A mais bela, a mais pura e a mais duradoura glória literária de prosa da blogosfera

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quinta-feira, 8 de abril de 2010

Auto-Promoção Republicana

Rebordosa



Fomos por um amigo informados do seguinte: em Rebordosa (Paredes) irá ser construído um mastro com a altura de 200 metros como forma de comemorar os 100 anos de repúblicas. E tal obra irá custar a módica quantia de um milhão de euros, isto é, duzentos mil contos dos antigos por uma bandeira!
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N’ Opinador não queríamos acreditar que tal fosse verdade, mas de facto parece que é. O nosso país é pródigo em baboseiras, mas esta ultrapassa o nosso normal – que já é bastante ridículo, mesmo segundo os padrões congoleses.
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Pois num país com mais de meio milhão de desempregados, onde o salário mínimo é inferior a €500, onde o Estado apresentou um défice em 2009 de 9,4% do PIB, que deve ao estrangeiro trezentos e setenta e sete mil milhões de euros, onde os salários são congelados, onde se tornaram insolventes, no ano de 2009, três mil duzentas e cinquenta e cinco empresas, onde há FOME, senhor leitor, onde quarenta mil idosos PASSAM FOME – vai ser construído um monumento bacoco, pindérico e inútil – isto independentemente da bandeira que for lá hasteada!
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O que aqui foi dito pode ser verificado aqui, aqui, aqui e aqui.
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N’ Opinador estamos possessos! Mas está tudo louco? A lógica em Portugal é da batata? Ninguém diz nada? Ninguém se revolta? Ninguém acha mal? Não há decência nem humildade? Mas o que se passa contigo, Portugal?
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Independentemente de tudo o mais parece que a obra vai avançar… Aquela freguesia vai ganhar uma obra inestética que a vai descaracterizar; a tropa fandanga que nos governa vai lá assistir e a Nelly Furtado vai também dar um ar de sua graça – uma canadiana cantar o hino nacional português tem a sua graça, ou não tem? Tudo para comemorar os 100 anos de repúblicas: uma primeira que foi uma nódoa histórica que nem com benzina sairá, uma segunda que esta terceira derrubou mas comemora, e uma terceira que ninguém derruba mas que parece todos os dias cair mais um bocado…
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Argumentar-se-á que tal obra pode divulgar o nome da terra onde será instalada: nós perguntamos, em jeito de base instrutória:
  • Primeiro: Paredes (com o devido respeito pelas suas gentes, pelo menos das que não se lembraram disto) é algum destino turístico?
  • Segundo: o amigo leitor iria viajar quilómetros para ver uma bandeira gigante?
  • Terceiro: numa freguesia com cerca de 10.000 habitantes?
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Ficamos à espera que de milhares de turistas com bolsos a abarrotar de euros cheguem àquela terra para assim nos desmentirem! Por agora, a lógica manda dar tudo como não provado.
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Na imundice da classe política que nos governa, onde chafurdam parasitas sugadores do capital público e que, todos os dias, fazem salpicar excrementos governativos para cima do comum dos cidadãos já ninguém parece ter a noção da realidade que os rodeia – já ninguém se insurge contra criações fecais como esta, nem ninguém pede a demissão da mente que evacuou tal ideia para o mundo.
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À atenção do Tribunal de Contas: um milhão de euros a dividir por duzentos metros, dá cinco mil euros o metro…. Ora uma república destas não vale mil contos o metro! Há que investigar!
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O nosso último comentário – que resume o nosso pensamento – resume-se em duas palavras: Haja vergonha!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A História de um Banqueiro

Caro leitor,
A sociedade portuguesa está oficialmente em regressão. A inteligência escasseia. Sugerimos às depauperadas finanças do nosso Governo que taxe essa coisa com 20% de IVA – a inteligência é um bem de luxo no nosso País.
João Rendeiro é um desses expoentes da inteligência. E para nos explicar melhor o motivo de tamanha inteligência quem melhor do que o próprio João Rendeiro para nos explicar o porquê. E foi isso que o inteligente Rendeiro fez no seu livro – João Rendeiro (não vá o leitor pensar que é outra pessoa), Testemunho de um Banqueiro.
Sumariamente, o livro é definido da seguinte maneira pela Bertrand:

