A mais bela, a mais pura e a mais duradoura glória literária de prosa da blogosfera

.

terça-feira, 8 de junho de 2010

O Horror, o Drama, a Tragédia! – de Portugal n’ este ano da Graça de 2010



Depois da subida da taxa Euribor (que há cerca de dois anos lançaram o pânico em muitas famílias) e da subida do preço da gasolina, depois da descida daquela taxa (que estragou a vida a quem poupa), depois do aumento de impostos, da vitória do PS nas legislativas e das manif’s da CGTP, uma nova desgraça assola o nosso país e as famílias portuguesas.
.
Não se deixe o leitor enganar… Esta não é mais uma desgraça – é, arrisco a dizer, a desgraça! Um horror sem precedentes: os pais correm com os braços no ar, clamando pela misericórdia divina, os filhos berram desesperados, o cão foge assustado e o gato persegue o cão enquanto o periquito comete suicídio. Falo, como o leitor já terá certamente percebido, das vuvuzelas.
Esse instrumentozinho irritante enerva de sobremaneira este vosso amigo. Agora, graças a uma empresa nacional com um nome parecido com golpe, muitos portugueses possuem aquele instrumento do demónio e a ele sucumbem.
.
O inocente cidadão, no momento em que coloca a sua mão naquela invenção mefistofélica fica possesso por espíritos maus, e, tornando-se um otário, enche os pulmões, põe os seus beiços na extremidade do aparelho e expira com toda a sua força. Ora esta cadeia de acontecimentos é apta a provocar um som infernal que se espalha por toda a vizinhança para desespero dos seus concidadãos, especialmente ao SÁBADO DE MANHÃ!
.
Neste Opinador somos pela liberdade… Mas espero que todos os doutos opinantes me secundem neste desespero! Há que impedir que estas pessoas fiquem impunes. Sendo este vosso amigo um pessimista antropológico, crê que uma vez tocada a vuvuzela, a alma do tocador fica conspurcada de imbecilidade e nunca mais poderá voltar à sua condição dócil de cidadão cumpridor da lei.
.
Assim, e dado aqueles estarem perdidos, sugere-se o seguinte a todos os leitores que tenham nas suas terras tocadores de vuvuzelas, por forma a eliminar este problema em quatro simples passos:
.
Passo Primeiro – Vão para os bosques (ou, se na cidade, para as lojas de bricolage) e reúnam a maior quantidade de lenha seca que consigam.
Passo Segundo – Peguem na lenha reunida e dirijam-se para uma praça ampla da vossa freguesia (o adro da igreja pode ser uma boa solução). Uma vez lá façam montinhos de número igual aos tocadores das vuvuzelas.
Passo Terceiro – organizem uma milícia, irrompam pelas propriedades dos tocadores de vuvuzelas e prendam-nos.
Passo facultativo – Após a detenção, se fordes dos leitores mais sádicos, recomenda-se uma pequena sessão de tortura aos “vuvuzadores”. Há métodos muito engraçados que permitirão umas horas bem passadas até para os mais pequenos (a inquisição espanhola pode dar boas dicas). Porém, não vale tocar-lhes vuvuzelas aos ouvidos: ninguém merece!
Passo Quarto – Dirija-se para a praça escolhida, coloque cada vuvuzador no seu respectivo montinho e faça uma fogueira. Enfie-lhes a vuvuzela num olho (admito que pensei num sítio melhor para o efeito mas a minha educação e pudor não mo permite revelar) e afaste-se porque é capaz de ficar calor.
.
Feitos estes quatro passos, reúna a família e os amigos e assista ao bonito espectáculo. Será concerteza uma tarde bem passada – e à noite dormirá melhor, sabendo que no dia seguinte não será acordado por nenhum imbecil que decidiu apoiar a selecção às nove horas da manhã de sábado, através da emissão de barulhos satânicos provenientes de uma gaita de origens ignoradas.
E mais uma vez se prestou um serviço público relevantíssimo – para quando a minha comenda?
.
Por fim deixamos uma reflexão: para que raio necessita o gabinete do Sr. Primeiro-ministro de 12 (doze) motoristas? Não acredita? Pois vamos contar?
.
São eles: António José Oliveira Figueira, Rui Manuel Alves Pereira, Vítor Manuel Gomes Martins Marques Ferreira, Augusto Lopes de Andrade, Arnaldo de Oliveira Ferreira, Jorge Martins Morais, Jorge Orlando Duarte Vouga, Jorge Henrique dos Santos Teixeira da Cunha, José Duarte Barroca Delgado, Manuel Benjamim Pereira Martinho, Horácio Paulo Pereira Fernandes e Custódio Brissos Pinto.
.
Pensando nisto, mais carros e gasóleo vemos que a tetinha do Estado ainda tem leitinho para dar… Consulte aqui.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Selecção Nacional e bichanices

