A mais bela, a mais pura e a mais duradoura glória literária de prosa da blogosfera

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quarta-feira, 29 de junho de 2011

A UE e a Grécia

A bancarrota amanhã ou a bancarrota no próximo ano: eis o que decidiram hoje os membros do Parlamento Grego. Os Gregos optaram pela bancarrota no próximo ano. Tal como se encontra, o acordo celebrado entre os responsáveis da UE e da Grécia resume-se a isto. Um ano depois, acumulando erro atrás de erro na gestão da crise da dívida pública, a União Europeia prossegue no mesmo caminho. À Grécia, podemos até desculpar: aos seus responsáveis políticos não lhes resta outra opção senão aceitar o cenário que lhe colocam porque desde há um ano atrás a Grécia tornou-se um protectorado dependente das decisões das instituições europeias. Portanto, os responsáveis gregos vão aceitando as decisões europeias passivamente, até que elas se decidam firmemente. Tem sido assim com o Sr. Papandreou, mas se o actual Governo grego cai, a conversa com o seu eventual sucessor, o Sr. Samaras, poderá ser mais dura.
O plano proposto pela UE, mais uma vez, permite adiar a bancarrota por mais algum tempo, mas não a elimina. Os alemães, os holandeses e os finlandeses, pressionados pelas oposições nacionais internas buscam o menor envolvimento possível nos programas de resgate. É um objectivo legítimo, não fosse a via escolhida para o fazer, aquela que poderá ser precisamente a mais custosa para os seus cofres. Aquilo que a Europa e que sobretudo os economistas alemães contestam é o que se vai verificando: em função do seu dogmatismo, dum nacionalismo cego, todos receiam que a União se constitua como um centro de transferências de rendimentos em que países do centro sustentam os países periféricos. E é isso que se vem sucedendo. A ideia de que Irlanda e Portugal dentro de dois anos estarão de volta aos mercados, financiando-se normalmente e a condições sustentáveis, é utópica. Tal como aconteceu com a Grécia, dentro de algum tempo discutiremos novos programas de ajuda para Portugal e a Irlanda, transferindo novamente rendimento para os países periféricos. A questão é – quando quer a Europa terminar de uma forma definitiva com o problema? Aliás: como quer a Europa convencer os mercados da sustentabilidade das dívidas dos países periféricos, quando ela mesmo concede empréstimos cujas taxas de juro reflectem um montante de risco elevado? A Europa não pode prosseguir num caminho revanchista em relação a estes países, querendo-os castigar pela sua falta de disciplina orçamental. A Grécia cometeu erros; e cometeu ainda erros no seu processo de consolidação orçamental. A Grécia continua ainda a ser um Estado paternalista e clientelar. É esse Estado que se precisa de combater e de se refundar: pretender fazer isso sem dispor da indispensável coesão social é impensável: as greves sucedem-se; o divórcio entre o povo e os seus representantes é evidente; as classes jovens alheiam-se da política. Pretender refundar um Estado sem obter o apoio, a força e a vitalidade dos seus membros é impossível.
É isso que tem faltado à Europa: visão. Numa União que se pretende de solidariedade, apenas tem havido lugar para os interesses nacionais. Dos Estados mais activos nos planos de resgate apenas se pretende uma coisa da ajuda aos países periféricos – vingança. Antes de desejar em primeiro lugar a sua recuperação, o seu crescimento e a sua moralização, desejam primeiro o castigo, a recessão e a austeridade.
Por alguns semanas deixaremos de ouvir falar na Grécia com tanto ruído; talvez as taxas de juro dos países periféricos desçam timidamente; mas em breve, de certeza, voltaremos a ouvir o rumor inquieto dos mercados e talvez mais uma resposta inconsequente da União Europeia como reacção a esse rumores.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Aos mais esquecidos

