A mais bela, a mais pura e a mais duradoura glória literária de prosa da blogosfera

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terça-feira, 15 de junho de 2010

A Queda de Uma Ilusão




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Mensagem da Gerência - o texto de hoje pode ofender as consciências mais puras. Se acha que tem uma consciência pura, pare de ler isto e vá apoiar a selecção.
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Se já está a ler este segundo parágrafo é porque, no seu íntimo, não considera a sua consciência como pura: V.Exa é já um pecador/a endemoinhado/a e qualquer desvio comportamental que experiencie já decorre da semente do mal que já estava plantada em si e não resultou deste post. Declinamos pois qualquer responsabilidade.
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No post de hoje, dispo-me das minhas vestes conservadoras para trazer junto do amigo leitor um problema novo que nos ameaça. Note porém que mantenho qualquer coisinha vestida. Nada de andar cá em pelota pelo Opinador, a ofender a moral, os bons costumes e o Dr. Carlos.
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Então o que se passa é o seguinte:
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Como qualquer jovem do meu tempo cresci aconchegado por uma bonita fantasia que vem já desde a bela poesia de Catulo, esse sofisticado poeta romano do século I a.C., passou pelas belas ninfas do Canto IX dos Lusíadas (“Outros, por outra parte, vão topar/Com as Deusas despidas que se lavam/Elas começam súbito a gritar/Como que assalto tal não esperavam/Umas fingindo menos estimar/A vergonha que a força, se lançavam/Nuas por entre o mato, aos olhos dando/ O que às mãos cobiçosas vão negando;”) e hoje anda pelos filmes das coelhinhas Playboy. Tal fantasia preenchia o imaginário juvenil de qualquer rapaz adolescente - falo da fantasia masculina sobre as relações sexuais entre duas mulheres, três mulheres, quatro mulheres, n mulheres...
Assim preenchido o imaginário masculino, com belas e jovens mulheres que, em orgias lesbianas, trocavam carícias sôfregas com os seus corpos desnudados, os homens cantavam e riam, felizes da vida, enlevados em tais cogitações. Tal era pois, o universo de muitos jovens.
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Mas eis que, com a aprovação do casamento homossexual, começam a aparecer nas televisões em prime-time casais de lésbicas que despedaçam aquelas belas imagens. Tratam-se sobretudo (falamos apenas do que vemos nas estações de televisão generalistas) de senhoras de alguma idade, com uns pneus, desprovidas dos atributos típicos do belo sexo e com um guarda-roupa pior que o de um dirigente sindical – conforme foi realçado ontem, de forma muito douta pela minha colega opinadora.
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Note o leitor que qualquer tentativa de imaginação de um cunnilingus, anilingus, masturbação mútua ou mesma uma carícia mais intíma será afastada da mente maasculina com um vigoroso ahgggggg, carregado de asco.
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Esta situação deveria ter sido prevista pelo legislador e deveriam ter sido tomadas medidas – por exemplo, pelo menos na estação pública só deveriam passar imagens de casamentos de belas lésbicas, correspondentes à tradição histórica acima enunciada. Mas não foi. E agora os homens portugueses (pelo menos os heterossexuais, porque os homossexuais presumo que se estejam a borrifar para o tema) ficam órfãos de uma das mais belas fantasias do ideário masculino.
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Tal situação parece-nos inadmissível e fazemos aqui o nosso apelo aos doutos deputados da Nação: Excelências! Os casamentos de lésbicas feias devem ser feitos à porta fechada. Os homens de Portugal não precisam, não querem, não podem saber da sua existência. Que apenas os casamentos de lésbicas fermosas, tenham cobertura mediática. Esta é a única forma de prevenir a calamidade que se avizinha.
Deixem-nos manter a ilusão – é tudo o que se pede.
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E para terminar tão inaudito post, deixamos aqui mais uma estrofe do Canto IX dos Lusíadas, que descreve essa ilha dos amores onde, quando os nossos marinheiros la chegaram, ninfas viviam desnudadas em alegre convívio:
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“ Assi lho aconselhara a mestra experta:
Que andassem pelos campos espalhadas;
Que, vista dos barões a presa incerta,
Se fizessem primeiro desejadas.
Algumas, que na forma descoberta
Do belo corpo estavam confiadas,
Posta a artificiosa fermosura,
Nuas lavar-se deixam na água pura.”

