra deixa…Como posso eu renunciar ao Sol dos meus dias e à estrela das minhas noites?”
Que posso eu oferecer-te como prova irrefutável deste meu amor? Tomara eu ser um suserano de um qualquer reino e, feliz, eu dele abdicaria para te demonstrar este meu sentimento; tomara eu ser o amigo da Fortuna, não para te oferecer o oiro que lustra já teus cabelos, mas te cintilar, ainda mais, de diamantes, jades, safiras ou esmeraldas…Mas eu sou o pobre amante que tu vês – que tem apenas o seu amor para te oferecer, ajoelhado e de mãos erguidas para ti, esperando que tu aceites essa oferenda. E, ainda assim, minha J., crê em mim quando te digo que este meu amor é verdadeiro e não conheço outro de arrebatamento igual.”
“Por isso, os únicos tesoiros que tenho para te dar são estas minhas palavras que balbucio o melhor que posso na vã esperança de que percebas o quanto és preciosa para mim. Essas palavras eu as revisto no esmalte dos metais mais valiosos mas que, enfim, são ainda insuficientes para te mostrar a nitidez daquilo que sinto. Assim, como Florbela Espanca, que chamou a esta impossibilidade e insuficiência do verbo Tortura, também eu te digo: “Quem me dera encontrar o verso puro, o verso altivo e forte, estranho e duro, Que dissesse, a chorar, isto que sinto!”.
“Na falta dele, tudo o que te asseguro é que sou…”
“Teu do Coração”
F.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Cuidado com os “bóis”!



N’ Opinador somos obrigados a reconhecer um facto: o Sr. Ministro das Finanças é muito bom a criar consensos. Desta vez conseguiu unir a oposição contra si após ter tido um rasgo de brilhantismo: para ele os eleitos locais são boys.
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Passamos a explicar. Por iniciativa conjunta do PCP, PSD, BE e CDS-PP previa-se a inscrição no Orçamento do Estado de 5.145.000 euros para “satisfação das remunerações e dos encargos dos presidentes de junta que tenham optado pelo regime de permanência, a tempo inteiro ou meio tempo, deduzidos dos montantes relativos à compensação mensal para encargos a que os mesmos eleitos teriam direito se tivessem permanecido em regime de não permanência”. O Sr. Ministro não concordou com tal medida (que só em 2009 não existiu) que já tinha o consenso de todos os partidos da oposição e, ao não concordar, uniu aqueles mais ainda, nesta vez para as (justas) críticas.
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E tal foi o consenso que para além dos aplausos generalizados que ecoaram naquela câmara tivemos também o BE e o CDS-PP em sintonia – boys não serão os eleitos locais mas antes aqueles profissionais nomeados pelo governo. E a verba que se aqui se discute é, segundo ambos os partidos, inferior ao que os boys em sentido próprio (do Governo na PT) receberam em prémios.
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Este Governo, que lida muito mal com o facto de já não ter maioria absoluta, ainda se mantém na sua posição arrogante e vexatória dos outros servidores da coisa pública. O que hoje se passou foi sem dúvida um faux-pas do Sr. Ministro mas que muito revela da ideia centralizadora do executivo socialista. Para eles, nada deve crescer fora da Administração Central, muito menos quando se trate de situações onde outros partidos (ou, valha-lhes Deus grupos independentes de cidadãos). Tais condutas são inaceitáveis de um ministro de Estado e um pedido de desculpas caia bem.
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Nesta matéria, somos todos ofendidos, sejamos ou não edis. Assim é pois com tais declarações o Sr. Ministro ataca a escolha que os portugueses livremente fizeram nas urnas, desvalorizando-a do seu sentido e dignidade.
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Uma palavra final para nos alinharmos com as críticas que pululam tanto à direita como à esquerda: boys, são aqueles que V.Exa Sr. Ministro, nomeia para (nas palavras do Dr. Carlos) a mamadeira nacional - e que muitas vezes estão lá não pelo seu mérito mas antes pelo amiguismo!
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Acrescentamos, então se é para palhaçadas que se chame o Mário Pinho que ao menos esse sempre não tinha um ar tão sisudo e arrogante e valorizava a comédia física…

quinta-feira, 11 de março de 2010

Uma “Grande Entrevista”?


