A mais bela, a mais pura e a mais duradoura glória literária de prosa da blogosfera

.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Querido, mudei outra vez o Código do Trabalho!

O actual Código do Trabalho entrou em vigor a 17/02/2009. Passados ainda nem sequer uns meros 2 anos, já se fala na sua alteração.

O actual executivo encontra-se pressionado pela Comissão Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional para reformar o mercado laboral, nomeadamente reduzindo o valor da indemnização em caso de despedimento individual, actualmente fixada em cerca de um mês de salário por cada ano de trabalho, um dos valores mais altos da Europa.

Sendo o Direito do Trabalho um ramo de Direito Público, encontra-se naturalmente muito mais permeável às mutações. No entanto, sucessivas e constantes modificações, sobretudo quando tange a codificações, são totalmente impensáveis, dado que impedem que os regimes sejam sedimentados e que seja criada jurisprudência. Se é certo que as leis devem acompanhar a evolução da economia, do país e da realidade empresarial, estarem permanentemente a ser modificadas, já se torna incomportável, sobretudo para aqueles que as têm de pôr em prática todos os dias. Isto dá, por vezes, azo a autênticos jogos matemáticos: a lei A entrou em vigor a 02/01/2008; a 04/01/2009 entrou em vigor a lei B que revogou a lei A; a 04/06/2009 entrou em vigor a lei C que revogou a lei B. Ora a um contrato de trabalho celebrado a 06/01/2009 por um trabalhador que é despedido a 07/01/2009 e que quer saber quais são os seus “direitos”, que lei vamos aplicar? Pois é, Caríssimos, a vida já não é fácil, mas quando teimam em complicá-la ainda mais…

De qualquer forma, José Sócrates apresentou já 50 medidas que pretende pôr em prática para aumentar a competitividade e o emprego. Dentre estas medidas destaca-se a fixação de tectos máximos para os valores das indemnizações em caso de despedimento e eventuais mudanças nos critérios de fixação das compensações e indemnizações. Vejamos o que o actual Código do Trabalho consagra a esse respeito. Actualmente, na hipótese de despedimento colectivo ou despedimento por extinção do posto de trabalho, o trabalhador tem direito a uma indemnização correspondente a um mês de salário base mais diuturnidades por cada ano de trabalho. No caso de despedimento ilícito, a lei fixa um intervalo para a indemnização a pagar ao trabalhador que não queira ser reintegrado na empresa. Esta indemnização é fixada pelo tribunal e varia entre 15 e 45 dias de salário base e diuturnidades por cada ano de trabalho, valor que a jurisprudência tem fixado nos 30 dias. O Governo pretende agora impor um tecto máximo de 12 meses de salário às indemnizações pagas aos trabalhadores em caso de despedimento e, assim, facilitar o ajustamento das empresas às flutuações da procura. Mais, quer que por cada ano de trabalho seja apenas dada uma indemnização por antiguidade de 15 dias de salário.
É notório que esta medida irá penalizar os trabalhadores mais antigos da empresa. No entanto, a Ministra do Trabalho contra-argumenta, afirmando que tudo se justifica dada a necessidade que as empresas têm de ver reduzidos os custos que têm de suportar no momento da reestruturação empresarial, ao mesmo tempo que têm de garantir o pagamento das indemnizações aos trabalhadores.