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Casório

Cumpre-me trazer à consideração popular reflexões pertinentes acerca dessa negligenciada realidade da nossa sociedade que é, o casamento. Quando se tem a oportunidade de conhecer ao pormenor o funcionamento do ordenamento jurídico que nos rege e respectivo mundo legislativo, chegamos depressa à conclusão de que tudo o que à nossa volta existe, não é mais do que um conjunto de práticas reflectidas e instituídas com regras e procedimentos fixados por um grupo de indivíduos que, sabe-se lá por quê, têm mais importância do que todos nós e obrigam-nos a fazer as coisas segundo aquilo que eles decidiram ser o correcto (senão somos uns infractores do pior). E é por isso que institutos como o casamento perdem todo o fascínio que os caracteriza. Falo por mim que sou mulher, vejo novelas e sempre ouvi histórias de príncipes e princesas que me alimentaram expectativas monstruosas no que diz respeito a ânsias familiares e felicidade para sempre.

Se é por clarividência geral ou não, não sei, mas o que é certo é que o encantamento que desde há muito envolve o casamento está cada vez mais afundado nessa consciência social de que não passa de um contrato do qual se pode, a qualquer momento, abrir mão. E assim, bonitos sonhos de um amor e uma cabana são deitados abaixo e a inocência saudável de um casal esventrada sob o lema "se não der certo divorciamo-nos".

O que não é, de todo, concebível para mim é que, aliada a esta ideia de relatividade dos votos matrimoniais, as pessoas negligenciem o momento de dar o nó e os noivos cheguem ao altar, ou ao balcão da Conservatória do Registo Civil vestidos como se fossem ao Minipreço comprar meia-dúzia de ovos e comida para o cão. Isto tudo porque assisti, (com alguma mágoa devo confessar), à celebração do primeiro casamento homossexual em Portugal e me deparei com um cenário triste e sem cor (coisa que até costuma ser mote de todo e qualquer movimento gay) onde o único momento passível de ser carimbado como o clímax da festa foi o fugaz abraço final entre as noivas. Não me entendam mal, desta avaliação estão completamente de parte as minhas considerações pessoais acerca do casamento entre pessoas do mesmo sexo, o que me perturba o sono é simplesmente o facto de a cerimónia se estar a tornar tão banal ao ponto de já ninguém se preocupar em vestir-se a rigor para a ocasião, é uma questão mais fútil, por assim dizer.

Ainda por cima foi um momento histórico, banhado de um je ne sais quoi de derrube de clandestinidade e apinhado de elementos da comunicação social! Não seria por terem ido ao cabeleireiro ou levarem um fatinho mais aprumado que iam ser acusadas de exibicionismo ou ostentação (pelo menos não por mim, garanto). Chamem-me tradicionalista ou ultrapassada, mas para mim o casamento tem de ter todos os atributos (excepto grandes festas...estamos em tempos de crise) para que se evitem depois os remorsos, quando se for recordar esse belíssimo momento do nosso percurso enquanto pessoas, por não haver uma única foto em que a t-shirt dos Simpsons na praia trazida de Maiorca nas férias de 2005 não apareça.