É com algum espanto que observamos os moldes em que o debate intelectual se realiza nos nossos dias. Tomemos como exemplo a seguinte situação: a sacudidela governativa das forças de esquerda que, na óptica da direita, é a grande responsável pela desorganização europeia e pela desarmonia que se verifica entre centro e periferia na Europa. A simplicidade com que esta ideia vem sendo plantada triunfalmente entre a imprensa é assustadora e, no entanto, nada de mais falso. O leitor recorda-se da forma como começou esta crise? Pois bem, caro leitor: a crise que eclodiu em 2008 não começou como uma crise de dívida pública soberana; evoluiu, certamente, para o estádio que actualmente se lhe conhece. Mas os verdadeiros contornos foram bem diferentes: nessa altura, os fervorosos conservadores liberais que hoje tanto apregoam contra o Estado Social andavam com a viola metida no saco, confessando até alguma simpatia com a intervenção estadual que, recorde-se, salvou o sistema bancário da falência e que a economia mundial mergulhasse numa crise semelhante à vivida em 1929. E o leitor recorda-se da causa que desencadeou uma eminente falência do sistema bancário mundial? A desregulação, caro leitor! Alan Greenspan! Este nome ao leitor não deve agora ser familiar. Pois bem: em 2008, este senhor, ilustre representante da escola conservadora liberal dos Estados Unidos, era religiosamente venerado. O Sr. Greenspan, antigo Presidente da Reserva Federal dos EUA, fruto da filosofia em que acreditava, de que cada agente actuando por si mesmo, conduziria igualmente a um acautelamento dos interesses públicos e colectivos, caiu em desgraça em 2008. Os liberais conservadores ficaram órfãos. Mas eis que numa reviravolta surpreendente, três anos volvidos, eles estão mais fortes que nunca – orgulhosos, altivos, briosos.
Com efeito, depois da intervenção concertada dos Estados haver salvo o sistema bancário da falência, de os haver recapitalizado com dinheiro dos contribuintes, de haver evitado uma crise com os moldes da crise de 1929, mas não haver evitado a maior crise económica desde então, os conservadores liberais vêm acusar esse mesmo processo de haver salvo o Mundo da filosofia que eles mesmos advocam! De uma crise do sistema bancário passamos então para uma crise de dívida pública soberana.
Mas esta surge como consequência daquela. Naturalmente que os Estados estruturalmente sobreendividados como o português, foram a essa crise mais expostas, ou seja: outras causas agravaram-na. Mas foi uma filosofia liberal, crente na desregulação dos mercados, fiel a uma concepção extremista do interesse individual e egoística que nos conduziu à actual conjuntura. A crise de dívida pública apenas apareceu posteriormente e em resultado daquela e da sua filosofia. Não deixa, por isso, de parecer algo estranho, diria mesmo cínico, o modo feliz como alguns liberais olham o seu umbigo, vendo o declínio das forças de esquerda no Governo.
Isso não significará, certamente, que a esquerda se possa imobilizar no tempo. As profundas transformações que se vão verificando nos nossos tempos obrigam a uma constante adaptação de posições de modo a se harmonizar também com a realidade das eras – mas isso sem nunca esquecer os valores fundamentais do legado que nos é transmitido. E este sim, parece-me o principal defeito que pode ser apontado às forças de esquerda: é realisticamente e economicamente impossível permanecer agarrado a certos preconceitos ideológicos contra o mercado. Sem recair na deriva neoliberal, as forças de esquerda têm de encontrar o meio caminho entre a liberdade individual e as necessidades colectivas públicas e refundarem a sua ideologia.

domingo, 26 de junho de 2011

Copiar

Veio a público a notícia de que alegadamente terão sido apanhados a copiar no teste de Investigação Criminal e Gestão de Inquérito os auditores de Justiça (futuros procuradores do Ministério Público e magistrados judiciais) que se encontram neste momento a frequentar o curso de formação do Centro de Estudos Judiciários.

Quem trouxe este assunto a público, ainda não se sabe. Mas sabe-se que a história do copianço extrapolou os seus contornos e está a ser aproveitada da pior forma possível para, mais uma vez, tentar fazer desacreditar a justiça e os agentes judiciários.

Ao longo do período de formação dos auditores de justiça (9 meses) no CEJ, muitos são os exames que terão de ser feitos para que eles consigam concluir a sua formação. Este foi mais um dos testes, desta vez do tipo americano ou com cruzes, se preferirem. Aquando da sua correcção, os examinadores verificaram que existiam perguntas em que quase todos erraram, tendo escolhido a mesma opção incorrecta. Face à incredulidade de se poder estar perante uma pura coincidência, e tudo apontando para um mais que provável copianço, o Conselho Pedagógico do CEJ, decidiu atribuir a todos os 137 examinandos uma mesma classificação de 10 valores.

Foi nesta altura que a notícia veio a público e, após tantos Opinadores emitirem as suas declarações a propósito e a despropósito sobre o assunto, o Conselho Pedagógico decidiu fazer repetir o referido teste, deliberando ainda anular a classificação anterior de 10 valores, não sem antes esclarecer que seria abandonado como método de avaliação o teste tipo americano.