Caríssimos, é óbvio que esta medida vai ser bastante negativa para os trabalhadores que, mais uma vez, se vêem prejudicados, pois, independentemente de terem trabalhado numa determinada empresa, 5 ou 35 anos, receberão o mesmo no que respeita à indemnização por antiguidade. Ademais, os efeitos desta medida só se repercutirão a longo prazo, uma vez que esta nova fórmula de cálculo de indemnização só se irá aplicar aos novos contratos de trabalho celebrados após a entrada em vigor da nova lei. Assim sendo, esta medida não terá efeitos para as empresas que neste momento têm necessidade de se reestruturar.
O Governo propôs também a criação de um fundo alimentado pelas empresas que pague, pelo menos parcialmente, os custos dos despedimentos, destinado a trabalhadores contratados depois da entrada em vigor da medida. Este fundo será constituído por contribuições de todas as empresas, ou seja, na prática, até as empresas que mais empregam trabalhadores, terão de contribuir para este fundo de pagamento das indemnizações em virtude de despedimentos.
As medidas do Governo para “estimular o emprego” passam também por um reforço da negociação dentro da empresa, o que, segundo a Ministra, permitirá uma resposta mais adequada às flutuações do mercado e às necessidades de ajustamento das empresas. O Governo pretende que os contratos colectivos acordados entre associações sindicais e empresariais permitam que a mobilidade geográfica e funcional, a gestão do tempo de trabalho ou os salários possam ser negociados dentro da empresa. São igualmente alargadas as situações em que os sindicatos podem transferir o poder de negociação às comissões sindicais ou de trabalhadores; contudo, também aqui os efeitos serão diminutos, uma vez que dependem da vontade dos sindicatos de delegarem o poder negocial nas comissões.

Aguardemos, portanto, novos episódios da série “Querido, mudei outra vez o Código do Trabalho!”.

A vida está má, está! Até para os marqueses!

sábado, 29 de janeiro de 2011

A Revolução no Egipto

Seguindo-se à Revolução na Tunísia, surge agora a Revolução no Egipto. Pelo quinto dia consecutivo, o povo junta-se nas ruas e eclodem os protestos: no Cairo, em Alexandria, em Mansour, no Suez. Não é um grito de revolta isolado, trata-se da voz do povo que se ergue em uníssono.




















No dia de hoje, com o objectivo de acalmar a onda de protestos o Presidente Mubarak demitiu o Governo – é a primeira vítima das manifestações. Decerto não será a última. Queria o Presidente Mubarak fazer crer ao povo que escutava os seus protestos, que pretendia de agora em diante, de acordo com os desejos do povo, iniciar um novo movimento de reformas ao Egipto que lhe traria maior democracia e liberdade. Debalde – as manifestações continuam. O movimento espontâneo do povo egípcio não aponta aos braços e aos pés do regime, àqueles que constituem os instrumentos acessórios do poder: aponta directamente ao coração. E o coração deste regime é o seu símbolo máximo: o Presidente. Das duas uma: ou as manifestações acabam com a queda do regime de Mubarak ou terminam com uma repressão violenta e bárbara das forças de segurança sobre os manifestantes. Este último cenário é cada vez mais improvável – o Presidente chamou os militares a actuar; os militares juntaram-se a sua voz à do povo nos protestos. E este é um factor que faz a separação entre o sucesso e o insucesso: no caso da Tunísia, também os soldados apoiaram o povo nos seus protestos e a Revolução triunfou; no caso do Irão, na Revolução Verde de há dois anos atrás, a guarda pretoriana de Ahmadinejad e a coesão que se revelou entre o exército na defesa do regime acabou por segurá-lo.
Todos estes protestos, no entanto, têm uma base comum – é o descontentamento do povo árabe face a um regime numa fase claramente degenerativa da sua vida, numa crise aguda de legitimidade que apenas a força opressora do exército disfarçava. Pois bem: o povo deixou de ter medo – vem às ruas, grita, protesta, revolta-se, insubordina-se, rebela-se, ergue a sua voz.

A Revolução na Tunísia teve um efeito sobre os restantes povos dos países árabes: antes, o povo resignava-se perante as suas condições de vida miseráveis, perante o autoritarismo, perante a falta de liberdade: o regime brandia o exército numa das mãos e o povo tremia. Em Janeiro, o povo tunisino esmagou o medo: saiu à rua e triunfou. Demonstrou a todo o povo árabe o poder da crença – o poder de acreditar num ideal: a liberdade, a democracia. Demonstrou que a democracia prosperando por entre os Países Árabes não é um mero sonho de intelectuais utópicos: é a concretização da vontade do povo árabe, do povo por si, livremente organizado, agindo como um todo, sem uma força inspiradora que lhes insufle a vontade a não ser o ideal da liberdade.