“Esta é a história do banqueiro, filho de um casal proprietários de uma sapataria em Campo de Ourique, que do nada chegou ao topo no mundo das Finanças, com negócios em Portugal, Espanha, Brasil e África”. João Rendeiro é um dos investidores mais ousados e respeitados no mercado financeiro português. Neste livro, Rendeiro desvenda a sua estratégia de fazer negócios e investir na Bolsa, bem como a melhor forma de sobreviver à crise financeira despoletada pelo "subprime".

Caro leitor, nestas curtas linhas teremos reunido material para humor de qualidade. Julgamos, no entanto, que há um aspecto que se destaca dos demais – João Rendeiro, esse grandioso, soberbo, audaz e perspicaz banqueiro, “um dos investidores mais ousados e respeitados no mercado financeiro português”, descreve-nos a maneira como escapulir da crise financeira. João Rendeiro, o atrevido investidor que, pela primeira vez em Portugal, conseguiu levar um banco à falência explica-nos como sobreviver à crise financeira que ele não conseguiu sobreviver. Esta metade d’O Opinador de Veludo não terá a certeza se o leitor estará a entender correctamente a ironia da situação. Nós tentaremos definir sumariamente a questão no seguinte ditado popular: “Vira-se o nu para o roto”, sendo que o nu, neste caso seria sua excelência, João Rendeiro. Esse homem que da sua torre de marfim dos negócios conseguiu levar essa instituição avessa à falência, o banco, precisamente, à falência. Convenhamos, caro leitor: tal requer talento. E talento esse que, gentilmente, João Rendeiro, hábil e capaz, nos disponibiliza.
Na vistosa capa do seu livro é ainda feita referência à “História de quem venceu nos mercados”. O pudor e a decência impedem-nos de continuar a falar de comentar esta afirmação.

O humor não termina, porém, em João Rendeiro. O nosso País é pródigo em situações humorísticas. E não é necessário ir para além da História do BPP. Queira o leitor saber o motivo:

“Entretanto, o fundador do BPP, João Rendeiro, entrou de novo em cena e está a ajudar um grupo de clientes a formar uma associaçãoi para entrar com acções contra o Estado e o BdP.”

Caro leitor, lamentamos as afirmações acima proferidas contra João Rendeiro. O banqueiro é um homem digno e honrado. Martirizado e agonizado pelos prejuízos causados pelo banco que fundou, ele tenta auxiliar os clientes na sua luta contra o Estado. Naquele coração existe compaixão, existe a dor por ter causado a dor em outros tantos corações, existe o arrependimento.

“A Associação de Defesa dos Direitos dos Aforradores a que Ângela Soares vai presidir, está a ser constituída por um grupo de advogados de Coimbra indicados por João Rendeiro”.

A bondade deste coração! Os anjos que compadecem aquele espírito! A piedade! A comiseração! A consideração pelos sentimentos dos outros neste mundo de materialidade e de egoísmos é apenas para os fortes de espírito, João Rendeiro! Podes não ser um banqueiro de sucesso! Aliás, podes ser um banqueiro miserável, mas és um homem nobre e decente!

“Mas há contrapartidas: Não vamos colocar acções contra ele (Rendeiro).”

Que gelo corre nas veias desse coração, meu bom Rendeiro? Afinal, queres tu ajudar aqueles a quem lesaste na singela condição desses indivíduos não proporem acções contra a tua excelência, que és suspeito de ilícitos criminais, como fraude fiscal, falsificação de contabilidade e branqueamento de capitais? E auxilias então esses clientes lesados em acções contra o Estado – essas bestas, esses idiotas que não fizeram o seu trabalho e que não detectaram as tuas falcatruas e aldrabices? Essas bestas que não lhe impediram de lesares os teus clientes? Mas este País endoideceu? E estes clientes esquecem-se por acaso de quem os lesou nos seus direitos? Mas será que esses clientes estão cientes de que, regra geral, as acções são propostas contra o lesante?