Hoje perco a cabeça e falo sobre: futebol. Ou melhor, sobre o exigente e estafante estágio dos jogadores da nossa Selecção por terras da Covilhã. Não me atrevo sequer a desenvolver raciocínios na área dos aspectos técnicos, pois admito não ser nada entendida no assunto, mas não poderei deixar de apontar alguns aspectos que, dentro do curioso e extravagante, me chamaram a atenção. E refiro-me a isto:













É impressão minha ou estes senhores das imagens que era suposto estarem a jogar futebol, não estão, de facto, a fazê-lo?... Depois de saber que até a Força Aérea foi dar uma mãozinha ao Queiroz para fomentar o espiríto de equipa e entreajuda e sei lá que mais nos nossos jogadores, concluí que a minha atenção já estava mais que concentrada no estágio da Selecção e fui procurar saber o que é que, afinal, os nossos conceituados jogadores de futebol andaram a fazer para se preprarem para o Mundial do presente ano que a todos nos deixa muito cépticos. E não é que aquilo até foi giro? Quando dei por mim até eu queria ser jogadora de futebol, (é que já fui a colónias de férias muito menos animadas).

Então: de entre as actividades lúdico-recreativas que fizeram parte do plano de preparação dos jogadores eu destaco os espisódios Jogadores vão ao cinema, Jogadores brincam com as criancinhas e jovens da Covilhã ou então, o que a mim me deu mais vontade de dar uns pontapés na bola, Jogadores realizam treino de recuperação em Hotel de luxo em Unhais da Serra. E penso eu, "Uffa, isso deve ser mesmo desgastante!...coitadinhos...". Para além de todas estas actividades fisicamente exigentes e dentro da preenchida agenda da Selecção Nacional, houve ainda tempo para darem numa de artistas e brincarem aos cantores com um brilharete fosco de Carlos Queiroz e Ricardo Carvalho nas artes musicais. Urge, portanto, destacar as palavras do treinador nacional a respeito do descontentamento da população Covilhanense relativamente à postura pouco expansiva dos seus pupilos, que não se deixaram ver nem chegar à fala tanto quanto o povo desejaria e que, a determinada altura foram: "A maioria das pessoas compreende que o nosso plano de preparação não se vai desviar um milímetro da rota para fazer espectáculos. A preparação não é um espectáculo.".

Ok Sr. Queiroz, agora na África do Sul, local onde lhe compete deixar-se de brincadeiras e jogar a sério para que depois, pessoas como eu, engulam os sapos de estarem a acusá-lo de ter trazido os seus meninos a passar férias na Covilhã em vez de verdadeiramente os preparar para trabalharem, eu questiono-me: se a preparação não foi um espectáculo (coisa que me faz alguma espécie) então 'bora lá caprichar nesses jogos! Quer ver os aviões da Força Aérea a fazer voos rasantes aos estádios e os jogadores a entrarem em campo de pára-quedas.

sábado, 5 de junho de 2010

A Importância da Vivo para a PT

O Jornal de Negócios e o Diário Económico noticiavam, no dia de ontem, de que os 6,5 mil milhões de euros oferecidos pela Telefonica pela Vivo não são suficientes para os accionistas da PT que exigem, portanto, que a operadora espanhola suba a parada. Cada vez mais, a concretização deste negócio está dependente dos números e não do patriotismo. Mas afinal de contas, deve a PT vender ou não a sua participação na Vivo?