E este movimento que irrompe em todo o Mundo Árabe deve fazer pensar os Europeus: deve fazer pensar uma certa direita xenófoba que emerge cada vez mais na Europa: na Holanda, por exemplo, os radicais de Geert Wilders, um anti-islamista, partilham o poder com o centro-direita. Espalham a sua mensagem populista entre o povo e, aqui e além, vai penetrando. Um pouco por toda a Europa, o discurso anti-islamista vai prosperando, negligenciando as consequências que, no futuro, daí poderão advir.


Pois bem: o povo árabe demonstra agora o seu verdadeiro carácter. Não se tratam de islamistas radicais, de meros títeres de meia dúzia de extremistas religiosos: a sua voz permaneceu calada todo este tempo; mas porque havia um regime ditatorial, opressor, autoritário que esmagava essa voz e o povo remetia-se ao medo e ao silêncio. Os dirigentes destes regimes não educavam o povo, não o cultivavam; apontavam-lhe apenas um caminho: a religião. Na ausência de outras forças inspiradoras, a religião foi durante muito tempo o ideal que conferiu sentido à vida do povo árabe. Não mais: o pensamento do povo árabe não se dirige ao radicalismo religioso, à corrupção, dirige-se sim à aspiração da liberdade, da dignidade do homem, da democracia. E o povo não deixará mais que outras pessoas se interponham entre si e a sua vontade e que falem em seu nome.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Redes Socais

Toda a gente sabe da sua importância hoje em dia. Algumas manifestações que têm ocorrido recentemente no Egipto, por exemplo, foram organizadas e difundidas através delas. O próprio Papa Bento XVI já se pronunciou sobre elas: sim, as redes sociais são importantes, mas os seres humanos não se deverão esquecer que o contacto pessoal continua a ser a verdadeira maneira de aprofundar, cimentar e solidificar amizades.
Também na economia as redes sociais parecem assumir um papel cada vez mais importante, havendo especialistas que receiam o início de uma bolha à sua custa, tal como aconteceu no início do milénio com os negócios «.com«. O Facebook prepara a sua entrada em bolsa. Mark Zuckerberg tem um filme à sua custa. O rapaz que interpreta o papel de Mark Zuckerberg está nomeado para «Melhor Actor» nos Óscares. Enfim, as redes sociais estão na moda.

Madame Pompadour
E este, pessoas em geral, seria o poder das redes sociais se estas fizessem parte do quotidiano de outros tempos.














Letícia. a Marquesa
Actualmente, com a panóplia de Redes Sociais existentes, confesso que tenho muita dificuldade em entender para que é que cada uma delas serve. Assim sendo, encontrei uma forma fácil e eficiente de perceber qual o fim de cada uma.




















Lord Nelson

Dedica-se isto a todos os info-excluídos com amor pelos livros... Isto não é o facebook.





















Carlos Jorge Mendes

Tendo presente a mensagem de Sua Excelência, o Papa, estimado leitor, continue a investir nas amizades - e não apenas nas amizades virtuais. Evite, por favor, fazer figuras destas.



quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Eleitores sem Voto


Portugal é um país curioso: fazem-se muitos estudos dos quais poucos chegam a ter aplicação prática. No Estado pululam os grupos de trabalho, os comités, as comissões, os gabinetes de acompanhamento e os comissariados que, com funções mais ou menos definidas, operam num momento anterior à da execução, naquele momento em que as coisas estão para ser e ainda não o são.



De entre estas entidades, temos a Comissão Nacional de Eleições, um órgão independente que funciona junto da AR e onde se encontram representados os três poderes do Estado tendo como funções assegurar a igualdade de oportunidades e de acção das candidaturas e garantir a igualdade de tratamento dos cidadãos em todos os actos de recenseamento e operações eleitorais.
Posto isto, chegamos rapidamente à conclusão que a CNE tem menos trabalho que o Pai Natal! Natal há um por ano, enquanto que eleições nem sempre. Apesar deste pouco trabalho, a CNE não conseguiu assegurar o regular funcionamento das últimas eleições presidenciais.