Ontem à noite, mesmo após o jantar, a Dra. Judite de Sousa deslocou-se até ao Palácio de Belém para entrevistar sua excelência o sr. presidente da república.
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Para esta entrevista o Opinador tinha grandes expectativas (até porque se tratava de uma “Grande Entrevista”). Ficamos decepcionados… Analisemos pois, ó leitor, assim en passant, os motivos da nossa desilusão:
Comecemos por aquilo que consideramos mais grave: na campanha eleitoral para as presidenciais, o agora sr. presidente prometeu cooperação estratégica. Muitos são os que dizem que ela não está de boa saúde – entre estatutos dos açores, escutas e e-mails marotos, estaria moribunda ou pelo menos enfermiça. Mas o presidente defende-se: orgulha-se de nunca ter vetado politicamente um diploma do governo (até aqui tudo bem) nem nunca o ter mandado para o Tribunal Constitucional – e aqui entornou-se o caldo. Passamos a explicar porque o caldo se entornou: pois então das duas uma, ou o governo nunca em artigo nenhum, dos milhentos diplomas que saem por ano, beliscou uma norma constitucional (coisa nunca vista) ou então, o presidente da república não honrou a promessa que fez de “cumprir e fazer cumprir a constituição”. A lealdade do presidente deve passar primeiramente por ela. Só depois devem vir os posicionamentos políticos… Parece-nos que anda aqui alguém com as prioridades trocadas!
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Depois também nos entristeceu o esclarecimento pouco esclarecedor acerca da bela história dos computadores da presidência e da plantação de notícias em jornais (cultura que em Portugal se dá bem). Disse apenas que era pela verdade e pediu aos portugueses para visitar o site da presidência. Será que isto é uma tentativa para aumentar o número de visitantes para por lá publicidade e ganhar uns trocos para tapar o deficit? Esta tinha sido uma oportunidade de ouro para fazer explicar aos portugueses o assunto, agora que já passou tempo suficiente para ponderar a questão.
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Ainda há que referir que um académico da área da economia – que é o presidente – não quis considerar como aumento de impostos um aumento de impostos. Isto não engana ninguém e alinhar-se às inverdades do executivo só fica mal.
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Por fim, para quem não queria imiscuir-se na vida partidária, as suas declarações acerca da estabilidade governativa constituíram uma incursão frontal no debate interno do PSD, demarcando-se sua excelência de um dos candidatos (in casu, Pedro Passos Coelho).
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Concluímos pois esta nossa análise. Esta entrevista de grande só teve o tempo – quase uma hora! Nós que apoiamos a candidatura do Prof. Dr. Cavaco à presidência em 2006, terminamos afirmando que não nos interessam os tabus do sr. presidente – independentemente do que se venha a passar, sua excelência não contará com o nosso voto outra vez. À primeira caem todos, à segunda cai quem quer! Portanto, tanto se nos dá como se nos deu que se candidate ou se deixe de candidatar. No entanto, desejamos-lhe um bom tabu!