sábado, 12 de junho de 2010

A Pátria não é o Solo, é a Ideia

Quinta-feira, dia 10 de Junho, celebrou-se o dia de Portugal. A cúpula estadual reuniu-se em Faro, no Algarve, para proceder às celebrações. Entre as diversas intervenções, salientamos, especialmente, a intervenção do Presidente da República a que nos comprometemos a rebater critica e ironicamente.
“É pela mais justa e pela mais completa compreensão do seu destino social que tanto os indivíduos como os povos se disciplinam, se fortalecem e se aperfeiçoam.” O Opinador questiona ao nosso Presidente da República qual o seu entendimento de destino social? Ora, Sua Excelência, transmitiu-nos o seu entendimento de destino social baseado nessa bela e luzente ideia de coesão nacional. E o que é esse tesoiro da coesão nacional de acordo com o mesmo Presidente da República? Esse tesoiro é, nada mais, nada menos, do que “uma manifestação de vontades, a expressão do desejo de nos mantermos unidos, a capacidade de, em momentos difíceis, juntarmos esforços em torno daquilo que é verdadeiramente essencial.” Para o nosso Presidente da República a coesão, a ideia em que deve assentar a Pátria portuguesa consiste no português ascender ao monte mais alto da sua localidade e, uma vez no cume, inspirar profundamente, expandir os pulmões, encher o peito de brio, e bradar, estrepitosamente, lançando às várzeas:
- Eu quero unir!...
A união pela união é completamente inútil senão for guarnecida de um ideal que lhe dê força, robustez, ambição, cor, forma – numa palavra, Vida. É somente pela existência de um vínculo comum que possa unificar as divergências que essa união é possível – esse vínculo comum traduz-se no Ideal, num guia que oriente o povo para um desígnio comum, para uma ideia superior. Apregoar a união, sem existir um tal conceito, um ideal por detrás dessa conformidade de esforços que façam com que os indivíduos, atraídos pelo brilho desse mesmo ideal, se ajuntem e batalhem pela prossecução desse vínculo comum, é apregoar uma ninharia. Nós buscamos nas palavras de Sua Excelência a mais profunda interpretação extensiva do seu discurso para vislumbrar esse ideal em que pudesse assentar a coesão portuguesa. Contudo, tudo o que encontramos no seu discurso foram um conjunto de palavras despidas de qualquer força correlativa. O Opinador demonstra, desde já, as suas reservas ao estabelecimento da coesão portuguesa com base na nulidade, visto que, desde há décadas, é nessa ideia que Portugal tem assentado e, convenhamos, Sr. Presidente, Portugal é, neste momento, um atoleiro, onde cada ideia resiste, pugna, peleja, mas no fim, irreversivelmente, mergulha, profundamente no lodo.
V. Republicana Ex.ª cita ainda Herculano – “Quando se lançam os olhos para uma carta da Europa e se vê esta estreita faixa de terra lançada ao ocidente da Península e se considera que aí habita uma nação independente há sete séculos, necessariamente ocorre a necessidade de indagar o segredo dessa existência improvável. A anatomia e fisiologia deste corpo, que aparentemente débil resistiu assim à morte e à dissolução, deve ter sido admirável”. Não, Sua Excelência, não! Respeitosamente, não! Respeitamos, profundamente, o grande Mestre, mas Sua Excelência não tem o direito de fazer uso indevido das palavras do venerável Herculano! De facto, é politicamente correcto ao Presidente da República citar a fisionomia do nosso País para enaltecer os feitos grandiosos de eras passadas. Mas note Sua Excelência – isso é o que toda a gente, sem excepção, faz! O Sr. Doutor é o Presidente da República, não é o taberneiro da tasca local! Evidentemente, o taberneiro não citaria Herculano, mas a sua eloquência, em termos substanciais, é a mesma do taberneiro, dado que a correlação das ideias é semelhante. Respeitosamente, insistimos neste ponto, e discordando do Grande Mestre, a Pátria não é o solo, é a Ideia, Sr. Presidente. Sua Excelência, poderia começar, enfaticamente, a sua intervenção por declamar “Os Lusíadas”:

As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana…

Mas se o Sr. Presidente da República julga que essa obra é o exacerbamento do solo português, então, comunicamos a V. Ex.ª. que está, fatalmente, equivocada. É sobre a Ideia, Sr. Presidente. É sobre a Ideia que repousa essa epopeia dos feitos nacionais. Não era a extensão do solo que fazia de Portugal a Pátria das Pátrias – era o seu Ideal. As Descobertas não foram mais do que a concretização de um Ideal íntimo de aspiração a uma Pátria que fosse tão-só o reflexo dos grandes Homens e dos grandes Ideais que compunham essa Pátria. A realidade a que se chegou – essa gloriosa realidade -, não foi mais do que um simples reflexo do Ideal íntimo que habitava já num conjunto superior de homens. Aliás, essa mesma realidade a que se chegou, não é tão importante quanto esse sentimento de aspiração puro que brota no Espírito dos Homens. Esses homens recheados de Ideal eram sim os verdadeiros Profetas que anunciam as Verdades e que depois, pela força que emana do seu pensamento, descem do exílio dos Céus onde se aperfeiçoaram e, humildemente, doutrinam o restante povo, indicando o rumo, o caminho.
Era, precisamente, esse Ideal que permitia manter a coesão do solo. Essa mesma coesão só viria a ser, mais tarde, destruída pela mesma razão que Portugal vem padecendo desde há séculos – pelo aviltamento das classes dirigentes. Pela luz do Infante D. Henrique, do Rei D. João II, pela sua fecunda influência, pela acção da sua mão, surgiram um conjunto de homens que, insuflados do mesmo Ideal, embebidos da mesma gloriosa Visão, lançaram-se pelas “águas sem fim! Ondas sem fim! Que mundos novos de estranhas plantas e animais, de estranhos povos, ilhas verdes além…para além dessa bruma, diademas de aurora, embaladas de espuma!”. O Além era, então, o Ideal, Sua Excelência – o Inexplorado, a Novidade: o Descobrimento. E era esse Ideal que sedimentava não só a coesão, como permitiu, da mesma forma, aspirar a algo mais do que a coesão. E não, Sr. Presidente, não eram oiros, safiras, esmeraldas, diamantes, rubis que alimentavam essa aspiração – à semelhança de um Aquiles, pelejando em Tróia, era a sede de um Infinito, de um nome que perdura para além da erosão dos tempos.
Como pode V. Ex.ª falar em coesão se Portugal, nos tempos contemporâneos, não é mais do que uma Pátria mole, esfalecida, desgrudada, despolida, esbandalhada, despedaçada, dilacerada, quebrada?