Após a bronca, a CNE veio afirmar não ter responsabilidades na execução ou na “direcção das actividades administrativas e materiais inerentes à execução prática do processo eleitoral e ao recenseamento, incluindo a administração da Base de Dados do Recenseamento Eleitoral”, conforme afirmado pelo seu presidente.

Lavadas as mãos, como Pilatos, a culpa vai para Ministério da Administração Interna. Jorge Miguéis, director administração eleitoral propôs o envio aos novos portadores do CC de um aviso, seguindo o exemplo do que se tinha feto em 2009 avisando que, não o fazendo, poderia haver bronca – e isto em Agosto.
O aviso foi dirigido ao Director Geral da Administração Interna (Paulo Machado) que olhou para tal documento, coçou a cabeça e enviou (lá vai outra vez o aviso) para a secretária de Estado da Administração Interna, Dalila Araújo, que a despachou favoravelmente. Depois de tudo isto nada foi feito, porque o ministro não disponibilizou verba…


Pode dizer-se que gastar dinheiro com a informação atempada aos eleitores através de carta é ridículo. Nos cremos que não se pode por um preço na democracia. Se vamos por aí, mais barato seria não ter eleições.
Depois outras questões se levantam: para que existe então uma estação pública de televisão se não para fazer serviço público? Acaso esta mensagem não era de serviço público, quiçá de interesse superior ao Preço Certo? E a rádio pública? Se nem para isto serve então…
Mais, mesmo que se viva num outro mundo, em que se julgue que todos os cidadãos são extremamente diligentes, não se pode sancionar que esses mesmos cidadãos tenham escolhido determinado momento para o envio do SMS: pois, se prometia a operacionalidade do serviço durante as eleições, não se pode vir agora criticar as pessoas por, no âmbito da autonomia das suas vontades, terem escolhido um determinado momento, mais próximo ou mais distante do acto eleitoral. Se a algumas pessoas foi dito (não a todas, porque a mim não, por exemplo), no momento da entrega do CC, que lhes foi atribuído um novo número de eleitor, não lhes foi comunicado a eventual possibilidade de sobrecarga do sistema.


E como a nós, talvez muitos outros não tenham sido informados: o pico de pedidos de informação deu-se após as televisões referirem aquela possibilidade, nos jornais do meio-dia.
O Ministro não se demite porque “não foge”. Mas senhor ministro, a demissão não é uma fuga… A demissão é a forma de V. Exa. assumir as suas responsabilidades. E já agora ponha os olhos no Director Geral da Administração Interna que, apesar de ter avisado V. Exa., em tempo útil, dos eventuais problemas e depois V. Exa. ter feito ouvidos de mercador, apresentou a sua demissão: "As eleições correram mal, sou o director, devo assumir a minha parte de responsabilidade por exercer um cargo de confiança política - ainda que a minha missão seja na verdade mais técnica".
Tenha vergonha e demita-se senhor ministro já que negou as verbas pedidas e ignorou os avisos! Os portugueses não querem desculpas, querem é que a culpa não morra solteira, como é costume neste sítio chamado Portugal.


E já agora seria interessante saber quanto dinheiro recebeu a Critical Software, empresa escolhida para gerir todo o processo…
Não podem burocratas impedir o voto por cidadãos regularmente inscritos. E porque motivo se andou a mexer nos números de eleitor? E porque motivo não consta ele do CC? Todo um Simplex que não faz sentido.