A PT deverá vender a sua participação na Vivo apenas se a proposta for suficientemente aliciante e dispor de uma boa possibilidade de manter o seu processo de internacionalização em aberto, ou seja, através do encaixe adquirido com a venda de Vivo, imediatamente dispor desse dinheiro na aquisição duma operadora que lhe permita manter possibilidades de crescimento semelhantes àquelas que usufruía no Brasil. Encontrar a possibilidade de um tal negócio não é, porém, fácil. O Brasil é um mercado que oferece condições únicas para a PT, desde logo, pela aproximação de culturas entre Portugal e o Brasil o que confere à empresa portuguesa uma vantagem única de penetração no mercado brasileiro, diminuindo assim os obstáculos de barreiras à entrada em mercados internacionais. O Brasil é, em conjunto, com a Rússia, a Índia e a China, o pilar da economia emergente. Para este ano, o crescimento do PIB brasileiro, segundo dados da OCDE, deverá ser de 6,5%. Para este crescimento muito tem contribuído o crescimento das famílias e uma classe média em forte ascensão. Enjeitar esta oportunidade de crescimento, poderá comprometer, irreversivelmente, a estratégia da PT. Numa fase em que o crescimento das empresas assenta sobretudo nas suas estratégias de internacionalização, a venda da Vivo pela PT seria um retrocesso no alargamento de dimensão da empresa portuguesa à escala mundial, e um regresso ao curto mercado português. Sem a Vivo, a PT é uma empresa regional e não internacional.

Caso o cenário de compra de uma participação por parte da PT que lhe permita manter os níveis de crescimento e dimensão que a Vivo oferecia no Brasil não se verifique, então o Estado deve fazer uso da sua golden share. José Sócrates, na véspera, no Parlamento, mostrou-se cauteloso em relação à concretização do negócio, ao contrário do que havia feito a 27 de Maio, altura em que afirmou que “as golden shares existem para ser utilizadas se for caso disso”. Desta vez, José Sócrates afirmou “não disse que ia utilizar a golden share, só disse que está lá para ser usada”. Na primeira abordagem, Sócrates revela a intenção de fazer uso da golden share, na segunda abordagem remete a possibilidade de negócio para um entendimento entre as duas operadoras. A abordagem de Sócrates é compreensível pela cautela no sentido de que a Comissão Europeia acompanha atentamente este processo. Em Bruxelas, a golden share do Estado na PT é vista como uma violação do principio da liberdade de estabelecimento, do principio da livre circulação de capitais e do principio da liberdade. De resto, no caso C-171/08 (Comission vs. Portuguese Republic), a Comissão manifestou o seguinte: “mantendo direitos especiais a favor do Estado e outras entidades públicas na PT SA, a República Portuguesa falhou no preenchimento das suas obrigações no tocante aos arts. 56.º e 43.º do Tratado da EU, não tendo observado o princípio da proporcionalidade”. Portanto, o Estado deve optar por uma abordagem discreta na intervenção neste negócio e manifestar a sua vontade de intervir apenas quando e se tal se revelar necessário, não chamando a atenção da Comissão para esta questão.