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Praxe - qual é (ou qual deveria ser) a sua essência?

O tema que trago hoje é o da aplicação prática da praxe, a qual só deveria ser feita tendo por base o conceito original. Visto que alguns praxantes (ou “doutores”) por vezes tendem a esquecer-se do significado e objectivo real da praxe académica vou começar por apresentar a sua definição. Ora, por definição, a praxe académica deve “permitir a integração dos mais novos no meio académico”.

Como sabemos, muitos caloiros vão, frequentemente sozinhos, para um meio novo, uma “escola” diferente, com colegas desconhecidos e, muitas vezes, numa cidade também ela pouco familiar. E, como seres sociais que somos, além dos objectivos académicos óbvios (tirar o curso), também temos o objectivo de nos integrarmos no novo meio, conhecê-lo e estabelecer laços com os demais.

Contudo, a recepção ao caloiro nem sempre se limita a receber e integrar os novos alunos. Já todos ouvimos falar de abusos de poder, por parte dos “doutores”, que se traduzem em situações de submissão, humilhação gratuita e desrespeito pela integridade física e psicológica das chamadas “bestas” (caloiros). É certo que tais situações não constituem a regra, mas é fundamental reflectir sobre elas para evitá-las.

Com efeito, as relações hierárquicas que se estabelecem entre doutores e caloiros (que estão, claramente, numa posição de fragilidade por se encontrarem num mundo novo, no qual desejam ser aceites) podem ser perigosas e até passar uma ideia errada, a vários níveis, do que uma integração deve ser. Isto porque, a verdadeira amizade não pode ser criada em situações onde o elemento mais forte subjuga o elemento mais frágil. A submissão perante hierarquias pré-determinadas é igualmente perigosa ao incentivar os caloiros a aceitar passivamente uma “ordem”, onde é desejável nunca negar o superior. Neste sentido, o postulado de que ninguém é obrigado a ir à praxe não é assim tão simples, pois a pressão para participar é evidente (por exemplo, é um hábito os doutores esperarem os caloiros à saída das aulas, exigindo explicações quando um caloiro diz que não quer ou não pode participar) e o medo de marginalização, decorrente da não participação, torna-se real. Há situações em que os caloiros não concordam apenas com algumas das actividades da praxe; mas, para não as experienciarem, são por vezes obrigados a declararem-se anti-praxe, perdendo o direito de participar em tunas, usar o traje, etc. Por esta razão, os praxantes devem ser relembrados de que as situações não são sempre pretas ou brancas. Como em tudo na vida há áreas cinzentas e obrigar uma pessoa a adoptar uma posição ou outra, sob pena de ter acesso total ou privação total de certas vivências académicas (ex: participação em tunas) é extremo e injusto.

Se for praticada de forma equilibrada, sem abusos de poder e sem aproveitamento das fragilidades dos novos alunos, a praxe pode ser muito vantajosa, proporcionando uma verdadeira integração. À semelhança do que sucede em todas as outras áreas da sociedade, encontramos pessoas mas conscientes e outras menos ponderadas: há doutores óptimos, cujo único objectivo é auxiliar a integração; no entanto, também há veteranos com agendas escondidas (mesmo que por vezes não tenham total consciência disso). Agendas escondidas essas que assumem uma forma de vingança pelo que lhes foi feito no ano anterior, em que alguns chegam a dizer coisas como, por exemplo, “a mim disseram-me para fazer isto e eu obedeci, embora fosse desagradável, por isso também posso fazer agora o mesmo aos outros”. A essência da praxe é integrar, não é fazer algo porque alguém o fez a si no passado. Assim sendo, acredito que, se os veteranos têm o direito de praxar, terão igualmente o dever de ponderar a forma como conduzem a praxe, realizar uma introspecção onde vejam qual a sua verdadeira motivação para praxar, não caindo em erros abusivos e vinganças projectadas em pessoas que não têm culpa. Quando isto a acontece, a praxe deixa de o ser e transforma-se em estupidez, com pessoas frustradas a descarregarem as suas frustrações em inocentes e procurando, de forma inadequada, auto-afirmarem-se.