A Directora do CEJ acabou mesmo, perante tamanha exposição mediática da instituição a que presidia, por pedir a sua demissão do CEJ, tendo sido tal pedido aceite pela actual Ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz.

Não deixo, a ser mesmo verdade, de condenar tal atitude de futuros titulares de um dos mais importantes órgãos de soberania do nosso país, sendo tal comportamento (a ser realmente verdade, ressalvo sempre!) lamentável e totalmente desprestigiante, não só para a classe dos magistrados em si, mas também para toda a Justiça portuguesa. Todavia, não consigo deixar de colocar algumas questões muito indiciadoras de toda esta situação:

1)Se nos exames nacionais, em questões do tipo americano, existe mais do que uma versão do mesmo exame, com as mesmíssimas questões, embora ordenadas de modo diferente, porque é que não se fez o mesmo neste teste do CEJ?

2)Se em todos os exames existem vigilantes para efeitos de controlo da realização do exame, onde é que eles se encontravam neste teste?

3)Como é que se pode afirmar de modo tão seguro que TODOS os 137 auditores de justiça que realizaram tal prova copiaram quando, por fonte segura, sei que existiram respostas iguais em provas de alunos que se encontravam numa das salas do 1.º andar e em provas de alunos que estavam numa sala dois andares acima? Terá sido copianço por telepatia?

4)Acima de tudo, será que era realmente necessária tanta especulação e alarido em redor do assunto, mormente numa altura em que o país precisa de estabilidade e de reforço da confiança nos seus órgãos de soberania? Uma coisa é noticiar, outra é aproveitar a deixa para azucrinar e espezinhar a Justiça portuguesa!


Caríssimos, não sejam assim tão ingénuos! Mesmo que estes magistrados, no pior dos cenários, tenham copiado, tal não significa que TODOS os magistrados actualmente em funções nos nossos tribunais o tenham feito. Como é possível tomar o todo pela parte?

A vida está má, está! Até para os marqueses!

sábado, 25 de junho de 2011

Então e a dívida, caramba?

Após o Conselho Europeu desta semana no qual participava pela primeira vez na qualidade de Primeiro-ministro o Sr. Passos Coelho, a imprensa portuguesa logo anunciava com estrondo – o Conselho Europeu foi um sucesso para Portugal! E entretanto os juros da dívida pública portuguesa batiam recordes – andam agora nos 16%! É caso para perguntar para perguntar: - Mas anda tudo maluco? Ou tornamo-nos assim tão medíocres que nos contentámos com nada?
No Conselho Europeu foi, de facto, reafirmado o compromisso perante a Grécia de ajuda externa com uma condição: a aprovação no Parlamento grego de um amplo programa de privatizações e um conjunto de severas medidas de restrição e controlo orçamental. Ora, na Grécia o Governo do Sr. Papandreou sobreviveu com dificuldade a uma moção de confiança no Parlamento, apenas graças aos votos favoráveis dos seus correligionários do PASOK, tendo a oposição em uníssono votado contra, além de ter recusado integrar um Governo de salvação nacional; cá fora, na Praça Syntagma, o povo rebelava-se; as greves gerais sucedem-se; a coesão nacional é inexistente; a dívida agrava-se; a recessão acentua-se…E o que faz a Europa? Insiste na mesma resolução apresentada há um ano atrás e que apenas agravou a crise grega, fazendo-a depender de um consenso num Parlamento cada vez mais fraccionado. E no entanto – esta cimeira foi um sucesso para Portugal. Se o problema grego se mantém inalterável na sua base e na sua conjuntura, se o perigo de contágio não é eliminado, se a crise europeia se protela indefinidamente, se os mercados continuam a roer freneticamente as unhas – como é que este Conselho Europeu pode ser considerado como um sucesso para Portugal?
Muito bem: reafirmamos pela voz do nosso Primeiro-ministro o nosso forte compromisso com o memorando celebrado com a troika. E daí? Agora para além de falidos, somos também falsos perante os nossos compromissos? Não é a nossa palavra e a nossa honra suficiente como penhor do nosso compromisso? Necessitamos de reafirmá-lo todas as semanas para que verdadeiramente acreditem em nós? Ou terá sido antes o anúncio de que o Governo pretende alargar e ir mais além das medidas constantes do Memorando que levou a imprensa a classificar de sucesso para Portugal este Conselho Europeu? Também aqui nada de novo – o Sr. Passos Coelho já o havia afirmado durante a campanha eleitoral. E pior – as suas declarações não acalmaram os mercados porque os juros da dívida continuam regularmente a subir, como dissemos. Mas mais – sabemos que a consolidação orçamental de 2011 até agora está ser escrupulosamente cumprida; ou seja, o nível do défice com o qual nos comprometemos irá, em princípio, ser cumprido. O que nos leva a outra questão – e a divida, que diabo?! Que pretende o Governo fazer em relação à dívida? Então anda toda a Europa ralada com a sustentabilidade da dívida grega, com a sua reestruturação, com os rumores de contágio a Irlanda, Portugal e Espanha, e agora que o nosso défice está a ser reduzido, ninguém se preocupa com a sustentabilidade da nossa dívida que anda pela casa dos 100% do PIB? Para provarmos da sustentabilidade da nossa dívida é preciso pôr o País a crescer numa base regular e sólida; certamente, isso exigirá tempo. O que decerto não impedirá que o Governo raciocine sobre o assunto. Raciocinar sobre este problema não é anunciar meia dúzia de privatizações que permitam a estagnação da dívida – é preciso um crescimento sustentado para que a dívida se torne também ela sustentável. E para o fazermos precisamos também de uma Europa unida e sobretudo solidária: em nenhuma destas vias seguiu Portugal no Conselho Europeu. Senão existem ainda medidas destinadas a promover o crescimento económico e se a situação europeia não é ainda de harmonia e de solidariedade e de união – como é possível, pois, falar em sucesso?