terça-feira, 6 de abril de 2010

Paris, je t’aime - mas mais aos fins-de-semana


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Há pessoinhas neste mundo que só estão bem com o mal dos outros! Pois queira o leitor acreditar, que há gente no nosso país, que movida por sentimentos de pura e azeda inveja atacam uma senhora deputada do partido socialista por querer subsídio de transporte.
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Esta questão conheceu a luz do dia nas últimas semanas e tem vindo a animar o circo político da nossa terriola:
Inês de Medeiros, deputada independente eleita pelo partido socialista pelo círculo de Lisboa, reclama para si o direito de ter os transportes pagos, do Parlamento a sua casa. A história não seria nada de mais caso a excelsa deputada da Nação não pretendesse que o erário público lhe pagasse viagens semanais a Paris, onde gosta de passar os seus fins-de-semana.
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Esta pretensão chocou com deputados mais mesquinhos e avarentos que quiseram bloquear o subsídio de transporte da Sra. Deputada, a qual, quando confrontada com esta atitude teve um rasgo de brilhantismo que ficará para a história da oratória parlamentar, ao afirmar “Eu é que não as pago!”
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Brilhante! Que condecorem já a Sra. Deputada! Quanto mérito, quanto valor… Pois vivemos nuns tempos em que o comum dos portugueses se queixa da linguagem fechada dos políticos, das falácias, das artimanhas retóricas? Está aqui a prova que ainda há deputados que falam claro ao eleitorado: “Eu é que não as pago!” Até uma criança de 4 anos percebe isto…
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Esta metade d’ Opinador mantém nos seus registos inquisitoriais um historial das declarações dos deputados para perceber quem mostra trabalho e quem nada faz. E nesses nossos registos, já o nome da Sra. Deputada Inês de Medeiros estava posto de lado, como tendo em poucos meses cumprido o seu dever de quatro anos – tal deveu-se ao relevantíssimo serviço que prestou a Portugal e à estabilidade governativa ao afirmar que “Se Sócrates mentiu, nem acho que seja muito grave.” Genial! Fabuloso! Soberbo!
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É muito triste que haja deputados da nação tão desligados da realidade. Num país em que o salário mínimo é inferior a € 500, onde existe mais de meio milhão de desempregados, com uma economia paralisada, com uma carga fiscal absurda, já não tendo o Estado dinheiro sequer para uma tanga, a senhora deputada eleita por Lisboa que reside em Paris (percebeu? Nós também não) exige que lhe paguem as deslocações semanais à capital francesa…
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Gostaríamos que a Senhora Deputada fizesse um exame de consciêcia – considera mesmo que a sua contribuição no Parlamento é assim tão importante e frutuosa que justifique tal encargo à Nação? Ou será Vossa Excelência um excelentíssimo empecilho para as contas públicas e para a credibilidade cada vez mais diminuída da nossa Assembleia da nossa cada vez mais diminuída república?
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Nas Faculdades de Direito, no primeiro ano do curso, repete-se uma velha máxima de Ulpianus, jurista romano, autoridade de milénios: “Iuris praecepta sunt haec: honeste vivere alterum non laedere, suum cuique tribuere”. Isto em português e numa tradução nossa quer dizer que existem três princípios no Direito – viver honestamente, não prejudicar terceiros e atribuir a cada um o que é o seu.
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Ora os membros do Órgão nacional por excelência criador de Direito deveriam a nosso ver ser os primeiros a respeitar aquela máxima – o que no caso não ocorre... Senhora Deputada não nos prejudique, pague os seus passeios; Senhora Deputada atribua aos lisboetas um deputado que viva efectivamente em Lisboa e possa compreender as necessidades do seu eleitorado – demita-se!
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A quem por aí diz que teriam garantido à Sra. Inês de Medeiros o pagamento das suas viagens antes da eleição respondemos por duas vias: primeiro, isso nada invalida o desvalor da conduta da Sra. Deputada para com o seu país; segundo e, ó ironia das ironias, senhora deputada da Nação a esse Órgão vomitador de legislação – a ignorância da lei não aproveita – ignorantia juris neminem excusat!
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Se o PS quer ter nas suas listas deputados cosmopolitas, o Opinador sugere que para uma próxima vez os inclua nos círculos da emigração.
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Aos nossos amigos leitores continuamos a dizer – cuidado em quem votam... Pensem bem no que vão fazer e vejam que estão a eleger. Não se esqueçam destes aparentes promenores que nos revelam o verdadeiro carácter das pessoas...