Enquanto oportunidade de integração, a praxe deverá apenas preocupar-se em promover o convívio, a partilha de experiências e de conhecimento, bem como a criação de laços de apoio entre as pessoas. Ao invés de um espírito de superioridade arrogante a ameaçador, deve reinar um espírito de acolhimento, para que os novos alunos se sintam verdadeiramente ligados e aceites na nova faculdade, na nova cidade e com as novas amizades. E, para tal, basta que os praxantes usem o seu bom-senso e o seu sentido humano, assumindo um papel de “guias” para os caloiros e levando-os a conhecer os locais mais relevantes da Universidade e da cidade: biblioteca, papelarias, centros comerciais e hipermercados, alojamentos/residências, centros culturais, transportes públicos disponíveis, restaurantes e cantinas mais frequentados pelos estudantes, cafés, organizações de cariz cultural e social para os diversos gostos pessoais (ex: grupos de fotografia, grupos de cinema, grupos de teatro, voluntariados, tunas, grupos de defesa ambiental e animal, organizações de eventos culturais e desportivos variados), etc. Na minha opinião, é (ou deveria ser) esta a essência da praxe: um verdadeiro espaço de integração com socialização positiva, divertida e enriquecedora para o indivíduo.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Primeiro ensaio, se assim se pode chamar, sobre uma vaga de emprego!

O Primeiro meu claro!! É um prazer enorme poder colaborar com este espaço (eu chamo espaço porque tá na moda; isto hoje em dia é tudo um espaço de qualquer coisa...) com laivos de brilhantismo tão marcados, seja pelo brilhantismo que emana de todos os autores que colaboram, lá está, com este espaço, seja pelo dos próprios leitores e comentadores deste, lá está, espaço. Este espaço tem ainda muito espaço, e belas vistas, daí que me tenha mudado.

Espero estar à altura de ocupar o meu espaço semanal, que é o Domingo, com crónicas que levem a vossa imaginação até ao espaço. Queria apenas fazer uma pequena ressalva, correcção, à brilhante introdução de Lorde Nelson, realizada num dos seus últimos comentários: refere-se, exactamente, ao espaço politico que ocupo. Estaria certa a sua análise, se eu não tivesse descoberto recentemente que a nossa ideologia politica depende definitivamente do espaço geográfico que ocupamos. Uma ideia que poderei mais tarde desenvolver; mas que significa que consoante esteja mais virado para cada um dos pontos cardeais, serei um social democrata, um socialista, um liberal ou até mesmo um comunista dos sete costados! Tudo uma questão de espaço!

Feitas as apresentações, vamos passar ao aproveitamento efectivo deste... lugar! É muita responsabilidade escolher um primeiro tema; olho para a semana que passou; vejo o que aconteceu de importante; e consigo encontrar dois temas que ficarão para a história, com toda a certeza, e que passo então a analisar.

O primeiro tema, pela cobertura mediática que teve, pelo drama, a comoção nacional que provocou, tem de ser a saída de Nani da selecção por lesão. Mais do que tudo, eu queria deixar aqui um sincero abraço de amizade aos editores dos três telejornais por abrirem todos com a mesma noticia: Nani fora da selecção! Todos realizaram directos desde a África do sul, o que também é relevante. Chama-se responsabilidade social, caros amigos: todos os portugueses, quer quisessem ou não, todos ficaram a conhecer essa informação tão importante; ninguém podia negar o conhecimento do tema numa qualquer conversa de elevador! É também responsabilidade social e serviço público por outra razão:ajudar as pessoas que pensam que não querem saber do Nani e da sua lesão; elas querem saber! só que ainda não descobriram... É a mesma lógica e razão que leva os governos, em especial os de esquerda, a obrigar-nos a fazer coisas que nós ainda não sabemos que queremos, mas que eles já têm a certeza!

O segundo tema tem a ver com a cerimónia da abertura do Mundial. Mais uma vez a bola, porque afinal de contas, não aconteceu mais nada esta semana, e o mundo esteve parado... Todos nos perguntámos onde iríamos ver a cerimónia de abertura do Mundial; bom, a RTP, pelo menos esta estação, facilitou-nos a escolha, e decidiu transmitir a cerimónia em pleno Jornal da Tarde. O quê?? Os jornais servem para transmitir noticias??? Em que país de África?!? Bem isto é aliás uma técnica mongol que os directores da RTPN usam com frequência no cabo,transmitindo a volta a França, Jogos Olímpicos... mas que em sinal aberto nunca tinha acontecido!O que se formos a ver é óptimo! Antes de ser noticia, nós já estamos a ver a noticia...Que tal? Jornalismo de Vanguarda...