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Exames

Pois cá estamos nós para mais uma rubrica dos já famosos Humores de Sexta, aqui no nosso Opinador. O tempo lá fora já começa a aquecer, mas os exames não deixam as consciências estenderem uma toalha na praia, de forma animosa e descansada. Eles são os exames nacionais para os mais novos. Eles são os exames de aferição da Ordem dos Advogados (seis em três dias, num autêntico acto de martírio para todos os que os têm de realizar! A Marquesa está solidária convosco.). Eles são os exames de Mestrado. Eles são os exames do CEJ, que vieram para a ribalta nos últimos dias, embora por motivos muito pouco explícitos (a clarificar, no nosso post de domingo).

Ora, como muito se fala em exames, aqui estamos nós a corroborar, mas desta vez com o nosso habitual tom humorístico. Resta-nos desejar boa sorte a todos os que estão mergulhados nesta azáfama examinadora, desejando-vos muito boa sorte.


Por Carlos Jorge Mendes

Da nossa parte, só esperamos que o exame nacional de Matemática a realizar na segunda-feira, não coloque questões tão complexas e de tão elevado grau de dificuldade como a que se segue.





Por Leticia, a Marquesa

O texto infra foi retirado de uma prova de aferição de Língua Portuguesa do 9.º ano (do 9.º ano, relevo, Caríssimos!). E agora fiquei na dúvida... Será motivo de riso ou de choro? Como diria a minha vizinha: " Anda uma mãe a criar filhos para isto!..." (para os mais incrédulos, até poderei revelar em que Escola portuguesa tal texto foi redigido... Mas afinal, o que vem a ser isto?)


REDAXÃO

"O PIPOL E A ESCOLA"

Eu axo q os alunos n devem d xumbar qd n vam á escola. Pq o aluno tb tem Direitos e se n vai á escola latrá os seus motivos pq isto tb é perciso ver q á razões qd um aluno não vai á escola. Primeiros a peçoa n se sente motivada pq axa q a escola e a iducação estam uma beca sobre alurizadas.

Valáver, o q é q intereça a um bacano se o quelima de trásosmontes é munto Montanhoso? Ou se a ecuação é exdruxula ou alcalina? Ou cuantas estrofes tem um cuadrado? Ou se um angulo é paleolitico ou espongiforme? Hã?

E ópois os setores ainda xutam preguntas parvas tipo cuantos cantos tem 'os Lesiades''s, q é u m livro xato e q n foi escrevido c/ palavras normais mas q no aspequeto é como outro qq e só pode ter 4 cantos comós outros, daaaah.

Ás veses o pipol ainda tenta tar cos abanos em on, mas os bitaites dos profes até dam gomitos e a Malta re-sentesse, outro dia um arrotou q os jovens n tem abitos de leitura e q a Malta n sabemos ler nem escrever e a sorte do gimbras foi q ele h-xoce bué da rapido e só o 'garra de lin-chao' é q conceguiu assertar lhe com um sapato. Atão agora aviamos de ler tudo qt é livro desde o Camóes até á idade média e por aí fora, qués ver???