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Atlântida

Caro leitor,
Confesso que sinto alguma surpresa em relação ao debate sobre a aquisição de dois submarinos por parte do Governo de Durão Barroso, agora envolto em suspeitas de corrupção. Na verdade, diversas personalidades de relevo da nossa praça pública têm colocado em causa a utilidade prática desses mesmos submarinos. Os defensores da aquisição dos submarinos invocam a necessidade da defesa da extensa costa portuguesa; os outros contra-argumentam que a defesa da costa não deve ser feita com recurso a submarinos, mas com recurso a outros meios quer marítimos, como as lanchas e as corvetas, quer aéreos, como aviões com capacidades de patrulha da costa. Os defensores da aquisição dos submarinos argumentam ainda com a necessidade de reforço do imponente arsenal militar português; os outros contra-argumentam afirmando que Portugal não é a Coreia de Norte e que paradas militares com submarinos é uma acção pouco exequível. Todas essas personalidades esquecem-se de um factor relevante – a verdade é que Portugal caminha, lentamente, mas irreversivelmente, para a submersão. E que meio mais adequado para assegurar a continuidade da raça de Viriato do que um submarino? E tal apenas aumentará a lenda de Portugal, brilhando ao lado da augusta Atlântida. E, talvez, daqui a uns anos se fale com sincera nostalgia deste recanto resplandecendo ao Sol como uma terra que fora de bravos marinheiros mas que ironicamente repousa no fundo do mar e, ao contrário de Atlântida, não fora destruída por apenas um dia de infortúnio, mas ao longo de décadas de mau governo e de incompetência.

Timidamente, Paulo Portas, Ministro da Defesa por altura da aquisição dos famigerados submarinos, lá vai argumentando que desde 1995 que se vinha discutindo a necessidade de manter a capacidade submarina – que desde os tempos de governação socialista os detalhes dos negócios já vinham sendo alinhavados. Ele, sua excelência, Paulo Portas, como menino obediente que é, apenas se limitou a assinar e concretizar o negócio. Sua excelência Paulo Portas, nomeado para uma pasta de tamanha belicosidade como é a Pasta da Defesa abdicou do seu estatuto marcial e fez o papel de anjinho e cordeirinho. Cremos que, em grande parte, tal será verdade. Com efeito, devemos a Paulo Portas que Portugal tenha adquirido dois e não três submarinos. O problema da política em Portugal é que apenas se pensa no curto prazo. Qual a medida a tomar que poderá ter maior impacto nas eleições que se avizinham? E o médio/longo prazo é esquecido. Até que, de repente, a bomba rebenta no Governo em funções e este, ingénuo e desconhecedor, argumenta que a culpa fora das bestas que formaram o anterior Governo. E, assim, segue Portugal.
Outro problema relacionado com este negócio prende-se com a utilização abusiva de certos escritórios de advogados sediados em Lisboa que se tornaram autênticas secretarias de Estado do Governo. As sociedades Vieira de Almeida e Uria Menéndez foram alvos de buscas nos processos dos submarinos. O auxílio jurídico prestado por estas sociedades ao Estado é pago a peso de ouro e de forma pouco transparente – a distância que separa da corrupção é curta e não é surpreendente que muitos dos negócios acalentem suspeitas. Desde logo, porque, tradicionalmente, grande parte dos deputados sempre foram formados em Direito. Bem ou mal não é a questão que se discute. Mas a função de deputado deve ser incompatível com o desempenho de qualquer outra que possa conflituar com o correcto desempenho da função parlamentar. Ao conjugar a actividade parlamentar com outro tipo de actividades, cria-se uma teia de interesses. João Cravinho, na semana anterior, deslocou-se ao Parlamento para ser escutado no âmbito da Comissão para a Corrupção. Esta Comissão tem merecido o desprezo dos jornalistas, essas criaturas vampirescas sedentas de sangue e de declarações espalhafatosas. Por isso, privilegiam a Comissão responsável por apurar da liberdade de Imprensa em Portugal. Cravinho, na sede dessa Comissão, disse que a “corrupção politica é o principal problema do País”. Qual o eco desta afirmação na Imprensa? Nenhuma. A corrupção administrativa é discutida, elaboram-se códigos de ética nas empresas públicas e o problema da corrupção em Portugal está oficialmente selado – morto. Mas este verdadeiro problema – a promiscuidade dos políticos – não só continua por resolver, como não existe vontade politica para o resolver. A discussão séria deste problema e a implementação de uma verdadeira luta contra a corrupção politica permitiria a Portugal dar um salto competitivo e varrer dos quadros do Estado, muitos incompetentes responsáveis pelo atraso do País. Não tenhamos dúvidas – o capitalismo necessita de ser empregue no Estado: a substituição dos mais fracos pelos mais fortes, dos menos capazes pelos mais capazes. Só assim será possível ter um Estado digno aos olhos dos seus cidadãos.