Agora a sério, chega de ironias...Esta não é uma situação de agora; esta autêntica doença já tem pelo menos dez anos, quando Portugal venceu a Inglaterra por 3X2... As minhas memórias algo ténues e voláteis do EURO 96 não me permitem jurar a pés juntos, mas tenho quase a certeza que esta febre não começou nessa altura; nessa altura, ainda houve uma transmissão normal, enquadrada com o real valor do futebol no universo noticioso. Mas nos últimos dez anos tem sido de mais. É verdade que nunca fomos tão vitoriosos, e que os resultados nunca foram tão bons. Eu fico feliz, sinceramente que fico, como grande adepto da modalidade. Mas eu, na minha qualidade de auto-intitulado grande adepto, sei perfeitamente que canais procurar para saber mais sobre o "futebolês". Ligo os canais desportivos; leio os jornais desportivos; vou aos sites dos jornais desportivos. E conseguirei matar a minha sede por futebol nestas fontes. Não preciso de ser agredido a com diários do Mundial de dez em dez minutos!

Mas é ainda mais grave quando é o canal público de televisão que mais abusa deste tipo de práticas! Os outros são privados; é condenável na mesma, e não tem nada a ver com bom jornalismo, mas são privados, e por isso tem uma lógica diferente. Agora, o canal público, que absorve os nosso impostos, e literalmente absorve, usar descaradamente da fórmula romana do Pão e circo... Pior... ultimamente com a vinda do Papa a Portugal, de um autêntico e preocupante Fátima, Fado e Futebol... É assustador...

Eu gostava de saber o que se ensina nas escolas de jornalismo. Gostava mesmo. Na maior boa-fé, eu quero acreditar que nesses estabelecimentos se ensina as pessoas a serem bons profissionais. E talvez esteja errado, mas isso implica, talvez, um principio de razoabilidade e equilíbrio, em suma, critério!, na escolha dos temas e assuntos a tratar nos boletins noticiosos.

Quero acreditar que essa é até uma das qualidades essenciais para se chegar a editor de um jornal, à coordenação de um bloco noticioso. Acredito até, que pelas competências que tem para um cargo, deverão chegar, alguns, a acumular essa posição com a de professores nas escolas de jornalismo,com a responsabilidade de formar gerações de novos e bons profissionais. Olhando para o actual estado de coisas, nem com toda a minha boa-fé eu posso acreditar que estes senhores sejam minimamente qualificados para esse trabalho! Isso, ou então abriram vagas para director de informação da SPORTTV, e por azar nosso, telespectadores, os três editores dos três canais televisivos decidiram concorrer, estando já a mostrar serviço... Já agora, se me é permitido o comentário, o senhor da RTP está claramente na frente...

Algum bom senso... Futebol é relevante pelas paixões que desperta, sem dúvida. Mas o facto de o Mourinho ganhar uma Liga dos Campeões, uma liga inglesa ou italiana, de assinar pelo Real Madrid; o facto do Porto, do Benfica ou do Braga serem ou não campeões; o facto de o Ronaldo estar alegre ou triste; nenhuma das anteriores é noticia de abertura de um jornal. E estão, aliás, muito bem encaixadas naquele horário das 13 e 35 minutos, em que quem gosta do tema, pode então desfrutar de um assunto que lhe interessa, depois de terem sido transmitidas as noticias (realmente) mais importantes do dia... É uma utopia o que estou a pedir?