O pipol tem é q aprender cenas q intressam como na minha escola q á um curço de otelaria e a Malta aprendemos a faser lã pereias e ovos mois e piças de xicolate q são assim tipo as pecialidades da rejião e ópois pudemos ganhar um gravetame do camandro. Ah poizé. Tarei a inzajerar?


Bom fim-de-semana.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Da Democracia

As democracias são construídas para responder às ambições do povo, para que a sua vontade seja respeitada através dos seus representantes eleitos, forma pela qual se harmonizam o interesse individual e o interesse colectivo. Algures pelo caminho, o ideal perdeu-se: hoje, temos uma democracia que é uma mera sombra desse ideal. Há dias, o Sr. Paul Krugman, anunciava: os representantes do povo não governam para o povo, para o interesse colectivo: governam para os rentiers, para o interesse de uns quantos. Os representantes corromperam-se; e se os representantes do povo respondem, não perante o povo, mas perante grupos de interesse, podemos ter, com efeito, uma democracia – mas apenas na forma, não na substância. A actual democracia material carece de ideias e de dignidade; sem isso, não se distingue de um regime arbitrário, dominado pelos fortes, oprimindo os fracos. Às câmaras electivas falta-lhes tanto o génio, como a justiça; falta-lhes a influência fecunda pela qual possam conduzir o povo pela força e pela autoridade do seu exemplo; falta-lhes ser a instituição altiva na qual o povo se possa moralizar.
Em Portugal, os partidos sucedem-se revezadamente no poder; as ideias, no entanto, mantém-se as mesmas de há três décadas atrás. Os portugueses bocejam de tédio; não vêem na Política motivo de interesse; alheiam-se. Olham para o lado e vêem as outras nações europeias avançando, prosperando; e Portugal sempre o mesmo desde há uma década – continuamente estagnado. A vontade e a força popular afrouxa-se, torna-se passiva; a sociedade esteriliza-se, as forças vivas adormecem – não há dinâmica, tudo é inércia. Não existe iniciativa privada que puxe pelo País; todos esperam pelo Estado.
Não creio que estejamos numa daquelas eras que prenunciem tremendas movimentações na evolução das sociedades, mas a verdade é que os políticos se têm revelado incapazes de responder às ambições e às aspirações do povo. E quando os representantes do povo não se revelam à altura da missão que o povo lhes delega, o povo torna-se insatisfeito. Essa insatisfação pode demorar anos a amadurecer – foi o que aconteceu no Médio Oriente. Foi necessário esperar a conjugação necessária de factores que permitisse desencadear a revolução e o elemento fundamental que permitiu essa eclosão de liberdade foi o aparecimento de uma juventude educada, culta, enérgica e livre. Nenhum déspota a conseguiu parar; pode atrasá-la, mas não abafá-la. Nas democracias ocidentais a conjuntura é claramente diferente, mas os mesmos ventos de desarmonia entre o povo e os seus representantes. Mais uma vez, também aqui essa insatisfação poderá levar o seu tempo a sedimentar. Mas conjugados os factores, na altura certa ela eclodirá. E os actores políticos têm desprezado os ventos de mudança, têm negligenciado os protestos do povo. Certamente que esses protestos resultam da degradação das economias nacionais e da incapacidade dos políticos inverterem esse ciclo de uma forma definitiva e cabal. Decerto esses protestos resultam da fragilização da qualidade de vida dos cidadãos, da austeridade da tributação, do elevado desemprego, da ausência de uma perspectiva de futuro. Tudo isso é verdade – mas nada disso impede que se reconheça a existência de um problema de fundo – a qualidade da democracia. Mais uma vez – certamente que a qualidade não resulta apenas da valia dos representantes do povo; o próprio povo, os próprios cidadãos, pela sua intervenção, pela sua dinâmica, pelo seu inconformismo, pelo seu trabalho, pela sua cultura, pelo seu estudo, pelo seu interesse pela dignidade da causa pública são também responsáveis. Mas os actores políticos são sempre, em última instância, os executores das decisões e é sobre eles quem recai a última e a decisiva das responsabilidades.
O perigo para a verdadeira democracia material não virá, decerto, deste tipo de movimentos – eles são antes benéficos para a democracia (acontecimentos, no entanto, como os que sucederam no Parlamento da Catalunha são verdadeiramente condenáveis); os riscos virão antes de uns quantos demagogos populistas que, com o discurso político certo, poderão aproveitar-se do descontentamento popular, fortalecer os seus movimentos e implementá-los e enraizá-los solidamente junto das sociedades. Aos poucos, as suas ideias vão prosperando. Na Europa, é a emergência da extrema-direita. Foi o que sucedeu, por exemplo, nas recentes eleições legislativas finlandeses com o resultado alcançado pelo partido dos “Verdadeiros Finlandeses”. O mesmo sucede na Holanda; na França onde o Partido da Sra. Le Pen vai ganhando um apoio crescente; na Suécia onde, recentemente, se elegeram deputados para o Parlamento. Por todo o lado, lentamente, mas progressivamente, os movimentos de extrema-direita vão prosperando. Também nos Estados Unidos – é o Tea Party com o seu discurso radicalista.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Um Governo em 4-4-3