sábado, 3 de abril de 2010

Hamlet

Hamlet é apontado como a obra-prima de Shakespeare. A dúvida – “Ser ou não ser, eis a questão.” – do herói desta tragédia é representativa disso mesmo. Nesse monólogo, Shakespeare retrata a perturbação da alma, o limbo entre a decisão e a indecisão, a angústia da incerteza, o anseio do incerto – a busca da verdade e a vingança de um pai vilmente traído ou o conforto duma vida baseada numa falsidade, mas que é prolongada graças à manutenção dessa aparência. É neste jogo entre a decisão pela verdade ou a ruptura com a falsidade que se joga o Hamlet.
O Hamlet de Shakespeare é especialmente notável nesta questão – o escrúpulo da acção. O ser ou não ser correspondendo ao agir ou não agir. Traduz-se no acompanhar do percurso de Hamlet na sua movimentação para a acção e os seus trôpegos passos nesse caminho. Aqui e além, Hamlet duvida, reflecte, toma contacto com a sua consciência. Mas no final, é a acção que vence – o ser predomina sobre o não ser. As reflexões que intercedem a acção são extraordinárias e nelas podemos contemplar mais do que um Shakespeare poeta, um Shakespeare de almas – ele capta como ninguém de que forma o intimo é composto, despindo-o e expondo-o sem ocultações. A complexidade do carácter de Hamlet é, sobretudo, o que resume esta obra. Além dele, não existem seres profundamente complexos – Ofélia é um ser simples, tomando apenas maleabilidade de alma, quando experimenta a loucura após saber da morte de seu pai, Polónio.
A reflexão de Hamlet é ainda, impressionantemente, actual. Aquela dúvida depara-se-nos no quotidiano e acompanha-nos ao longo da nossa existência. Quantas vezes somos nós impelidos para a acção por certas resoluções, mas por um ou outro motivo, sonegámos essa decisão, pensando nas suas imprecações? Resistir às adversidades que o destino nos lança, lutando contra elas; ou ser fraco e admiti-las, sem reserva, como parte integrante do decurso normal da vida, conformando-nos, preferindo uma vida de aparências frouxas mas duradoura, em vez de uma vida de verdade, mas curta no tempo? “Morrer ou dormir?” Afrontar os desígnios do Tempo, reagir às vergastadas do Amor, às fragilidades, humanidades e sensibilidades dos Sentimentos? Ou suportar todas as agruras para viver sob uma paz aparente e dormente, mas viver afinal? Hamlet toma a sua decisão – a Morte. Mas ele não a receia. Shakespeare dota Hamlet de todos os instintos e minuciosidades humanas. Mas ele possui uma característica que muitos não possuem – aliada à sua reflexão, existe uma inexorável resolução.
“Ser verdadeiramente grande não consiste em comovermo-nos apenas por uma grande causa, mas em encontrarmos grandeza no objecto do valor duma palheira quando a honra nisso está empenhada.” Mas Hamlet partilha esta resolução com o remorso duma consciência que o tortura, que o esmaga, que o apoquenta e que lhe chama a atenção para a consequência dos seus actos, e não apenas aqueles que irão directamente cair sobre ele, mas também sobre os outros – Ofélia e Gertrudes. O Príncipe sabe que seu pai foi assassinado cobardemente pelo seu próprio tio que lhe vilipendiou e usurpou o trono fruto desse abominável crime; sabe que sua Mãe foi prostituída nas mãos desse Rei Tirano; mas, ainda assim, o terrível escrúpulo volta para o esmagar e assalta-lhe o pensamento pois sabe a busca da verdade lhe irá custar o amor da bela Ofélia e sabe que terá de ser implacável com Gertrudes. Hamlet conhece o desenlace que o seu plano irá custar – a desgraça de todos os que o rodeiam. E, no entanto, firme e resoluto, ele decide enfrentar a Fortuna, “pegar em armas contra um mundo de dores e acabar com elas”. Hamlet decide, portanto, ser. Neste aspecto, ele revela toda a nobreza do seu carácter – ele subleva-se contra o status quo da mentira, da falsidade, da injúria em honra da memória de seu pai. Mas quantos de nós, ao contrário de Hamlet, não somos verdadeiramente? Assaltados pelas mesmas dúvidas, pelas mesmas inquietações, pelas mesmas interrogações, pelos mesmos males de alma, renegamos a essência do ser e suportamos as pedradas da vida presente por recear um futuro diferente e ainda de nós desconhecido? Por isso, Hamlet afirma que é esta “reflexão que prolonga por tão largo tempo a vida do miserável”. É a sua inacção e não a sua acção. É o seu contentamento face ao estado de coisas, mesmo que falso e injusto, mas em que tudo é sempre o velho mesmo, a realidade constante – “os dias, sempre os mesmos, a correr”… E, de tal modo, o hábito se torna o hábito que o ser humano se torna inerte, ocioso, boçal e indiferente, pois nada procura, nada busca. “É assim que a consciência faz cobardes de nós todos”.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O Piqueno Magalhães



