A mais bela, a mais pura e a mais duradoura glória literária de prosa da blogosfera

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sábado, 26 de março de 2011

O PSD e o aumento do IVA

Apenas um dia depois de ter provocado uma crise política em Portugal, apenas um dia depois do PSD ter condenado irreversivelmente o seu País a um pedido de ajuda externa, apenas um dia depois do PSD ter colocado o seu próprio interesse à frente do interesse nacional, eis que o PSD começa a revelar o seu verdadeiro rosto. Provocou o PSD uma crise política, rejeitando o «PEC 2012» cuja medida emblemática seria um corte progressivo das reformas superiores a €1500.
Pois bem: precipitada a crise política, iniciando-se o calendário eleitoral, que medidas apresenta o PSD? Que medidas apresenta aquele partido que, estando na oposição, sempre disse que a consolidação orçamental se deve fazer pelo lado da despesa? Que medidas apresenta aquele partido que criticou o Governo pela distribuição injusta dos sacrifícios pelo País? Que medidas apresenta aquele partido que prometia revolucionar a política portuguesa? Que reformas apresenta esse partido?

O PSD propõe-se nada mais, nada menos, do que a aumentar o IVA para 24 ou 25%. Aqui proponho ao leitor uma pequena viagem no tempo: negociações para o Orçamento de Estado para 2011 entre PS e PSD. O Governo propõe o aumento do IVA para 23%. O PSD indigna-se: não admite aumento de impostos. Façamos outra viagem no tempo, caro leitor: livro «Mudar», do Sr. Pedro Passos Coelho. Neste livro, o Sr. Passos Coelho afirma-se contrário à subida do IVA porque é um imposto socialmente injusto: porque trata pessoas com maiores rendimentos da mesma forma que trata aqueles com menores rendimentos. Caro leitor, que diz isto da liderança do PSD? Diz muito, caro leitor, diz muito: revelam.
Revelam que um partido de responsabilidade governativa cuja marca de liderança é a defesa da redução da despesa do Estado inicia a consolidação das finanças públicas pela receita; revela que esse partido que provocou uma crise política, rejeitando uma medida socialmente justa, aplica antes um aumento de impostos, precisamente sobre o imposto mais regressivo de todos e, portanto, socialmente injusto; revela que um partido que prometia revolucionar a vida política portuguesa, que pretende romper com a direita que o precedeu, em nada se distingue dela; revela que um partido que durante um ano e meio se escudou no seu papel de partido da oposição para não apresentar qualquer proposta, qualquer reforma, não tem, na verdade, nada a propor, nada a reformar. A sua grande proposta, o seu grande projecto resume-se a um projecto de revisão constitucional que pretende alterar a gratuitidade tendencial do ensino e da saúde. E que diz novamente este singelo projecto de revisão constitucional? Volta a revelar, caro leitor. Revela as linhas programáticas de um governo PSD: a juntar àquelas que referimos, temos agora um governo que pretende não reformar o Estado Social e assegurar a sua sustentabilidade, mas acabar definitivamente com ele. Repare o leitor: falamos em reformar o Estado Social porque não negamos que o Estado Social nas suas actuais feições necessita de ser reformado. Coisa diferente quer o PSD que pretende acabá-lo. E fá-lo acabando com a gratuitidade do ensino superior. O mesmo foi feito recentemente no Reino Unido com as consequências que sabemos. E fá-lo ainda acabando com a gratuitidade tendencial da saúde: fá-lo acabando com o SNS que é uma das instituições portuguesas mais respeitadas e mais elogiadas internacionalmente.

Mas não é só o PSD. Sabemos bem qual tem sido a posição do CDS nestas questões, sempre se demitindo de participar nas decisões do País. Ainda recentemente, quando foi anunciada a intenção do PSD aumentar o IVA, o CDS demarcou-se desta posição. Mas sabemos que o CDS é o aliado natural do PSD para o poder. Manterá a sua posição em caso de aliança governativa?