Eleições feitas, Sócrates de saída, credores à entrada e temos novo Governo, desta vez, de coligação. O CDS-PP consegue três ministérios (sem surpresa), com Portas nos Negócios Estrangeiros (toda a gente o estava lá a ver). Dr. Portas, permita-nos um conselho: dedique-se, dia e noite, à luta pelas eurobonds pois só elas nos podem salvar.


Mas é nos 8 ministérios da esfera do PSD que maiores surpresas tivemos: para aqueles 8 ministérios, Passos escolheu para metade, independentes.
Comecemos pelo que mais interessa: Finanças – segundo avançado pelo Expresso, a primeira pessoa que Passos convidou foi Eduardo Catroga, talvez para a Economia, (que já tinha dado a cara nas negociações com a troika e que foi, em grande parte, responsável pelo programa de Governo que o PSD apresentou a sufrágio). Também foi convidado Vítor Bento, presidente da SIBS (para quem não sabe, é a empresa do multibanco que terá recusado por questões financeiras. O que até é lógico… Quem quer ir para ministro, ganhar chatices e perder dinheiro? E foi assim que se chegou a Vítor Gaspar. Quem é este Vítor Gaspar? Não o conhecemos n’ Opinador, mas concedemos-lhe o benefício da dúvida. Ao que parece é muito bem visto na sua área, muito competente, curriculum excelente…


Depois, nova recusa para Passos, desta vez na Educação – o primeiro nome pensado teria sido o de Paulo Rangel mas este recusou (talvez quisesse a Justiça). Veio a cair a escolha em Nuno Crato, insigne professor universitário, cujo nome deve fazer tremer os pelos do bigode de Mário Nogueira.


Uma nota positiva para a Economia: nos últimos anos este ministério esteve um pouco oco de substância pelo que a reunião das Obras Públicas, Telecomunicações e Privatizações parece ser uma aposta correcta. Álvaro Santos Pereira sofre do mesmo de Vítor Gaspar: é ao que parece um excelente académico, sem nome na praça. Para ele vai também o nosso benefício da dúvida.


Na saúde temos um excelente quadro – Paulo Macedo, muito conhecido pelo seu trabalho na DGCI. Numa altura em que será preciso contar os tostões, é um nome acertado, atendendo a que conhece bem o sector, pois já foi administrador da Medis. E assim se fecha o círculo independente.


Quanto aos militantes, Aguiar Branco na defesa (ainda nos lembramos da má reforma da acção executiva que patrocinou, por isso tem que mostrar bom serviço nesta pasta), Paula Teixeira da Cruz na Justiça (algumas reservas quanto à sua capacidade de independência, especialmente da Ordem dos Advogados), Administração Interna e Assuntos Parlamentares sem grande surpresa.


É um governo jovem o que revela capacidade de renovação geracional. Mas também é um governo inexperiente (ok, está lá o Portas) para uma altura crítica como esta. Muitos dos que lá estão, têm mérito académico e isso é bom (pena é que o mesmo não se passe, por exemplo na Justiça)… Vamos a ver é se dão bons ministros.
Só uma curiosidade: no meio de tanto convite, ao que parece houve um desconvite: Jorge Moreira da Silva estaria apontado para a Agricultura, mas Passos teve que ceder a pasta ao CDS-PP, talvez em tornas da Economia.
Um Governo pequeno (a nosso gosto), liberal (muito a nosso gosto) e jovem. Vamos a ver o que isto dá… Mas muita gente houve que ficou em logo êxtase com os nomes deste executivo, até o Medina Carreira. Ficaram, mais ou menos, desta maneira: