A mais bela, a mais pura e a mais duradoura glória literária de prosa da blogosfera

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segunda-feira, 3 de maio de 2010

(Des)Conversas de Escritores

José Rodrigues dos Santos acaba de lançar um novo livro – Conversas de Escritores, resultante do seu programa na RTP-N, com o mesmo nome. Entrevistado pela Revista Única do Jornal “Expresso”, a propósito do lançamento do seu livro, Rodrigues Santos quando questionado sobre o seu conceito de literatura diz o seguinte:
- Quem define o que é literatura é o leitor. Literatura remete-nos para a ideia de qualidade – e um autor não pode ser juiz da sua obra.
Ora nada de mais estranho nos parece esta frase vinda de um escritor. Quando interrogado acera do seu conceito de literatura, ele remete a sua opinião para o leitor. Mas sua excelência não tem opinião própria na questão? Sua excelência como escritor não tem opinião formada sobre aquilo que faz? Mas sua excelência quando se senta para escrever as suas obras, se estiver noite de Lua Cheia escreve de uma forma e se estiver noite de Quarto Minguante escreve doutra? Mas sua excelência analisa, detalhadamente, um segmento de mercado, tal qual um economista de uma empresa faz, estuda os hábitos de compra dos consumidores e só depois, e de acordo com esses desejos, satisfaz essas vaidades, fabricando o produto de acordo com a vontade do mercado para que ele seja vendável, independentemente da sua qualidade? Que noção tem v. Ex.ª da Literatura se ela é precisamente o inverso de tudo isso? O espírito do escritor, como forma de reconhecer a bela e a sublime escrita deve-se alhear das vaidades mundanas pois só através do labor contínuo do estudo poderá conhecer a harmonia da prosa ou da poesia, e não pela busca de um respeito e de uma fama convencional. O escritor eleva-se de entre a massa de homens, não por responder, submissamente, aos desejos do leitor; não por dobrar a cabeça perante ele, não pela sua falta de carácter; não pela sua falta de ideias; não pelo seu apego ao convencionalmente estabelecido; o escritor eleva-se de entre a massa de homens, precisamente, pelas ideias de que ele é portador e bem como um Sol que no alto Céu brilha, resvala sobre as cabeças humanas alguma da sabedoria, alguma da luz que ele, na sua ciência, desenvolveu, tornando-se, assim, merecedor do respeito do público. Ele não é um mero receptáculo das opiniões circulantes – de outra forma como pode ele indicar o caminho aos outros, se tão-pouco ele é capaz de procurar o seu? Se ele é o respeitador submisso e prostrado do status quo como pode ele bradar pela mudança e pela revolução? Se no seu peito não brotassem os mais puros sentimentos, a elevação da alma, o respeito pelo seu mais intimo interior, como resiste ele às tentações banais, às ambições vulgares, aos desejos estéreis? Já Goethe dizia no seu “Fausto” – “Mas se o discurso não vem do coração/Alma com alma jamais unireis.”
Sua excelência diz-nos que o seu discurso e o seu coração são o leitor e não os seus íntimos ideais. Sua excelência é, portanto, um fiel servidor das massas e não um fiel servidor do seu espírito e, por isso, é incapaz de indicar aquilo que a literatura representa para si; é um adulador e bajulador do público, antes primeiro de respeitar a sua independência de alma – buscando a adoração da opinião pública com a libré de um interior corrompido pelo desejo da fama. Outros, contudo, permanecem na obscuridade, mas resistem fiéis às suas convicções, às suas opiniões, à sua concepção de literatura e não a uma lisonja do público – como outrora alguém dizia: não cedem aos “fetiches dos ridículos pagodes literários”. Esses miseráveis permanecem na obscuridade, mas fiéis à sua consciência – e essa luz clara e salutar que os faz conservar como nobres e íntegros, como pessoas de carácter que procuram pela força das suas ideias, da sua arte, da sua ciência, guiar esse público, não passivamente como sua excelência faz, mas activamente – pelo valor daquilo que nos é mais intimo: as ideias. Mas disso, sua excelência, não é capaz de compreender e segue pelo caminho mais curto e fácil. Sua excelência não é capaz de pensar por si, de ter as suas próprias ideias e de agir de acordo com elas. V. Ex.ª é, portanto, um escritor de aluguer, escrevendo consoante os gostos do público, independentemente das suas próprias convicções e das suas próprias concepções literárias – v. Ex.ª é um dos que proliferam pelo mundo da Literatura: é o graxista que lustre os seus livros conforme lhe é ordenado e ditado. A isso se chama hipocrisia e falsidade – e nisso a Literatura não consiste. Pregar Literatura por convenções de mercado não é Literatura: os Homens necessitam de alguém que os conduza; não de alguém que lhes pregue sermões por tal ser prática estabelecida – o costume, o uso.

1 comentário:

Daniela disse...

Oh dr, mas esta é a sua opinião e, deixe-me dizer-lhe, bastante correcta sob o meu ponto de vista. No entanto, se toda a gente pensasse como sua exa. e se guiasse pelo sublime retratando-o com a eloquência das palavras e a beleza da forma, desconfio que, poucos teriam a sensibilidade para o entender. ;)