A verdadeira competição internacional não só se estabelece entre os Estado mas, principalmente, entre as empresas de um certo Estado, mesmo que sejam empresas privadas. O Governo Português ao não fazer uso da golden share caso os interesses nacionais não estejam devidamente acautelados, fere gravemente a competitividade da economia portuguesa. O Governo já anunciou a sua vontade em vender as participações que detém em algumas das grandes empresas portuguesas – a Galp, a EDP, a REN, entre outras. Ora, o Governo ao prescindir do seu papel de regulador nestas empresas, sujeita essas empresas às leis do mercado. Sejamos claros, estas vendas poderão ser benéficas para o comércio internacional, mas não para os interesses estratégicos de Portugal que prescinde de um conjunto de empresas cujo papel é fundamental na economia portuguesa. Com isto não queremos defender um papel activo do Estado na Economia, isto é, o Estado deve dar aos privados um amplo espaço de liberdade para conformar livremente a sua actuação, mas ele deve, em última instância, assumir um papel de regulador, no sentido de acautelar devidamente a protecção do interesse nacional – que, neste caso, passa pela PT ser uma empresa com expressão e dimensão internacional e com efectivas possibilidades de crescimento. A PT é, de resto, uma das principais faces da inovação em Portugal, detentora e formadora de altos quadros para o País e fornece serviços aos portugueses ao nível da melhor qualidade que se pratica pelo Mundo. No caso da PT, a confirmar-se a perda da Vivo, o Estado perde uma empresa com dimensão global que actua no ramo da informação e das telecomunicações que é, nos tempos que correm, um dos sectores económicos com maior pujança e possibilidades de desenvolvimento. A PT sem a Vivo perde, fatalmente, as suas possibilidades de expansão.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Adopção por Homossexuais e Consonância com os Interesses da Criança

Caro leitor, quando falamos em adopção por casais homossexuais torna-se indispensável falar no interesse da criança. Para tal importa recorrer à psicologia, nomeadamente à psicologia do desenvolvimento e, seguidamente, vou procurar demonstrar como um casal homossexual poderá ter as mesmas capacidades que um casal heterossexual para responder às necessidades emocionais reais de uma criança.

Se olharmos as teorias da vinculação (estabelecer laços de proximidade), desenvolvidas inicialmente por Bowlby e Ainsworth, rapidamente vemos que as pessoas nascem com uma propensão para se ligarem a alguém que as tranquilize quando choram, que as proteja quando se sentem inseguras e que as oriente na exploração do mundo. E, se interiorizarmos uma relação (ou relações) em que somos bem tratados, desenvolvemos um imagem de nós mais positiva, sentimo-nos mais seguros connosco próprios e na relação com os outros, sentindo que merecemos ser bem tratados. E, todos os estudos demonstram que esta necessidade de promover a proximidade com um cuidador (necessidade com a qual o bebé nasce) é dirigida indiscriminadamente para qualquer pessoa; ou seja, a criança tem necessidade de estabelecer laços, mas a pessoa com quem estabelece laços não lhe importa. Desde que o seu cuidador cuide efectivamente dela, tanto lhe faz que seja a avó, a tia, a mãe, o pai, o primo, um homem, uma mulher, um heterossexual ou um homossexual. Não estamos programados para nos ligarmos a um pai/mãe heterossexual, estamos simplesmente programados para nos ligarmos a alguém. É a qualidade dos cuidados prestados pelo adoptante (disponibilidade, sensibilidade e responsividade às necessidades da criança) que determina a qualidade do adoptante enquanto tal, não o sexo ou orientação sexual.

Olhando agora para dados concretos, podemos referir Judith Stacey, professora de sociologia e de análise social e cultural na Universidade de Nova Iorque e Timothy J. Biblarz, director do departamento de sociologia da Universidade da Califórnia do Sul, os quais analisaram 20 anos de pesquisas realizadas sobre a área, concluindo que, no que diz respeito à capacidade de educar as crianças de um modo saudável e ajustado, os casais do mesmo sexo são iguais aos casais heterossexuais. Para chegarem a esta conclusão, os investigadores analisaram 81 estudos, realizados desde 1990 e, para tal, teve-se em conta a auto-estima das crianças, o seu desempenho escolar, as relações com os colegas, entre outros.

Um outro estudo, publicado em Fevereiro de 2002 pela American Academy of Pediatrics, demonstrou a existência de semelhanças entre homo e heterossexuais no exercício dos papéis parentais em aspectos como "atitudes parentais, comportamento, personalidade e ajustamento dos pais", sendo também semelhante o "desenvolvimento emocional e social da criança", assim como a "identidade de género e orientação sexual da mesma". À semelhança do postulado pela teoria da vinculação, demonstrou-se que "as crianças são aparentemente muito mais influenciadas pelos processos/sinergias familiares que pela estrutura familiar" (mais uma vez, o que interessa é a qualidade da relação e não com quem a relação é estabelecida).