Gostaríamos de referir, que após 100 anos esta república dos bananas, lá continua a cambalear, nem conseguindo a regular eleição do chefe de Estado, seu pressuposto básico. Ai Portugal, Portugal…

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Notas sobre as Presidenciais

Lord Nelson teve já oportunidade de, levemente, suavemente, com as pontinhas dos dedos de tratar o assunto das Presidenciais. Pois bem: nós, mais brutos, mais funestos, voltamos ao assunto mas partindo da nossa perspectiva. E queremos desde já iniciar pelo tema da abstenção, dos votos brancos e dos votos nulos. A percentagem da abstenção sabemos como foi: 53% - a mais elevada de sempre. Um sinal que os problemas surgidos com o exercício do direito de voto não beliscam. Votos brancos – foram quase 200.000; mais de 4%. Os votos brancos são, no meu entender, um sinal bem mais grave da enfermidade da democracia portuguesa que nos rege hoje do que a abstenão. Demonstra que existem cerca de 200.000 portugueses conscientes das suas responsabilidades de cidadão e cientes da sua condição que exercem o seu direito de voto mas que não encontram em nenhum dos candidatos um quadro mínimo de valores com que se identifiquem. Um conjunto de candidatos que não consiga transmitir um conjunto mínimo de valores capazes de convencer 200.000 eleitores não significa uma enfermidade da democracia e do sistema – representa, isso sim, uma enfermidade dos intérpretes da democracia e do sistema. E uma enfermidade que acompanha a democracia portuguesa há já três décadas. Sucessivamente, durante 30 anos, um conjunto de políticos revezam-se; os rostos mudam é certo, as ideias, porém, permanecem as mesmas.
Um pequeno exemplo para atestar da qualidade dessas ideias: no último dia da campanha presidencial, o Presidente da República reeleito, na ânsia de capturar meia dúzia de votos, criticou o Governo pela redução de salários na função pública. O Sr. Cavaco Silva sugeriu antes como forma de obter de reduzir o défice orçamental a criação de um imposto excepcional sobre os mais ricos. Decerto, o Sr. Cavaco Silva não ignora que aquando do primeiro Programa de Estabilidade e Crescimento foi criado uma taxa adicional em sede de IRS de 45% para os rendimentos superiores a 150.000 euros por ano. O Sr. Cavaco Silva estava ciente disso; e, no entanto, produziu aquela afirmação. Que nos diz isso do seu carácter? Que é um demagogo, que é um populista, que é um mentiroso – porque como reputado economista que é e afirma ser, sabe que os cortes na Administração Pública eram inevitáveis e que, somente, pecam por tardios, face aos elevados cortes que o Estado tem que operar na despesa pública, representando os gastos com pessoal a maior rubrica das despesas do Estado. E que a partir de determinada taxa, o imposto deixa de ser um verdadeiro imposto, cobrado pelo Estado para fazer face às despesas públicas, para se tornar num verdadeiro confisco.
E será pois este populista, este demagogo, este mentiroso que presidirá aos destinos do País nos próximos anos. O problema de Portugal é que sucessivos populistas, demagogos e mentirosos se têm apoderado do poder, negligenciando a coisa pública e atendendo apenas ao interesse pessoal pela reeleição ou ao interesse partidário. Não se trata de um problema do sistema, trata-se de um problema dos intérpretes do sistema: não surge na cena política portuguesa uma única personalidade capaz de se elevar pelo mérito das suas ideias, do seu trabalho, da sua dignidade, da sua ciência, da sua integridade.

Estas eleições trouxeram também sinais importantes à esquerda. E não representa a derrota do Partido Socialista – representa sim a derrota do sector à esquerda do Partido Socialista que é, de resto, um sector cada vez mais marginal dentro do Partido. Hoje em dia, o verdadeiro socialismo não se faz aproximando-se do radicalismo do PCP ou do BE: faz-se antes afirmando a diferença para esses partidos que se refugiam na sua irresponsabilidade governativa para atacarem o PS porque sabem que nunca terão de arcar e responder pelas consequências das suas políticas. E Alegre descobriu bem as consequências de se juntar ao Bloco de Esquerda. Continuo a entender que o Partido Socialista tomou a decisão correcta ao apoiar Manuel Alegre – porque não havia alternativa. A existência da candidatura de Alegre no PS impossibilitou a existência de outra candidatura com possibilidades reais de triunfar pela divisão que comportaria à esquerda. Quem errou foi sim Manuel Alegre ao aceitar o apoio do Bloco de Esquerda: a união do PS ao PCP e ao BE é ontologicamente impossível pela oposição de valores que os contrastam. Uns representam a velha esquerda; os outros a moderna esquerda. E é isso que os militantes socialistas têm de entender, mas sobretudo os militantes ainda enclausurados a uma esquerda desfasada do tempo e da realidade: a verdadeira esquerda apenas pode existir dentro do Partido Socialista: a esquerda que defende o Estado Social mas não alheada da realidade e da conjuntura e dos desafios que enfrentamos. Enquanto a esquerda mais à esquerda for incapaz de entender isso, qualquer aliança de esquerda não será uma operação de soma, mas de divisão. As clivagens ideológicas existentes entre PS e o PCP e BE pelo seu radicalismo de discurso impossibilitam qualquer possibilidade de união. E nesse aspecto PSD e CDS apresentam clara vantagem, sobretudo agora com a liderança de Passos Coelho e a viragem ainda mais à direita em direcção ao CDS.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

As Presidenciais no Portugal de 2011



Após o anúncio dos resultados eleitorais, sentamo-nos com um papel e um lápis, fizemos cálculos básicos (regra de três simples) e chegamos às seguintes conclusões:

Cavaco Silva foi eleito presidente com menos de 2.500.000 votos, o que equivale a dizer que mereceu as preferências de 23,16% dos eleitores.

Num outro sentido, 277.712 cidadãos deram-se ao trabalho de ir votar nulo ou branco. Estes, somados com os 5.139.483 abstencionistas (que não quiseram votar ou quiseram e não puderam e, entre burocracias, desistiram) e com os 189.351 votos do candidato Coelho (epifenómeno que agrega essencialmente os votos de protesto) dá um total de 5.606.546 eleitores que não se sentiram representados em nenhuma candidatura minimamente credível.
Ora 58,22% dos eleitores foram pois indiferentes à possibilidade de eleição do chefe de Estado – ou não votaram, ou votaram em branco ou votaram em protesto. Não vamos aproveitar os dados para fazer propaganda monárquica – deixámos apenas à consideração do leitor este facto: 58,22% dos portugueses não se interessaram por esta eleição. Todos os números avançados podem ser conferidos aqui, ou então resultam de cálculos efectuados tendo por base a informação que ali consta.

Quanto à noite eleitoral, como estas eleições tiveram lugar em Portugal todos saíram vitoriosos… Não houve derrotas para ninguém. Vejamos então:
Cavaco ganhou porque foi o mais votado.

Nobre dizia, dias antes da campanha e olhando olhos nos olhos a Alegre, que apenas um tiro na cabeça o impediria de chegar à 2ª volta. Ele não chegou à 2ª volta, nem levou um tiro na cabeça, mas afirmou que a candidatura dele era a vencedora.

Francisco Lopes saiu vencedor porque, um candidato do PCP nunca perde! O povo não cai, o povo não perde!

Alegre, apesar de ter perdido, acaba por não perder dado que, segundo o próprio, começa a sua vida política todos os dias. (Um dos seus apoiantes bloquistas – Louçã – afirmou que a direita já estava a afiar as facas para tomar o poder… E isto é inconcebível! Partidos políticos que queiram tomar o poder? Típica ignorância burguesa…)

Defensor Moura não entrou para ganhar (disse o próprio), introduziu o tema BPN e não congratulou o vencedor… Cumpriu assim o seu objectivo de chatear Cavaco, saindo pois vitorioso neste aspecto e no global, até porque não tinha mais nenhum objectivo.

Mas o único que venceu de facto Cavaco, em 3 concelhos da Madeira, foi José Manuel Coelho… O candidato que não foi a debates! E que derrotou João Jardim nalgumas urnas! Este candidato, sem partido nem movimentos conseguiu quase 5% da totalidade dos votos e ganhou um futuro político na Madeira.