A Questão Turca – Em dia da (nossa) Raça


Na passada quinta-feira, o bispo católico Luigi Padovese foi selvaticamente assassinado (com mais de vinte facadas, oito delas perto do coração, seguido de uma decapitação – numa nota pessoal, permitam-me dizer que tal quadro pode ser grave).
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Segundo a edição on-line do El País, o crime foi cometido pelo seu motorista, que pertencerá ao grupo fundamentalista islâmico Estado profundo. Quanto a factos, importará apenas dizer que tal se passou na Turquia – aquele país que poderá vir a aderir, nos próximos anos, à União Europeia.
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E é isto que interessa ao post. É certo que ocorrem crimes em todos os países da União Europeia (aposto que o leitor ficou admirado com esta afirmação). Também é certo que existem muçulmanos nesses países (outra grande constatação). E também esses mesmos países estão sujeitos a atentados terroristas – lembremo-nos de Atocha ou de Londres.
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A grande diferença prende-se com o seguinte: nos países europeus não existem franjas da população que apoia esse tipo de atitudes nem as promove; na Turquia, os grupos ultranacionalistas defendem publicamente a eliminação de todos os cristãos do seu território (e têm seguidores e representação no Estado). Ora esta posição aliada à vertente universalista do Islão é apta a provocar neste vosso amigo uma opinião no mínimo cautelosa quanto à adesão da Turquia. Já aqui havia sido dito que existem diferenças civilizacionais entre a UE e a Turquia, bem como tinham sido demonstrados os riscos políticos e militares de termos as fronteiras estendidas até o Irão, o Iraque ou a Síria.
Mas a juntar a todas essas considerações há que pensar no ressurgimento do ultra nacionalismo islâmico como reacção à posição mais pro-ocidente do primeiro-ministro Erdogan. A questão não é tanto ser intolerante com os intolerantes – é sim, não querer partilhar um espaço de liberdade com pessoas que poderiam fazer perigar esse mesmo espaço de liberdade. Da mesma maneira que os criminosos mais perigosos devem ser cerceados da sociedade para não impossibilitarem a realização como pessoa dos outros cidadãos, também não deveriam ser admitidos – em condições de igualdade – um conjunto de pessoas que viriam a impossibilitar aquela realização.
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A livre-circulação de pessoas seria nociva para a Europa tradicionalmente cristã – se é verdade que o interculturalismo pode ser benéfico não é menos verdade que não deve ser imposto pelos Estados. Há que sentir o pulsar dos europeus (cada vez mais zangados com as cúpulas da Europa – principalmente depois do Tratado de Lisboa) e sentimos que aquele pulsar é maioritariamente contra a entrada da Turquia no seu espaço de liberdade, especialmente depois destes tristes incidentes – o que seria também um acto de traição ao Chipre.
Conclui-se assim, pedindo ao leitor que reflicta e tome posição quanto a este problema – pense nisto pela sua segurança. E aqui se dá o braço a torcer ao CDS-PP que cremos ter a posição mais ponderada neste dossier.
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Acabando num registo diferente, aproveito para desejar ao leitor um feliz dia da Raça, esse feriado inventado pelo nosso Reichspräsident Cavaco! Bom 10 de Junho. Heil!

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Súmula da Acção Política

Caro leitor,
Em primeiro lugar, por honestidade, devemos expressar a nossa declaração de interesses – esta quinta parte d’O Opinador encontra-se orgulhosa. Manifestamente orgulhosa. Queira o leitor saber o motivo do nosso orgulho – Olli Rehn, comissário europeu responsável pela Pasta da Economia e Finanças, afirmou, esta segunda-feira, relativamente às reformas estruturais de Portugal e Espanha que “é preciso fazer mais, e só posso encorajar os dois países a prosseguir as reformas estruturais, por exemplo dos mercados de trabalho e dos sistemas de pensões, com toda a determinação que é necessária nesta situação muito sensível”. Estimado Olli, é o que temos dito n’o Opinador e ficamos agrados por observar que Sua Excelência secunda a nossa opinião.
No entanto, o nosso Ministro das Finanças foi lesto em reagir às palavras do comissário europeu. Teixeira dos Santos fez questão de recordar as reformas empreendidas na administração pública e na segurança social. De facto, Sua Excelência, de facto. Mas queira V. Ex.ª notar que essas mesmas reformas foram empreendidas nos dois primeiros anos de Governo. O Estado, todavia, nos dois anos seguintes ficou entregue aos cuidados dos percevejos e das varejeiras. Todavia, reconhecemos o esforço de Sua Excelência e sublinhamos que os dois primeiros anos da primeira legislatura do Governo José Sócrates remaram na direcção correcta e promoveram um conjunto de reformas que beneficiaram a competitividade da economia, atacando interesses corporativos estabelecidos há muito no seio estadual e que nenhum Governo, até então, tivera a coragem de parar de amamentar. Mas Sua Excelência retirou o lácteo seio das corporações nos dois primeiros anos e nos dois anos seguintes, estendeu esse mesmo peito na direcção de outras corporações e, nesta altura, o lúbrico seio comporta 9,4% do PIB de défice. O Ministro dirá que, entretanto, uma crise internacional intercedeu pelo fornecimento do dito seio. Com certeza, Sua Excelência. Mas então, é chegada a altura de continuar o seu trabalho de reformar o Estado. Desde 27 de Setembro, altura em que o PS venceu as eleições legislativas, esporadicamente, temos vislumbrado o Governo a fazer, a reformar, a agir, Temos, sim, visto com maior regularidade o Governo a aparecer. Aparecer não é sinónimo de governar, suas excelências.
O Governo, com efeito, acordou apenas há 2 semanas – José Sócrates promoveu Portugal junto do Brasil e da Venezuela e Teixeira dos Santos nos EUA, na Bolsa de Valores de Nova Iorque. São estas acções que permitem o desenvolvimento competitivo do País. O Brasil é uma das nações emergentes e um actor cada vez mais relevante no comércio internacional. O Presidente brasileiro já afirmou que o crescimento do seu País pode ser um auxílio para Portugal e, nesse sentido, o aproximar e o intensificar das relações comerciais entre Portugal e o Brasil é, sem dúvida, uma boa notícia. Na Venezuela – aprecie-se ou não o regime – foram firmados acordos no valor de 1700 milhões de euros. Nos EUA, a economia portuguesa foi promovida na maior praça financeira do mundo, junto dos investidores americanos que são aqueles com maior poderio económico e com maior capacidade de investimento. Isto sim, Sr. Ministro, é governar.

