A mais bela, a mais pura e a mais duradoura glória literária de prosa da blogosfera

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terça-feira, 22 de junho de 2010

O Fim de uma Esquerda



Por estes dias que já passaram assistimos à morte do segundo laureado Nobel português. Antes de mais, aproveito este post para demonstrar o meu pesar pela morte de um cidadão que contribuía para o debate intelectual do país. Apesar de as suas ideias estarem muito longe das deste vosso opinante, há que respeitar o homem, em toda a sua dignidade antropológica. E, uma qualidade lhe reconhecemos – a coerência e a persistência na luta pelo seu ideal.
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Mas, morrendo Saramago, morreu também uma certa esquerda: aquela austera e ortodoxa, da velha linha soviética, anti-democrática, anti-capitalista, anti-parlamentar e anti-europeia. Morreu aquela esquerda que, anti-americana na sua génese, sempre criticava os Estados Unidos, mas sempre desculpava Cuba ou a Coreia do Norte, mesmo que isso conspurcasse os seus predicados puritanos. Morreu aquela esquerda da cassete, do Avante!, da luta contra o fascismo, o capital e o patronato, todos no mesmo saco. Falamos, obviamente em sentido metafórico.
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Mas a verdade é que aquela esquerda, que agora conheceu a sua morte simbólica, já há muito tinha perdido a sua razão de ser – a esquerda de que falamos conheceu a sua juventude no PREC e cresceu ao combater uma determinada direita, conservadora, até retrógrada, religiosíssima e ultra-nacionalista que tinha governado o país por cerca de 40 anos. Aquela esquerda não se soube adaptar aos novos tempos, não percebeu que se desenvolvia em Portugal uma classe média instruída e empreendedora e que se emprega a si própria, estando o seu interesse a anos-luz da luta de classes.
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A fórmula que lhe permitiu chegar ao poder (pelo menos andou lá perto com o General Vasco Gonçalves), matou-a, pois quando alheada daquele poder, sob pena de se disvirtualizar, não lhe permitiu reinventar-se. Quem se define por se contra algo, necessita daquele algo para se definir. Sem aquela direita, não podia existir esta esquerda
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Assim, chegados a 2010 morre aquela linha por não ter relação com a realidade: não se apercebeu que a direita de hoje não é a direita de há 30 anos atrás: é uma direita instruída, liberal nos costumes e que acredita no capital e no mercado; que defende o empreendedorismo e não o patrão. É uma direita laica, que acredita na mobilidade social pelo mérito e crê que apenas a criação de riqueza possibilita o progresso geral e que a melhor forma de gerar riqueza é sem o Estado na equação.
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A direita de há 30 anos atrás já não existe – e porque não existe, retirou o sentido de ser da esquerda que Saramago representava.
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Numa nota final, menos política, refira-se o seguinte: é claro que qualquer particular pode homenagear quem quiser da forma que quiser sem ter que prestar contas. Mas que o Estado homenageie alguém já é diferente – porque Estado somos todos nós. Posto isto, não posso concordar que o Estado Português se tenha ligado de forma tão próxima às exéquias fúnebres de alguém que advogava o seu desaparecimento. Saramago era um iberista, que chegou a defender a anexação de Portugal a Espanha – letras e artes à parte, não quero acusar o defunto de traição à pátria; mas não lhe reconheço nenhum patriotismo, nos actos nem nas palavras, que justificasse a homenagem do Estado.
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Ah e tal, a selecção de futebol ganhou 7 a 0 à Coreia do Norte quase garantindo a sua qualificação – parabéns. Vêem como não sabemos só dizer mal?

2 comentários:

Madalena Santos disse...

Hás-de me dizer como arranjas sempre imagens tão sugestivas.

De resto, Ámen!

ummaisumigualaum disse...

só uma pequena referência, ilustre.
Por vezes, conhecer os líderes ou as pessoas em si, contribui para personificar ou fulanizar demasiado a política. Mas também para lhe compreender nuances.
Falando dessa esquerda anti EUA, aproveito para referir o conhecimento através da boca da filha de Álvaro Cunhal, da existência, sempre de duas ou três garrafas de coca-cola no frigorífico pros netos, da ida ao cinema, as pipocas e ao macdonalds que lhes proporcionava, do gosto pelos simpsons e cinema americano. talvez perante isto se grite: ahah, incoerente afinal!
mas, au contraire. é so separar trigo do joio.