quarta-feira, 10 de março de 2010

Anaquim



Hoje venho junto de Vossas Excelências não para falar de política ou de economia mas para dar a conhecer um projecto musical novo que boas novas traz à música portuguesa. Trata-se dos “Anaquim”, grupo de músicos de Coimbra que lançam este mês o seu álbum de estreia – “As Vidas dos Outros”.
Este seu álbum sucede ao EP 'Prólogo' e à colectânea Novos Talentos Fnac (ambos de 2008), em que participaram com o tema 'Na Minha Rua'.
Segundo José Rebola – um dos músicos do projecto – As Vidas dos Outros denota diversas influências, “desde músicos portugueses como Carlos Paião e Sérgio Godinho, passando por música francesa, de ritmos balcânicos, influência americana, entre outros.”
O nome do projecto (Anaquim) refere-se ao “duende saltitão e simpático que está na capa do CD e que tem molas nos pés, reflectindo isso duas coisas: uma o seu carácter saltitão e outra o carácter festivo de alguns temas”, segundo esclarecido pelo músico.
Acrescentamos nós que é sempre agradável ver projectos musicais que nos transmitam outras mensagens para além das já muito batidas músicas românticas de amores desencontrados. Neste projecto podemos assistir à uma divertida análise de temas sociais sem se entrar numa perspectiva moralista.
O Opinador aconselha pois a todos os seus leitores este novo álbum e deixamos aqui um cheirinho do que se trata.





Uma última palavra: vamos lá não piratear… é uma boa forma que temos de premiar a boa música portuguesa e ainda ganhar um álbum bem catita!


Até amanhã e boas audições (do latim audire, ouvir)!

terça-feira, 9 de março de 2010

Carta a F.

A F.

Porto, Março


“Meu esposo,”

“Existes tu de verdade, meu F.? De que Éden nasceste? De que barro te moldou o Omnipotente com as suas divinas mãos o teu corpo? Mas és tu real?...”
“Tu! que sempre estiveste nos meus sonhos, mas até agora não eras mais do que um maravilhoso espectro que pairava, deliciosamente, sobre as minhas noites…Mas agora esse espectro revestiu-se de uma carnação rósea dotada de consistência. Aquela visão incessante matizou-se de vida! Agora, hoje, meu amor, não sonho já de pálpebras fechadas com uma qualquer quimera, mas ela mesmo é a minha realidade, de pálpebras bem abertas…Eu conheci essa perfeição de que falas…Escutaste essa reverberação nas pancadas do meu coração, fortes e cadentes, enquanto me beijavas?”
“E é como se te conhecesse há anos e não apenas há uns meses – mas que imensos esses meses me parecem!...Mas, nesses tempos, tu eras ainda aquele delicioso espectro e não a adorável forma real que és agora aos meus olhos…Foste tu, meu Apolo, deus do Sol da minha vida, quem desceu sobre mim e exerceu aquela influência divina da Luz e das Claridades, que revelam as verdades mesmo àqueles que as recusam…Foste tu quem me alumiou esta minha existência…”
“Como és tu capaz, meu Apolo, tu que és o Deus da Perfeição, da Beleza, da Harmonia, do Equilíbrio, da Razão dizeres que és um ser imperfeito?! Oh!, meu amor, não imaginas a constante e incessante luta que empreendo para buscar essa tua perfeição a que tanto aspiro…Meu amor, não vês tu que sou eu que procuro não ser a sombra nessa tua imensa luz, uma negra e funesta Lua escondendo o alumiar do Sol em dia de eclipse, a mácula nessa imaculada brancura? Diz-me, meu amor, sou eu a luz suficientemente clara onde o teu peito se dilata? Sou eu a canção suficientemente melodiosa onde o espírito embala? Sou eu a voz suficientemente luminosa para afastar os cegos de amores das negras trevas para as claridades dos Sóis? Sou eu os cabelos suficientemente suaves e macios para merecerem o toque da tua mão? Sou eu a pele suficientemente terna e delicada para merecer a carícia dos teus dedos? São eu os lábios suficientemente puros para beber o néctar dos teus? Sou eu as mãos suficientemente quentes para receber o calor das tuas? É meu peito aquele, como Baudelaire canta, onde todos vêm buscar a dor, onde o poeta inspira esse amor mudo e eterno que no ermo da matéria medra?”
“Até entrares nesta minha vida de insuficiência eu sempre buscara mais do que um vão esqueleto revestido da carne. Mas tu, meu bom deus do sol, nunca havias iluminado esta minha treva de existência…Nunca eu tinha contemplado os teus reflexos de oiro!...Até que me apareceste – e então soube. A tua alma não era um mero ornamento ao serviço do corpo – da carne. Era ela a verdadeira flama e o fogo com que estendes os teus raios vaporosos sobre este pedaço de Céu em que me encontro agora…”
“Assim, meu Amor, gostaria que fosses para todos invisível e que eu – só eu – fosse a tua Musa…E tu fosses o Pintor desta minha existência para que a revelasses, não sobre a superfície duma tela, mas sobre a profundidade duns versos que declarassem, através do esplendor das palavras as luzes do meu corpo e os abismos desta minha alma…E enfim, tal como tu, o que apenas te asseguro – é que te adoro, e te adoro, e te adoro, e te adoro!...”
“Eternamente Tua”
J.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Carta a J.