Mas mais, caro leitor. Quer o leitor notar até que ponto está o PSD comprometido em reformar o Estado? Em acabar com a mamadeira? O PSD (e o CDS) uniu-se à esquerda radical para revogar a avaliação dos professores. O PSD uniu-se à esquerda radical para revogar uma medida que incentivava o mérito, que recompensava o trabalho, que premiava o esforço. Ao revogar a avaliação dos professores que pretende o PSD? Tudo o contrário do mérito, do trabalho, do esforço? Quer o PSD, porventura, caçar o voto dos professores? Quer o PSD resvalar para o populismo agora que se inicia o calendário eleitoral?
Por aqui se vê que o PSD não está comprometido com as reformas que são necessárias ao Estado português. Caso contrário não teria revogado o processo de avaliação dos professores, mas antes contribuído para a reforma do actualmente em vigor. Não teria tornado inútil a avaliação de todos aqueles professores que se esforçam, que se dedicam arduamente à sua profissão e que em função disso merecem destacar-se dos restantes. O PSD optou simplesmente pela revogação da avaliação.
Caro leitor, é este o PSD que se propõe ao voto dos portugueses: diferente na forma, mas igual na substância a todos os outros.

1 comentário:

Lord Nelson disse...

Caro doutor,

Não tenho por costume comentar os posts dos meus colegas, mas este teve que ser... Desculpe lá. Ora vamos por partes:

Diz V.Exa.:

1

"apenas um dia depois do PSD ter condenado irreversivelmente o seu País a um pedido de ajuda externa". Então, o PS esteve 6 anos no governo (4 deles com maioria absoluta), sendo que muitos dos acutais ministros (começando pelo PM) têm já décadas de governo e é o PSD que provoca isto? A culpa é exclusiva deste PSD? Ora convenhamos...

2

Demagogicamente (?) afirma V.Exa.: "O PSD propõe-se nada mais, nada menos, do que a aumentar o IVA para 24 ou 25%.". Dando lugar ao contraditório, e clicando no link cordialmente disponibilizado por V.Exa., damos lugar ao contraditório: "Está “tudo em aberto. A grande diferença é que o PSD está a construir um projecto alternativo e está a construir um projecto eleitoral que marque a diferença", o que convenhamos é um pouco diferente da sua insinuação como sendo aquela medida um dado adquirido...
Talvez V.Exa. esteja mal habituado... O actual PM fez exactamente o contrário: foi a eleições prometendo uma baixa de impostos, chegou lá e subiu-os. Isto é, mentiu! Agora temos um candidato que diz que, por não conhecer as contas, não pode fazer promessas que possa não vir a cumprir. E V.Exa. crucifica-o...
v. Exa que tanto gosta de viagens no tempo, bem que as podia fazer para revisitar o passado do actual executivo... Na sua agenda haverá apenas lugar para vilipendiar a direita? E uma mea culpa para a esquerda?

3

Foi o PSD que provocou uma crise política? O partido que por várias vezes deu a mão ao governo? E o CDS? E o BE? E o PCP? e o PEV? Nem uma palavra? E este governo não caiu com uma moção de censura apresentada há tempos, lembra-se? Por causa de quem?

4

As propostas que o PSD apresenta (e repito-o, apresenta honestamente antes das eleições ao contrário do que nos habituou esta corja que nos governa) serão sufragadas pelo povo... Escusa V.Exa. de o propagar aos ventos, porque o pendor liberal do PSD é conhecido.

5

Avaliação dos professores é igual a meritocracia? Não será o caminho para isso permitir a competitividade de mercado nas escolas? Ai era a procura a avaliar os professores e não os próprios a se avaliarem...

6

E depois conclui V.Exa., depois de alertar para os riscos liberais do partido, que é igual ao PS. Se é igual, então porquê o alarme? V. Exa. está, data venia, a ser demagógico.


Reiterando as desculpas por vir para aqui incomodar,

Sou de V. Exa., muito atentamente,

Lord Nelson