Se isto ainda parece insuficiente, convido o leitor a ler este extenso estudo intitulado Lesbian and Gay Parenting, da Associação Americana de Psicologia. Aqui condensam-se diversos estudos na área e as conclusões são claras: “there is no evidence to suggest that lesbian women or gay men are unfit to be parents or that psychosocial development among children of lesbian women or gay men is compromised relative to that among offspring of heterosexual parents. Not a single study has found children of lesbian or gay parents to be disadvantaged in any significant respect relative to children of heterosexual parents. Indeed, the evidence to date suggests that home environments provided by lesbian and gay parents are as likely as those provided by heterosexual parents to support and enable children's psychosocial growth”.

Na minha opinião, o aspecto mais importante a considerar na adopção de uma criança, deverá ser a inteligência, mais particularmente, a inteligência emocional e social dos adoptantes.

Já no passado, muitas pessoas julgavam que seria inconcebível e terrível para a sociedade que os negros pudessem frequentar as escolas com os brancos ou que as mulheres pudessem votar; no entanto, nada de negativo aconteceu por causa disso, o mundo não colapsou (bem pelo contrário). O que pretendo dizer é que as pessoas merecem ser sempre consideradas como tendo direitos iguais e tal não deve ser negado com base em receios e preconceitos sem fundamento. Lembre-se o leitor que a criança nasce sem preconceitos, é a sociedade que os cria, logo também nos cabe a nós, enquanto sociedade, desmistificá-los.

Qualquer criança ficará melhor com um pai ou pais que se preocupam genuinamente com o seu bem-estar do que entregues a uma instituição, mesmo que a situação não vá de encontro ao “ideal” que uma determinada sociedade, num determinado tempo, decidiu estabelecer. Quando um adulto tem capacidade de cuidar e amar uma criança, num ambiente emocionalmente positivo, negar-lhe a possibilidade de adoptar com base num preconceito é eticamente incorrecto.

A vida não é perfeita e não existe “a dupla parental perfeita” que deveria adoptar todas as crianças do mundo; nunca existiu nem nunca existirá. No entanto, as pessoas tendem a agir como se qualquer coisinha ligeiramente mais desafiante ou menos comum fosse automaticamente negativa para a criança. Mas note-se que ninguém é criado de forma perfeita e ainda bem que assim o é, pois um crescimento totalmente perfeito seria prejudicial, não permitindo à criança criar bases psicológicas para lidar de forma madura com as dificuldades que encontraria na sua vida adulta (ex: dificuldades na profissão, etc). Além disso, ser criada por pais diferentes da norma (ex: pais homossexuais, pais ou mães solteiros, pais de outras etnias, …) também se pode transformar numa experiência muito enriquecedora. Isto porque permitirá que a criança desenvolva mais facilmente empatia por aqueles que são diferentes, crescendo com uma mente mais aberta, independente e dotada de compaixão, o que também a ajuda a desenvolver capacidades para lidar com pessoas que são intolerantes perante a diferença.

Relembrando o interesse da criança, o que importa é crescer num lar onde haja amor, apoio, segurança e respeito e, obviamente, isso não é determinado pelo facto dos pais terem os mesmos genitais. Agora coloca-se a questão: todos os casais homossexuais possuem as competências parentais necessárias para proporcionar um ambiente de desenvolvimento favorável à criança? Não. E os heterossexuais: será que todos os casais heterossexuais possuem as competências parentais necessárias para proporcionar um ambiente de desenvolvimento favorável à criança? Também não. Apenas isto (competência parental) tem legitimidade, do ponto de vista humano, psicológico e ético, de se ter em conta no momento de seleccionar um adoptante.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Não Estraguem a Terra – É lá que eu guardo as minhas coisas…