Ontem n’ Opinador ficamos atónitos quando lemos as declarações do Sr. Presidente da Administração da J. P. Sá Couto, o Sr. Couto. Esta empresa é, para os leitores que não sabem, a criadora dessa oitava maravilha do mundo – o Magalhães!
Segundo o Sr. Couto da J.P. Sá Couto,

“A J.P. Sá Couto é o pai do Magalhães. Nós não abdicamos disso”

Ora antes de mais isto admirou-nos porque até hoje não sabíamos que as pessoas colectivas podiam ter filhos. Mas parece que sim… As sociedades anónimas podem parir computadores.
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Depois pensámos e chegámos a esta conclusão: Se a J.P. Sá Couto é uma pessoa colectiva, não se pode casar… Logo, o Magalhães é bastardo! E o nosso Governo apadrinhou um bastardo! Ai Portugal, Portugal, para onde vais tu a apadrinhar computadores bastardos?
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E por último, uma dúvida nos assaltou: se a J.P. Sá Couto é o pai, quem é a mãe? O Sr. Eng. Técnico Sócrates? O Dr. Manuel Pinho? A Sra. Ex-Ministra da Educação? O programa e-escolinhas? Quem?
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Ao Ministério Público fica já aqui a informação… É necessário proceder às necessárias averiguações para estabelecer a maternidade do petiz Magalhães… Não se admite que um computador bebe como é o Magalhães cresça sem ter uma figura materna…
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Felizmente que o pai parece-nos uma pessoa carinhosa e equilibrada, pois decerto ainda ímbuido desse espírito paternal que se comove olhando para o seu primogénito recém-nascido, proferiu na Comissão de Inquérito Parlamentar as seguintes, e a nosso ver, belas, declarações:
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“Só tivemos a certeza que íamos vender um computadorzinho para o e.escolinha, quando nos chegou a encomendazinha”
(os diminutivos são mesmo do senhor Couto)
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Ora diga lá o leitor que isto não comove o coração mais empedrecido? Ah pois comove… Nós, n’ Opinador fartamo-nos de chorar baba e ranho! E ainda em quanto escrevemos a voz nos treme…
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Não nos queríamos despedir do leitor sem lhe desejar uma feliz e Santa Páscoa! Adeus, até terça e lembrem-se do pobre Magalhães que não conhece sua mãe...