Os adeptos das cartas de amor acharão esta semana uma ocasião pródiga para visitarem O Opinador de Veludo. Com efeito, às nossas mãos, chegaram algumas cartas que nós consideramos dignas de serem reveladas aos olhos do leitor para que o seu perfume não se mantenha enclausurado apenas entre duas almas que se amam. Shakespeare, no final do seu Romeu e Julieta afirma que no mundo nunca houvera história tão dolorosa igual à dos dois amantes de Verona. Não cuidaremos de dores aqui. Somente dos amores…
A primeira carta trata do primeiro encontro romântico entre F. e J. Neste caso, a carta foi escrita por F. tendo como destinatária J. Eis o que ela reza:

A J.

Porto, Março

“Minha adorada,”

“Foi ontem ainda, de noite, minha J., mas, nesta manhã já estou eu positivando numa letra bem concreta e real o sonho que vivi contigo nesse dia. Compreende o quanto a tua presença é, a meus olhos, tão necessária e, assim, se não posso ter-te fisicamente presente, eu idealizo-te literariamente… Foi ontem ainda, nesse dia em que te levei a um castelo porque eu sou como aquele Romeu que transpunha as muralhas com as asas do amor que o Cupido lhe emprestara para voar para junto da sua Julieta. E a noite, a boa conselheira dos amantes, nos envolvia dardejando as estrelas fulvas do seu cume; e uma dessas Luas que descem rebrilhando de brancuras, e inflamando a Terra da cor do âmbar e da opala… E, no entanto, ao olhar ambas – as estrelas e a Lua – eu surpreendia nelas o ciúme. Era o ciúme pela claridade que verte do teu olhar e que aquelas estrelas cobiçavam; o ciúme da brancura que transparece do teu rosto e que aquela Lua invejava. Fomos a esse Castelo porque tinha palavras para te dizer. Todas aquelas que ainda não tinham sido ditas, positivadas, concretizadas, mas que a linguagem dos gestos, dos olhos, dos rostos, dos risos dispensam e que não escondem.”
“Havia decorado palavras para te dizer. Todas elas cheias de lampejos e de veludos…Mas, depois, na tua presença, na tua imponente presença, fiquei assim – quedo e mudo. Apenas te pude dizer e apenas te soube dizer a única palavra que não me esquecera – amo-te. E não me esquecera porque esse é o único propósito da minha vida – amar-te. Vê tu bem, meu amor, a simplicidade em que se reduz a minha vida e, contudo, nunca eu encontrei um desígnio tão alto e tão digno de merecimento. Se eu sou todo aquele ser imperfeito e cheio de venalidades junto a ti – que és Deusa. Vê tu bem a essência a que se reduz todo o meu ser se, na verdade, eu sou como aquele que diz “só em ti penso, e só em ti vivo!...” E porque hei-de negá-lo? Se tal é a verdade e a Lei suprema em que assentam os alicerces do meu mundo. E não concebo outro Mandamento mais maravilhoso em que possa assentar uma vida de pureza do que ter a minha alma cativa da tua adoração. “
“E, ainda assim, tu – que és bondosa e misericordiosa – perdoaste-me pois mesmo diante do rústico verbo que te balbuciara – mas que resumia em tudo o meu espírito – tu sorriste. E um daqueles sorrisos que te é tão próprio e que neles abarcam todo a visão de um Paraíso idílico, branquejando, num céu azulado entre as altas nuvens, lá, no Etéreo…”
“E eu soube…Na verdade sempre soube – a ilusão foi minha companheira de viagem. Se “o amor é um fumo feito do vapor dos suspiros” e uma satisfeito “é fogo a brilhar nos olhos do amante”, como dizia Shakespeare, nos teus eu sempre encontrei o lume onde aquecia as minhas esperanças; a fogueira onde alimentava o meu idílio. E eles sempre foram condescendentes para com os meus desejos.”
“Uma lágrima, então, correu esse teu rosto de cera e ofereceste-me o vivo nácar que habita nesses teus lábios e eu neles colhi um pequeno e lento mas delicioso beijo. Mais do que um encontro cúmplice de lábios foi, para mim, um encontro cúmplice de almas pois no momento em que eu os senti foi como se toda a tua essência se revelasse a mim com uma nitidez tão palpável e tão tangível e eu, docemente, recebia essa tua influência… Conheces a perfeição, minha Deusa? Eu senti-a ontem – quando os meus lábios se encontravam presos nos teus, o vento nos soprava, suave e meigamente, ramalhando as folhas das árvores, e tendo, sobre as nossas cabeças, um céu negro e silencioso com o resplendor das estrelas e a claridade da Lua…”
“Conheces Hemingway, minha Deusa? Foi ele que disse que escrevia as melhores páginas da sua vida quando estava enamorado…E também eu sou assim…De minha vontade, também eu estaria todo o meu tempo ideando e certificando todas as coisas que penso de ti. E, no entanto, o relógio toca. As mais belas páginas eu abandono para no conforto da tua presença eu, ternamente, te murmurar ao ouvido os verbos desta minha paixão.”
“Teu “
F.