Na conturbada relação do homem com o seu planeta, já muitos desastres ambientais ocorreram, sendo o do golfo do México apenas o mais recente capítulo desta trágica história. Começam agora a aparecer as imagens habituais de passarinhos pintados de preto e pessoas a lavar pedras com escovas de dentes.
.
Com efeito, foi já no longínquo dia 22 de Abril que começou o derrame para de petróleo para o mar, no golfo do México a cerca de 150 milhas de Nova Orleães (aquela gente tem mesmo azar). No dia 30 daquele mês a maré negra atinge a costa do Luisiana e o delta do Mississípi. Na análise feita no dia 31 de Maio tornou-se claro que quatro Estados norte-americanos estavam já atingidos (Louisiana, Mississípi, Alabama e Florida) naquela que já é a pior catástrofe ambiental da História, com dez vezes mais petróleo derramado que o incidente do Exxon Valdez. Aqui pode ser vista uma infografia da evolução da mancha.
.
Como consequência mais directa deste desastre ambiental temos a iminente falência da indústria pesqueira (famosa pela qualidade do camarão daquelas águas) de pelo menos três daqueles Estados (a Florida é o menos atingido). Segundo a edição de hoje do New York Times, aquela actividade geraria 2,4 mil milhões de dólares anuais e era responsável pela criação directa de 27000 postos de trabalho. Também o sector do turismo está a sofrer com o derrame, mas os prejuízos ainda não foram calculados.
.
Face a tudo isto, talvez a melhor maneira de proteger o ambiente não passe por apelar, à maneira de Al Gore, à consciência de cada um, com argumentos éticos fundados numa nossa obrigação (como espécie superior pelo menos no discernimento) de não prejudicar-mos tudo à nossa volta, com recurso a imagens de glaciares a caírem, que não impressiona ninguém, sejamos francos.
.
A melhor forma de promover uma nova consciência ambiental é através de uma análise económica de custo-benefício. Aquele desastre foi causado porque há necessidade de satisfazer a demanda por petróleo nos mercados. Mas tal procura valerá a pena? Aquele combustível fóssil para além de – por exemplo, no caso português – tornar a balança comercial deficitária dado ter que ser todo importado, o seu transporte envolve enormes riscos – especialmente para nós com uma costa tão grande (o desastre na Galiza não vai assim à tanto tempo). É urgente que os consumidores (porque é deles que se espera a mudança, não das petrolíferas) repensem o seu consumo e se orientem para soluções mais sustentáveis. A micro geração de energia, para além de economicamente rentável, não comporta riscos – eis uma boa aposta tanto para o comum dos cidadãos, como para as PME’S ou mesmo para os edifícios públicos. O Estado bem que poderia isentar de IVA estes equipamentos…
.
No entanto, é necessário ter muito cuidado com o debate acerca da política energética pois o lobby do nuclear anda por aí, sempre bem activo, e se é certo que é muito menos poluente que os combustíveis fosseis, também é certo que comporta mais riscos que a energia solar, hídrica ou eólica.
.
Ao leitor deixa-se esta mensagem: que tal rever a sua própria política caseira? Já pensou em instalar um painel solar? E que tal começar a usar mais os transportes públicos e menos o seu carro? Ajuda a nossa economia (porque ainda não importamos o sol necessário para os painéis) e pode ser que ajude o planeta, que é afinal onde guardamos as nossas tralhas.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O ataque de Israel à luz do Direito Internacional e as respectivas Consequências Políticas

A operação militar de Israel é completamente injustificada à luz do Direito Internacional. De acordo como o n.º 4, do art. 2.º da Carta das Nações Unidas:

“Os membros deverão abster-se nas suas relações internacionais de recorrer à ameaça ou ao uso da força, quer seja contra a integridade territorial ou a independência política de um Estado, quer seja de qualquer outro modo incompatível com os objectivos das Nações Unidas”.