Para o final deste post fica uma crítica ao recém-eleito presidente: um discurso de vitória que serve apenas finalidades de vendetta, mesmo que eventualmente justificada, não serve para unir os portugueses e só prova uma coisa – após a eleição de um árbitro de entre os jogadores, aquele não é o árbitro de todos: nem os adversários o vêm como isento, nem ele vê os adversários como iguais aos apoiantes…

De realçar o bom discurso de Pedro Passos Coelho – o presidente do PSD não se aproveitou da vitória do candidato por si apoiado para fins próprios. As presidenciais não servem para avaliar o Governo, isso é verdade e ele não caiu em tentação. Mostrou integridade!

O post já vai longo e ainda pretendíamos falar da monumental trapalhada com os números de eleitor e, em especial, das declarações bestiais (de besta) do porta-voz da CNE. Mas, para não maçarmos o leitor, tais considerações ficarão, para quinta-feira.



segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A situação já está a cheirar mal

Que a situação está má para todos já sabemos e que muito sacrifício e esforço se pede constantemente a quem tem de suportar a maldita crise, também parece que estamos a par. Mas como o povo português está ciente da sua capacidade de desenrasque, cujo florescimento remonta a tempos idos em que a sociedade, já madrasta para com o país à beira-mar plantado, obrigou os portugueses, pequeninos e simpáticos a dar o litro e a puxar pela cabeça por forma a criar embustes e esquemas que lhes possibilitassem contornar os anos agrestes que fomos sempre vivendo ao longo destes séculos.

Por isso agora, mais do que nunca, essas capacidades são necessárias e imprescindíveis para sobrevivermos todos à época das vacas magras. Então o que notamos? Negócios adormecidos a desabrochar em tudo quanto é sítio, um comércio de carência para as horas de maior aperto quando já nada parece sorrir. Negócios que levantam dúvidas e desconfianças sobre as verdadeiras intenções, na maioria das vezes pintadas com tons de solidariedade e boa-fé.

Eu saí de casa decidida a ver e cheirar com os meus próprios sentidos no que se está a transformar a crise. Andados 15 minutos tropecei numa loja de compra de ouro usado. Esta realidade sufoca todos os espaços comerciais que estavam desamparados e abandonados por força de outros comércios menos eficazes não suportarem os seus custos de rendas e manutenção. E uma coisa curiosa neste novo mercado de jóias e preciosidades usadas é a aparente inexistência de problemas de concorrência pois, tal como acontece com as lojas dos chineses, em cada rua há duas a três lojas de compra de ouro usado. Estaremos nós assim tão ricos que nem damos conta? Porque se se justifica esta proliferação de estabelecimentos, então significa que as pessoas estão a recorrer com muita frequência à venda das jóias que têm encostadas e sem uso em casa para sarar uma parte do golpe na economia familiar.

Entre esta praga, ainda por se saber se justificada ou não, surge uma outra, cuja abordagem requer algum cuidado salvaguardando-se deste modo as reservas de sensibilidade do leitor. Quem se atreve a sair de casa terá também sido confrontado com outro negócio menos revigorado noutras alturas que é o da venda de coisas usadas, coisas no geral. Segundo o meu entender, todos agradecemos que haja um sítio onde possamos depositar roupas e móveis ou electrodomésticos que já não queremos, aliando a isso uma sensação de dever cívico cumprido por acreditarmos estar a ajudar pessoas que, com mais dificuldades que nós, podem retirar algum uso das coisas que despachamos. Agora: perto de minha casa, numa antiga oficina cujas respectivas áreas se assemelham mais a um armazém, alguém decidiu criar um desses centros de depósito de tralha usada, mas algo massivo, em grande. Há uns dias passei em frente desse negócio, do outro lado da estrada que terá de largura mais do que 10 metros certamente e não havia muito vento, apenas uma leve chuva. As coisas, quase postas no passeio parece que obrigam quem passa a tropeçar nelas para se dar conta de que, ali, há objectos que lhe podem ser úteis e essas mesmas coisas, todas juntas, em grandes quantidades, emanam um odor próprio dos objectos a que já ninguém pega há muito tempo, ou seja, mofo, mofo que alcança mais de 10 metros de distância.

Para quem de direito: ponham-me mão nisto se faz favor…ajudar sim, mas intoxicar os transeuntes não.