sábado, 6 de março de 2010

O PSD e Moloch

Caro PSD,

Que diabos se passa contigo? Há alguns meses apenas Pedro Passos Coelho te queria…Agora também Paulo Rangel e José Pedro Aguiar Branco também te cobiçam ardentemente e tu ainda, seu Moloch insatisfeito, não te encontras saciado? São três carneirinhos que te oferecem para que acalmes a tua fome, ó devorador!

Os religiosos do PSD, porém, já eles próprios, apercebendo-se da fartura vácua de candidatos, dirigem novamente as suas preces para o boi gordo e obeso – Marcelo Rebelo de Sousa – para que ele avance e acalme a fome de Moloch.

Paulo Rangel, segundo dizem, tem desapontado nos debates. Pacheco Pereira entende, no entanto, que Rangel é muito bom nos comícios. O país no seu estado presente assemelha-se, de facto, a um ajuntamento de pessoas em que todos falam. Pena é que nada tenham de novo para dizer. E o discurso de Paulo Rangel nada de novo apresenta. Com efeito, a ruptura que ele pretende é, já há muito tempo, apregoada por Jerónimo de Sousa. Embora adaptada à politica de esquerda. Talvez resida neste ponto a novidade que Rangel apresente – o comunismo aplicado à direita. E o bom Rangel insiste tanto na ruptura que tão pouco sabemos se ele será verdadeiramente do PSD, se do PCP ou se do CDS. E que tem ideias tem apresentado Paulo Rangel? Nenhuma.

Pedro Passos Coelho tem, de facto, apresentado ideias. Mas quem é Pedro Passos Coelho? Pedro Passos Coelho é o modelo daquilo que um politico não deve ser. Amamentado pela estrutura da JSD, cresceu robusto e viçoso, até encontrar os braços ternos e educadores de Ângelo Correia na teia dos negócios privados e os aparelhos partidários. Atingiu então a maturidade e foi enviado para a Universidade da Politica – o Parlamento. E eis que, de repente, é candidato à liderança do PSD. Um currículo digno de Rui Pedro Soares. Que facto notável teve Passos Coelho na sua vida para se julgar merecedor do cargo de Primeiro-Ministro de Portugal? Escreveu um livro – Mudar. E que traz ele de novo? Uma capa de ilustração.