O Preâmbulo da Carta da ONU é, de resto, bem claro. De forma “a preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra que por duas vezes trouxe sofrimentos indizíveis à Humanidade”, os membros da ONU garantem “pela aceitação de princípios e a instituição de métodos, que a força armada não será usada, a não ser no interesse comum”. Esta garantia remete-nos para o art. 1, nº 1 da Carta que reporta que os objectivos das Nações Unidas são “manter a paz e a segurança internacionais e para esse fim: tomar medidas colectivas eficazes para prevenir e afastar ameaças à paz e reprimir os actos de agressão, ou outra qualquer ruptura da paz”.

Assim, e uma vez que o art. 2, nº 4.º da Carta impõe um dever de abstenção aos membros da ONU do uso da força que não seja consistente com este objectivo, deve entender-se que qualquer uso da força que não possua este carácter é proibido.

Neste aspecto, salientamos arguiremos apenas uma nota em relação a quem obstar à sujeição deste imbróglio às normas do Direito Internacional. No nosso entender, atendendo à índole da missão, devido ao fim de serviço público humanitário da missão e, uma vez que a Insani Yardim Vakfi Humaniatarian Relief Foundation, responsável pelo auxílio, é uma ONG, e, por isso, ela goza do direito de intervir no território dos diversos Estados por razões de índole humanitária. Logo, as ONG gozam de personalidade jurídica de Direito Internacional, embora principiante, mas de natureza funcional e restrita ao serviço público que prosseguem.

O jornal israelita Haaretz avança a defesa de Israel, citando o embaixador israelita em Genève, Aharon Leshno Yaar que, à margem de uma reunião do Conselho dos Direitos Humanos da ONU: “They were not on a humanitarian mission but one of provocation and incitement. They used knives and clubs and shot two Israeli soldiers. Israeli forces had no choice but to defend themselves".

Esta acção de Israel é não só gravíssima às luzes do Direito Internacional, como poderá acarretar consequências imprevisíveis no processo de paz no Médio Oriente. Este processo conheceu sérios entraves desde a chegada de Benjamin Netanyahu ao poder a Israel, desde logo pela persistência da construção de colonatos. Como bem referiu o Lord, tanto o Estado Palestiano, como o Estado Israelita têm direito de existir e de coexistir. Para tal, é necessário um processo de cedências não só da parte da Palestina, como de Israel. O Opinador manifesta-se apreensivo quanto a tal possibilidade com o actual Governo Israelita em funções, principalmente, pela sua política passar por um princípio de não comprometimento e de renitência negocial.
Recentemente, em entrevista à Der Spiegel, Avigdor Lieberman, Ministro dos Negócios Estrangeiros, à medida que defendia a política de colonatos, colocava a pressão do lado dos Palestianos, esperando concessões de Mahmoud Abbas:
“Within one year we have made many gestures towards the Palestinians. We expect the Americans to put pressure on the Palestinians to stop anti-Israeli activities in the international arena.”
Lieberman, fundador do Yisrael Beitenu, partido de direita, é um acérrimo defensor da manutenção da política de colonatos. Ora, ter como representante da política externa, um homem deste calibre representa uma mensagem forte por parte do Governo de Israel e constitui um sério obstáculo à celebração de um acordo de paz no Médio Oriente. Os próprios EUA têm sido ingénuos numa política clara de não comprometimento do Governo de Israel, ao não pressionarem o seu aliado para uma atitude mais cooperativa de negociação. Essa brandura pode agora ser invertida à luz destes novos acontecimentos.
Logicamente, estes ataques inviabilizam qualquer tipo de cedência do lado palestiano e apenas podem fomentar uma escalada de ódio pelo Médio Oriente, sobretudo pelo eixo de países que apoiam abertamente o Hamas. Desde logo, o ataque israelita fortalece o próprio Hamas – concentra as atenções dos EUA e da Europa sobre a condenação do ataque israelita e não pela existência de um movimento terrorista. Da mesma forma, fortalece o movimento Hezbollah no Líbano e retira a atenção da ameaça nuclear iraniana. As consequências são, portanto, simples – a fragilização do papel de Israel no Médio Oriente e o aparecimento de uma nova janela de oportunidade para o alimentar de ódios dos movimentos terroristas, apoiados no fundamentalismo islâmico. O Estado Israelita pode argumentar o exercício de legitima defesa por parte dos seus militares, mas ao contrário do que já sucedeu, no passado, em situações de ataques de rockets do lado da fronteira libanesa, os seus argumentos são bem mais ténues. Israel atacou uma frota de 10 mil toneladas de ajuda humanitária que se destinava à Faixa de Gaza. Poderemos especular que algures entre essa ajuda humanitária se poderia ocultar algum auxilio ao Hamas, mas aos olhos da Comunidade Internacional, o ataque de Israel é indesculpável e, por isso, dificilmente, o Estado Judaico, conseguirá um nível de protecção semelhante ao que lhe foi concedido nos tempos da Guerra do Líbano em que rockets vindos do lado libanês caíam em território Israelita. Para já, a Europa condenou veemente o ataque, os EUA, cansados do impasse nas negociações israelo-palestianas, começam também a dar sinais de esgotamento, embora manifestem o tradicional apoio ao seu aliado e, aliás, foram a sua principal voz de defesa no Conselho de Segurança da ONU.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Israel a Banhos (de Sangue)