A Oposição, entretanto, em particular o PSD, avançou recentemente um conjunto de ideias para avançar na Reforma do Estado. No que toca ao mercado de trabalho, destacamos as palavras de Passos Coelho:
- Pode um regime mais flexível aumentar a precariedade? Pode. E pode um regime mais flexível não ter um quadro de indemnizações fantásticas se as coisas não correrem bem? Pode. Mas quem procura um primeiro emprego pode ter emprego.
Ora, esta parte d’O Opinador já defendeu que uma nova revisão do Código Laboral pode ser benéfica para a economia portuguesa. Não pretendemos regressar a um sistema capitalista do séc. XIX em que o trabalhador enfrenta jornadas de 12 horas de trabalho. Contudo, a esquerda mais radical, e a própria ala esquerda do PS têm de optar por uma abordagem pragmática e aceitar as regras da economia e não ceder a tentações populistas e, sobretudo, sindicalistas. São as empresas as responsáveis pela criação de emprego e, por extensão, pela vivacidade da economia. Senão forem concedidas condições flexíveis – repetimos, flexíveis e não selváticas - para a política de recrutamento e despedimento de trabalhadores, o mercado português não é um mercado competitivo, uma vez que os custos do trabalho em Portugal são demasiado rígidos. O despedimento poderá ser facilitado, com certeza. Mas a reinserção no mercado de trabalho poderá ser muito mais rápida. E este facto num país em que 40% dos desempregados não têm expectativas de regressar ao mercado de trabalho não é despiciendo.

Passos Coelho defendeu, igualmente, que o valor das pensões deveria ser limitado por lei. A extrema-esquerda abre a boca em espanto, a baba escorre, lentamente, pelo beiço. Esta proposta é embaraçosa para a esquerda. Limitar por lei as pensões mais elevadas e acabar com uma das tetas da mamadeira estadual? Cofiando a barba do queixo com a mão, fazendo um largo gesto com a mão como se varresse a proposta do PSD, José Manuel Pureza, líder parlamentar do Bloco de Esquerda diz o seguinte:
- Essa é uma proposta mais para consumo imediato do que para ser levada a sério.
Em seguida, cospe para o chão, expressando o seu desdém pela proposta do PSD. Caríssima esquerda, é isto que suas excelências querem! Esta é a vossa ideologia! Fim dos capitalistas! Justiça Social! Ruptura com a política de direita! Ataque aos grandes grupos económicos e financeiros! Foice e Martelo! Comunismo! Avante, camarada, Avante! Junta a tua à nossa voz, que o sol brilhará para todos nós!...
A esquerda deseja o aumento das reformas, mas para os mais pobres e os mais desfavorecidos, para o proletariado, para os trabalhadores, não para esses capitalistas de cartola e monóculo – como o nosso Lord –, que recebem pensões astronómicas e, muitas vezes, pensões cumulativas – embora o nosso Lord não receba, nem cumule reformas, não deixa de ser um capitalista de monóculo e cartola. Que diabos esquerda? O embaraço pela concordância com uma proposta vinda da direita não é motivo para ser incoerente com os nossos princípios.