José Pedro Aguiar Branco tem ganho protagonismo como líder parlamentar. Mas que fez ele como líder parlamentar? Aprovou o Orçamento de Estado para 2010 e liderou o movimento revolucionário da oposição com a Lei das Finanças Regionais e o consequente aumento da despesa do Estado, numa altura em que o País se encontrava no centro das atenções do mercado financeiro.

O PSD, com as vestes de Moloch, já se apercebeu que o sacrifício que irá ser empreendido em sua honra não é uma grande dádiva. Alberto João Jardim clama por Marcelo Rebelo de Sousa. Marques Mendes clama por Marcelo Rebelo de Sousa. E até António Costa clama por Marcelo Rebelo de Sousa. O Governo clama a que se lhe oponham.

Numa altura em que o País necessita de uma Oposição que, de facto, o seja e que no Parlamento seja, efectivamente, uma força de incentivo ao desenvolvimento do País, o PSD continua ocupado em jogos triviais de eleições de Líderes faz de conta.

sexta-feira, 5 de março de 2010

On Strike!


Hoje foi dia de mais uma greve geral da função pública. Os portugueses vão ficando acostumados com este instrumento de “luta” dos “trabalhadores” que tanto transtorno causa à vida do comum dos cidadãos. Mas não é por estar a ficar comum que devemos ter este assunto como um ponto assente. Antes pelo contrário.
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Relativamente a esta concreta greve da função pública – que terá tido uma adesão de 13% segundo o governo e de 80% segundo a frente comum (a verdade estará algures no meio) – ela é de todo descabida. Antes de mais porque as negociações ainda não tinham terminado e também porque num momento de crise económica e social, com centenas de milhares de desempregados e a taxa de emigração a aumentar, os funcionários públicos, egoisticamente paralisam grande parte dos serviços públicos para criticar a falta de aumento salarial nos seus postos de trabalho seguros e para criticar a progressão nas carreiras onde quase nem são avaliados (pelo menos quando comparados com o sector privado). Tal é a nosso ver inaceitável e acompanhamos as críticas do executivo.
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Relativamente a qualquer greve da função pública – somos frontalmente contra. A greve é um direito dos trabalhadores, sem dúvida. Mas não deve ser usada pelos servidores da causa pública para se virarem contra a coisa pública.
Estes têm um dever ético de cooperar e servir os seus outros concidadãos – aqueles que trabalham no sector privado – que são quem efectivamente cria a riqueza do país, que depois o Estado sorve com os seus impostos para pagar aos seus funcionários. Se passamos por uma fase de redução da riqueza, não estarão os funcionários públicos a subverter a equação, querendo mais de quem agora tem menos? O que parece é que a função pública está a criar um espírito corporativo para, em vez de servir os seus concidadãos, se servir deles. Houvesse um pouco mais de decência e num pais com quase meio milhão de desempregados e muitos mais em situação de trabalho precário, estes “privilegiados” estariam muito agradecidos por terem uma estabilidade que nos privados nunca existirá.
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Tomamos a greve da função pública como um direito intocável. Já admitimos greve por parte dos juízes… Não tarda, temos a tropa a fazer greve (e aí é que vamos dar o golpe!).
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Uma pergunta final: este executivo resulta de uma Assembleia recentemente eleita e dificilmente as suas medidas surpreendem os portugueses visto este primeiro-ministro já lá estar no seu segundo mandato. Quantos dos que hoje fizeram greve terão votado PS nas legislativas? E porque não aproveitaram a forma mais democrática que há – o voto – para canalizar os seus sentimentos? Preferem ficar em casa a bocejar? Talvez prefiram…