.
Começamos por dar as boas-vindas ao 5.º Opinador – o Dr. Costa. A ele deseja-se boa estadia neste fofo veludo. Os posts d’ Opinador ficam pois, ó leitor, da seguinte forma (tendencial):
.
Segunda-feira – Madame de Pompadour
Terça-feira – Lord Nelson
Quarta-feira – Dr. Carlos
Quinta-feira – Lord Nelson
Sexta-feira – Ahimsa
Sábado – Dr. Carlos
Domingo – Dr. Costa

.
Agora e recorrendo à adivinhação deixo aqui um boneco para o leitor amigo se orientar neste mar opinativo:
.
.
.
.
Quanto ao post:
.
Antes de mais devo dizer que sempre fui da opinião que o Estado de Israel tem direito a existir, tal como o Estado Palestiniano. Também já se passaram demasiados séculos e demasiado sangue foi derramado para saber quem tem ou não razão – se é que isso se pode chegar alguma vez a saber. Além do mais essa discussão é uma geradora de violência. Assentemos pois nisto – ambos têm que existir, e ambos têm que co-existir.
.
Como em tudo, também no mais recente incidente (leia a notícia aqui) existem duas versões: de um lado os inofensivos activistas carregados de comida atacados pelos sanguinários judeus, do outro os ameaçadores apoiantes de terroristas a invadirem águas de Israel para apoiar o inimigo. A verdade andará no meio, mas o que é certo é que 19 pessoas morreram e a versão israelita é um pouco difícil de “engolir”.
.
Assim, os israelitas dizem que pediram informações, identificaram-se como marinha de guerra mas mesmo assim foram atacados, já os activistas afirmam que iam muito descansados na sua vida, em águas internacionais quando a marinha israelita ataca sem dizer “água vai” por um lado ou por outro – massacre houve.
.
E esse é o facto mais grave que desautoriza o Estado Israelita perante a comunidade internacional, mesmo entre as opiniões públicas dos países mais amigáveis.
.
De uma coisa tenham a certeza – esta estratégia de “shoot first, ask later” seguida pelo exército israelita enferma de imbecilidade por dois motivos – primeiro pelo erro valorativo de onde parte e segundo porque só vai contribuir para uma escalada de violência que irá resultar em mais mortes e um maior distanciamento da Paz. A única forma de minimizar os estragos terá de passar necessariamente por um pedido de desculpas oficial e um processo de inquéito que garanta que os autores deste vil acto são responsabilizados.
.
Independentemente de estarem em águas internacionais ou territoriais, nada justificava o massacre de 19 pessoas num acto cruel e bárbaro. Tudo isto prova uma coisa que se tem vindo a dizer há imenso tempo: a formatação do indivíduo em ambiente militar, eliminando o seu sentido crítico, é nociva, degradante da condição da pessoa humana e pode levar a resultados pouco felizes m consequência do acatamento cego de ordens.
.
P.S. – Sim já sabemos, lá se foi a paridade n’ Opinador.