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Don’t Try Me Propaganda!


Longe vão os tempos em que a poderosa União Soviética apontava o dedo acusador às potências imperialistas, acusando-as de todo o mal existente no mundo, incluindo aquele que existia nas suas fronteiras.
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Porém, os tempos mudam e os homens passam… E actualmente, a Federação Russa, ainda com males nas suas fronteiras mas já liberta da foice e do martelo, porém ainda inundada em vodka já não tem coragem para acusar de frente os grandes poderes do mundo, preferindo incomodar pequenas nações como a Geórgia (para o leitor mais desatento, a Geórgia é um pequeno país, saído da desagregação soviética, que fica ali no Cáucaso e está pintada de azul, tendo pouco mais de quatro milhões de habitantes).
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Na sequência dos recentes atentados em Moscovo, o Sr. Patrushev, que dirige a organização sucessora do KGB, acusa aquela pequena república de estar a orquestrar essa onda de terror. Citemo-lo, em inglês na tradução do londrino The Times:
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“For example, there is Georgia and the leader of that state, Saakashvili, whose behaviour is unpredictable,” (...) “He has already unleashed war once. It is possible that he may unleash it again. We have had information that individual members of Georgian special forces support contacts with terrorist organisations in the Russian North Caucasus.”
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Atitudes destas necessitam de muita, mas mesmo muita lata. Para além do facto de não se mostrar qualquer prova à Comunidade Internacional destas acusações, feitas para o ar, elas provêm de um país que tem militares a ocupar duas províncias georgianas.
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Quem ainda se lembra da Guerra na Ossétia do Sul no ano de 2008? Nesse conflito a Russia, imbuída de um espírito libertador dos povos oprimidos (ou a nosso ver desejosa de renovar a sua autoridade sobre o Cáucaso que se está a deteriorar por causa da orientação pró-Ocidental das elites georgianas) avança com os seus blindados sobre aquela pequena nação, à revelia das Nações Unidas.
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Ainda hoje, no 1.º de Abril do ano da Graça de 2010 continua a ocupar essas regiões, marimbando-se para o que as Nações Unidas dizem.
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A verdade é que a Rússia ainda longe da democracia liberal, tem dificuldade em lidar com a autonomia que cada povo reclama. Não consegue compreender que o imperialismo político centralizado em Moscovo já pertence às prateleiras da História e procura segurar com mão de ferro a meia dúzia de sítios que, depois da queda do Muro de Berlim, não a conseguiram mandar à fava.
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Estónia, Letónia, Lituânia, Polónia, Checoslováquia, Roménia, Bulgária, Hungria e Alemanha Oriental conseguiram a sua independência e após processos mais ou menos conturbados de democratização, estão hoje integradas na União Europeia, vivendo em paz e com mercados livres.
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A Geórgia, apesar de mais a leste, dá sinais de querer também mudar de esfera de influência – pretende entrar na NATO e já se fala num potencial estatuto com a UE, talvez semelhante ao do Montenegro. É por isto que a Rússia tanto se incomoda com aquela pequena faixa de terra – não suporta que a Europa comece nas suas fronteiras.
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Dos Europeus espera-se que não ignorem quem lhes estende a mão. A Rússia actualmente só é forte com os fracos: invade a Geórgia; mas a Ucrânia, que já é maior e mete mais respeito, o mais longe que vai é cortar o gás, numa atitude que lembra o miúdo gordo da nossa rua que era dono da bola e que quando se zangava levava a bola com ele…
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Esperando que esta crise que se avizinha não dê em nada, e que nós logremos expandir a nossa esfera de influência, despedimo-nos do amigo leitor, desejando um dia das mentiras que calha no muitíssimo apropriado mês de Abril (eis uma piada às direitas!).